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Partidos demais

José Roberto de Toledo

A preferência partidária declarada pelos eleitores a Ibope e Datafolha ao longo dos últimos 25 anos compõe um filme dos altos e baixos da política brasileira após a redemocratização. E a história contada pelos números aponta um final nada feliz. Quanto mais partidos há, menos gente se diz simpática a eles.

Se há uma tendência nessa narrativa é a desilusão da maioria dos brasileiros com os partidos. Ambos os institutos convergem para uma taxa próxima a 60% de eleitores sem preferência por nenhuma sigla. Já houve surtos de despartidarização - na investigação do mensalão em 2005/2006 -, mas os últimos anos constituem o mais longo período em que os sem-partido formam a maioria absoluta.

Ao mesmo tempo, nunca houve tantas agremiações políticas. São 32 partidos registrados junto à Justiça eleitoral, dos quais 22 têm representação no Congresso Nacional. Juntos, eles recebem mais de R$ 300 milhões por ano de recursos públicos. Sem contar os benefícios extras e nada desprezíveis, como horas de propaganda no rádio e na TV a cada semestre, que também custam ao Tesouro.

Além de não ser gratuita, a propaganda partidária tem efeito oposto ao esperado. Em vez de envolver mais pessoas no debate político, as afasta. São tantas siglas vazias, numa combinação aleatória de chavões e palavras de ordem, que é impossível a sopa de letrinhas formar poema concreto na cabeça do eleitor. Ao contrário. É como se o público, ao fim do palavrório, intuísse que o que é bom para os caciques não é bom para a tribo.

Por certo não foi apenas a abundância de siglas caça-níquel que contribuiu para a despartidarização do eleitorado. A novela sem fim da corrupção sobrepõe camadas de desilusão a fatias de descrédito. No fim, forma um bolo só, recheado de partidos e coberto de ceticismo, opinionismo oportunista e despolitização.

Os 25 anos ininterruptos de eleições livres para todos os cargos no Brasil são também a história da ascensão e queda dos partidos que simbolizaram a seu tempo a mudança e os avanços sociais. Primeiro foi o PMDB. De resistência à ditadura, virou uma nova confederação dos tamoios, tomado por caciques que, cada vez com menos índios, gerenciam suas lucrativas franquias estaduais.

No começo dessa história, o PMDB chegou a ter a simpatia de mais de 20% do eleitorado. Hoje, está resumido a 5% e caindo. Na sua decadência prosperaram PSDB e PT. Os tucanos, porém, nunca decolaram de fato. Nem mesmo os impulsos do Plano Real e, depois, da investigação do mensalão, foram suficientes para transformar o PSDB em um partido de massa. Mal chegou a 10% das preferências. Hoje, atrai tanta simpatia quanto o PMDB.

O PT foi a agremiação que mais corações e mentes conquistou enquanto PMDB e PSDB perdiam simpatizantes. No auge, beirou os 30% de preferência do eleitorado. Mas o histórico dos últimos anos mostra uma curva descendente. No melhor cenário, os petistas estabilizaram em pouco mais de 20% dos eleitores - e acumularam uma antipatia equivalente de outros tantos.

Entre a sua ascensão, apogeu e queda o PT mudou de cara e de público. Os simpatizantes petistas envelheceram e migraram do Sudeste para o Nordeste. Ao mesmo tempo, o partido perdeu quase metade da penetração que tinha no eleitorado com nível superior.

É uma incógnita que tipo de mudança o PT estará apto a propor e implementar com essa nova base social de apoiadores.

Caso o partido perca o poder, quem ocupará seu vácuo? Por enquanto, nenhum partido dá sinais de estar preparado. Nenhuma sigla desponta nas preferências do eleitor. O PSB, que há poucos anos começou a ser citado nas pesquisas, ainda tem só 1%. O PV chegou ao auge em 2010. Hoje, quando é lembrado, não passa de 2%. A novidade nas ruas é o discurso antipartidário.

Mesmo essa novidade tem sido, até agora, incapaz de aglutinar interesses comuns e propor um modelo com chance de se contrapor ao cada vez mais antipático sistema partidário brasileiro.