Para que lado?

Pré-candidatos se movem feito baratas tontas entre direita e esquerda, sem bússola

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2017 | 05h00

Sacudidos pela tempestade Harvey representada pela Lava Jato na última quadra, os partidos e políticos brasileiros tentam achar nos escombros um figurino com o qual se apresentar ao eleitor zangado em 2018.

A inundação parece ter levado junto a bússola: siglas e postulantes se movimentam em zigue-zague da esquerda à direita, ora ocupando um centro instável, sem saber também para qual dos pontos cardeais do espectro político-ideológico vai pender o eleitorado no ano que vem.

Assim vê-se João Doria Jr. – identificado com a centro-direita e detentor de um potencial de votos nesse espectro – se apresentar confusamente como o “novo Macron”, inclusive fazendo questão de ser literal, ao visitar o recém-eleito e já impopular presidente da França. Ora, Macron tinha uma trajetória mais à esquerda e caminhou para a centro-direita para se viabilizar como candidato diante do ceticismo geral dos franceses com os partidos tradicionais.

Doria teria de fazer o deslocamento contrário, da direita à esquerda, justamente num momento em que a debacle do projeto lulopetista aponta para uma chance de que um candidato mais à direita emplaque no Brasil depois de décadas. 

O cavalo de pau embaça a imagem de Doria: de anti-Lula radical, ele já começa falar em conciliação, a dizer que o “nós contra eles” não ajuda. Afinal, com que roupa de seu vasto figurino o prefeito de São Paulo pretende posar para fotos desta vez?

Não é mais nítida até aqui a demarcação político-ideológica que o adversário direto e mais próximo de Doria procura fazer. Geraldo Alckmin, que em São Paulo sempre foi identificado com a ala mais à direita do PSDB – mas que em 2006 pagou o mico de vestir uma jaqueta de garoto-propaganda do estatismo nacional – agora diz ter ao seu lado o liberal DEM e o socialista PSB.

Tal como num cabo de guerra, os dois partidos, em tudo diferentes quanto ao que pregam sobre modelo de Estado e de economia, por exemplo, disputam a primazia de compor a chapa com o governador paulista.

Alckmin tem feito mais deferência ao “esquerdista” PSB. Seja em visitas constantes ao enclave pernambucano do partido, seja em elogios a seu vice, Márcio França.

Assim, avança o projeto de um pessebista como postulante a vice de Alckmin. E um nome surpreendente desponta: o do ex-comunista do Brasil Aldo Rebelo, que ensaia uma filiação ao PSB com a missão oficial de ajudar na montagem de palanques estaduais do partido, mas já está “escalado” como possibilidade para dar um perfil mais nordestino à chapa do superpaulista Alckmin.

E o que essa eventual dobradinha mostra? De novo, uma guinada à esquerda. Será este o figurino que o eleitor vai buscar em 2018? Ou o populismo econômico, ancorado em altas doses de paternalismo social, do lulopetismo esgotou seu ciclo?

A surpreendente falta de gritaria com o pacote de concessões anunciado pelo governo demonstra que o fantasma das privatizações não terá o peso nas urnas que teve em 2002, 2006 e até 2010. A roubança desenfreada promovida pelo PT e seus asseclas nas estatais causou ao menos esse efeito desmistificador. Seria esse um sinal de uma eleição com vetor mais de centro-direita? 

Faltam pesquisas mais aprofundadas sobre o que, depois de tanta lama e tanto trauma, o eleitor busca num candidato em 2018. O novo, como parece crer Doria? Tranquilidade e experiência, como martela Alckmin? Rigor e segurança, como vai tentar vender Jair Bolsonaro? Bravata e gogó, como oferecem Lula e Ciro Gomes? 

Cada um desses atributos tende a deslocar o ponteiro para a direita ou a esquerda. Por ora, os pré-candidatos se movimentam feito baratas tontas num mapa devastado pela crise, sem bússola que os oriente.

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