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Planalto sempre penou nas mãos de 'aliados'

Gabriel Manzano e Valmar Hupsel Filho - O Estado de S.Paulo

17 Março 2014 | 02h 08

Ao comandar um movimento de protesto na Câmara dos Deputados, desafiar o PT e o governo e derrotá-los no voto - como fez na semana passada -, o líder do PMDB na Casa, Eduardo Cunha (RJ), repetiu uma cena que já se tornou comum na política nacional: o Planalto ser levado às cordas por um líder peemedebista.

Muito antes da presidente Dilma Rousseff, seus antecessores, desde José Sarney nos anos 80, tiveram de conviver com este desafio - um partido grande, mas sem projeto presidencial e cobrando um alto preço para dar apoio e garantir a governabilidade. Jader Barbalho, Itamar Franco, Geddel Vieira Lima, Roberto Requião e os hoje comportados Michel Temer, Renan Calheiros e Sérgio Cabral foram os "eduardos cunhas" de outros tempos.

Em março de 1987, o então presidente José Sarney, do próprio partido, recebeu um ultimato de seus "colegas" no Congresso Nacional. Vendo que seu governo perdia força e naufragava em crises por todo lado, o partido exigiu um "plano de salvação", ameaçando ir embora se isso não fosse feito. "Não se trata de desestabilização, mas de propostas construtivas", dizia o senador Afonso Camargo (PMDB-PR). A carta na manga desses situacionistas de oposição era um projeto para encurtar o mandato presidencial.

Foi também durante o governo Sarney que o então deputado Roberto Cardoso Alves (PMDB-SP) tornou célebre a frase que não se pejava de invocar nas negociações com o governo: "É dando que se recebe".

Nos seus oito anos de poder, Fernando Henrique Cardoso passou por seguidas provações nas mãos de líderes como Itamar, Geddel e Jader Barbalho. Seu plano de aprovar emendas constitucionais com várias reformas - especialmente a administrativa e a da Previdência - abriu um fértil campo para negociações. A certa altura, Geddel chegou a "exigir" um canal direto com o secretário-geral da Presidência, Eduardo Jorge, para acompanhar o andamento de certas medidas.

Itamar, primeiro como senador e, depois, como governador de Minas Gerais, nem sequer respeitava FHC pessoalmente. Tentou criar uma CPI da Corrupção contra seu governo e falava até em desapropriar a fazenda dele em Minas para dar aos sem-terra. Outro desses algozes, o então presidente do Senado Jader Barbalho, mandou a FHC, em 2001, carta pedindo que convocasse lideranças para discutir um novo salário mínimo. Eram sempre exigências garantidas pela força do partido nas comissões e votações no Congresso.

Aritmética. "O PMDB subverte a aritmética, quanto mais dividido, mais soma", explica o consultor político e professor da USP Gaudêncio Torquato. A legenda, diz ele, percebe que dividida é mais forte do que unida. "A força do partido está nessa federação de interesses locais e sem projeto nacional", afirma o cientista político Leonardo Avritzer, da UFMG.

Mas desta vez há algo novo, afirma Gaudêncio: o PMDB vai à luta para sobreviver. "O PT quer se tornar o partido com maior capilaridade no País" e o PMDB percebeu que tem de lutar para não desaparecer.

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