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Eleições 2014

Pastor defende prisão até para crianças e jovens abaixo dos 16

Ana Fernandes, Wladimir D’Andrade e Roldão Arruda - O Estado de S. Paulo

21 Agosto 2014 | 00h 25

Candidato diz ser contra idade penal mínima e que vetaria lei de união e adoção para homossexuais

O candidato do PSC à Presidência da República, Pastor Everaldo, defendeu nesta quarta-feira o fim do limite de idade para responsabilização penal. "A legislação tem que mudar. Em qualquer idade que cometer o crime, deve ser punido", disse, ao participar da série Entrevistas Estadão.

Diante da insistência dos entrevistadores para saber se não estaria falando em reduzir a maioridade penal, enfatizou que sua proposta é de não haver limite. Para o candidato, o que deve mudar é a aplicação de penas. "Dias atrás, em São Paulo, foi preso um menor, de 17 anos, com dez crimes nas costas. Chegou na delegacia e disse que ia matar o repórter e os policiais. Isso é um monstro. Não pode ser tratado como um jovem delinquente que roubou um celular na rua."

Everaldo Dias da Silva, que registrou a candidatura na Justiça Eleitoral como Pastor Everaldo, nome com que é mais conhecido nos meios evangélicos, ocupa o cargo de vice-presidente de seu partido e está em quarto lugar nas pesquisas eleitorais, com 3% das intenções de voto. Na entrevista de ontem, o candidato também criticou o atual sistema de acolhimento de jovens infratores.

 

"Roubou o celular e vai para uma dessas Febem da vida? Aí vira outro monstro", observou. "Temos que ter um sistema que coloque essas crianças e adolescentes de uma maneira que possam até desenvolver uma atuação social, esportiva, de alto rendimento."

Pastor ressaltou em diferentes momentos suas convicções religiosas e a filiação à Igreja Assembleia de Deus - Ministério Madureira. Afirmou que, caso o Congresso aprovasse alguma lei favorável à união entre pessoas do mesmo sexo, ele a vetaria imediatamente. O mesmo aconteceria se os legisladores se manifestassem favoráveis à adoção de crianças por homossexuais.

Sem união ou adoção. "Eu sou contra a adoção de crianças por pares homossexuais. Não é o melhor para a criança", declarou. "Se depender de mim, nunca vou aprovar uma legislação que permita a adoção por homossexuais. Se o Congresso aprovasse uma lei dessas, eu vetaria."

Em relação à união civil entre pessoas do mesmo sexo, Pastor Everaldo disse se opor porque contraria a ideia de preservação da espécie. "Graças a Deus vivemos num País que não é Cuba nem a Venezuela e no qual temos democracia e a liberdade de defender nossos princípios. A minha defesa do casamento heterossexual não é uma posição religiosa. É porque a perpetuação da espécie só se consegue dessa forma, se houver homem e mulher."

Dois evangélicos na disputa. Apoiado por destacados pregadores como o pastor Sila Malafaia, que divulgou recentemente um manifesto dizendo que evangélicos não deveriam votar no PT, o candidato do PSC e outras lideranças religiosas previam que poderiam atingir pelo menos 10% das intenções de voto assim que colocassem a campanha na rua. Mas, com a morte de Eduardo Campos e a entrada de Marina Silva em cena como cabeça da chapa do PSB, a previsão perdeu fôlego. Marina também é evangélica, da mesma denominação religiosa de Pastor Everaldo, e parte considerável dos quase 20 milhões de votos que obteve em 2010 vieram de eleitores desse credo.

Questionado sobre esse novo cenário, Pastor Everaldo procurou minimizá-lo. Disse que a candidatura do PSC foi definida em 2011 e mantida mesmo quando havia a possibilidade de Marina sair candidata, caso conseguisse o registro da Rede Sustentabilidade, negado pela Justiça Eleitoral.

O candidato também evitou críticas diretas a Marina, a quem se referiu como "a candidata", mas deixou claro que há diferenças entre eles. "A população não quer saber se é evangélico ou católico, mas se o candidato vai corresponder às suas expectativas", disse. "Tenho diferenças com a candidata. Um exemplo: o agronegócio. A candidata diz que o agronegócio é a pior coisa que existe. Eu já acho que é a alavanca desse País. Tem trazido riqueza, pão para a mesa do cidadão brasileiro e garantido uma boa receita na nossa exportação."

Isenção tributária. O candidato do PSC se manifestou contra a proposta apresentada por alguns setores sociais de revisão do atual modelo de não tributação de igrejas no País. "Essa legislação é antiga, anterior ao crescimento das igrejas evangélicas, e atendia às instituições religiosas", disse. "Hoje sobressai porque os evangélicos aumentaram. Sou favorável à manutenção da lei."

Sobre o envolvimento de integrantes da bancada evangélica no Congresso em escândalos de corrupção, como o da Máfia das Ambulâncias, em 2006, e o mensalão, com a condenação do Bispo Rodrigues no ano passado, respondeu que a maioria dos religiosos envolvidos com política não é corrupta e que não pode responder por outros. "Só posso responder pela minha pessoa."

Na avaliação do pastor, a corrupção é uma “erva daninha” que "sufoca um belo jardim" e precisa ser combatida.

Aborto. Um dos principais slogans da campanha do candidato do PSC ressalta que defende a família e a vida. Foi a forma que adotou para destacar que se opõe a qualquer mudança na atual legislação sobre o aborto.

Indagado se, na Presidência, isso não significaria uma tentativa de impor ao País sua convicção religiosa, respondeu que não se trata de religião. "Um médico que faz um juramento dizendo que vai defender a vida não é uma questão de religião. Creio que a defesa da vida começa na concepção. Isso também não é questão religiosa."

Alex Silva/Estadão
Pastor Everaldo defendeu estado mínimo mas com manutenção de programas sociais

Imposto sobre fortunas. Ao falar de temas econômicos, o candidato do PSC defendeu um programa liberal, com a privatização da Petrobrás e de todos os aeroportos do País, redução das atividades do Estado e parcerias com a iniciativa privada em quase todos os setores públicos, incluindo saúde e educação. Disse ser contra a taxação de grandes fortunas, medida que tem sido discutida como forma de reduzir as desigualdades sociais.

Também disse ser impossível promover uma redução imediata de impostos no País por causa do comprometimento da máquina pública. "Seria leviandade dizer que dá para reduzir os impostos hoje."

A proposta do candidato é acabar em 20 anos com tributos que deveriam ser partilhados pelos entes federativos. "Contribuições que não são repartidas com municípios nem Estados, essas eu vou extingui-las na proporção de um vinte avos por ano."

Pastor Everaldo, que tem formação atuarial, disse que se preocupa com a questão dos aposentados, mas não apresentou nenhuma proposta clara em relação à valorização das aposentadorias ou à situação da Previdência Social. "Estudei (o tema), só que não tenho os números aqui."

Financiamento público. O entrevistado defendeu o financiamento de campanhas por empresas privadas, como é feito hoje. Para ele, o que deve mudar é o nível de transparência em relação ao eleitor. "Precisamos de transparência total."

Alegou que, com as privatizações que promete realizar, o nível de conflito de interesses envolvendo doadores e políticos seria reduzido.

 

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