Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Política

Política » 'Para os EUA, Brasil era campo de batalha na Guerra Fria'

Eleições

Divulgação

ENTREVISTA:

ENTREVISTAPeter Bell, pesquisador sênior no Hauser Center for Nonprofit Organizations da Harvard University

'Para os EUA, Brasil era campo de batalha na Guerra Fria'

Ex-gestor da Fundação Ford revela pressão da CIA após decisão de conceder verba para a criação do Cebrap

FELIPE WERNECK , HELOISA ARUTH STURM / RIO

16 Setembro 2012 | 03h04

O norte-americano Peter Bell chegou ao Brasil em setembro de 1964, pouco depois do golpe militar, para assumir o recém-criado escritório da Fundação Ford no Rio. Ficou no cargo até 1969 e permaneceu no programa da fundação para a América Latina até 1973. Hoje com 72 anos, Bell é pesquisador sênior no Hauser Center for Nonprofit Organizations da Harvard University, nos EUA. Procurado pelo Estado para uma entrevista sobre os 50 anos de atuação no Brasil da Fundação Ford, que distribuiu mais de US$ 350 milhões em doações no País, o americano revela o encontro que teve com um oficial da CIA após ter comunicado à matriz em Nova York a intenção de conceder verba para a criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Bell também conta

o episódio em que foi recebido com uma bomba em sua primeira visita à Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais. "No contexto do período, entendo que alguns brasileiros possam ter desconfiado de mim", diz ele. Leia a seguir trechos da entrevista, concedida por e-mail.

O senhor poderia falar um pouco dos objetivos da atuação da Fundação Ford ao chegar ao Brasil há 50 anos?

O escritório brasileiro foi estabelecido logo no início das atividades da fundação na América Latina. Na época, o objetivo principal era conceder recursos para promover o desenvolvimento por meio de apoio institucional a programas voltados ao ensino superior. Naquela época, "desenvolvimento" era convencionalmente entendido sob um viés econômico, infraestrutural e científico, e era mensurado a partir do aumento da renda per capita. Por isso, as primeiras bolsas apoiaram cursos de pós-graduação em ciências, engenharia, administração pública e economia. Todas essas eram áreas relativamente "seguras" para uma fundação recém-chegada ao Brasil. Sua essência era tecnocrática e apolítica, e tinha pouca propensão à controvérsia. Recursos para universidades, incluindo a biblioteca da Universidade de Brasília, e para instituições como CNPq, CAPES e Fundação Getúlio Vargas provaram a sua importância.

Nota-se uma mudança no perfil das doações ao longo dos anos. No início, eram privilegiadas áreas como produção agrícola e controle do crescimento populacional. Nos anos 1970, houve uma migração de recursos para órgãos de pesquisa e, mais recentemente, para ONGs. Como ocorriam essas escolhas, o que motivava as decisões?

Com o tempo, a percepção sobre o termo "desenvolvimento" evoluiu, assim como nossa familiaridade com o Brasil. Mais do que isso, o contexto brasileiro para a nossa concessão de recursos e para pesquisa essencial também mudou. A fundação focou sua atenção nas ciências agrárias, por acreditar que a agricultura, embora essencial para o desenvolvimento, havia recebido apoio insuficiente para ensino, pesquisa e extensão. Nós também tivemos a audácia de apoiar a criação de serviços para saúde reprodutiva e planejamento familiar. Simultaneamente ao meu ingresso profissional na fundação, em setembro de 1964, e no início do regime autoritário, começamos a financiar pesquisa e cursos de pós-graduação na área de ciências sociais, incluindo ciência política, sociologia e antropologia social. Fizemos isso porque acreditávamos, assim como nossos colegas brasileiros, que os cientistas sociais poderiam ajudar a explorar e clarificar as dimensões política e social do desenvolvimento. Não demorou muito para descobrir que o apoio às ciências sociais poderia ser tão sensível e controverso quanto aquele dado ao planejamento familiar. Em meio à guerra fria, o governo militar confundiu cientistas sociais com socialistas e limitou sua liberdade de questionamento, expressão e associação. A Fundação percebeu que era insuficiente presumir que nós éramos "apolíticos" ou "tecnocráticos". Como organização transnacional, nós tínhamos a obrigação de explicitar os valores que regiam nossa concessão de subsídios e que eram essenciais para o progresso das ciências sociais e naturais. Ao mesmo tempo, não poderíamos ser partidários. Nas décadas mais recentes, com o escritório da fundação composto cada vez mais por funcionários brasileiros, e, à medida que o País foi se tornando mais democrático, a fundação engajou-se diretamente no apoio a programas para promover direitos humanos e reduzir a pobreza, frequentemente por meio de recursos a organizações não governamentais.

Como representante da fundação no início de sua atuação na América Latina, como o senhor avalia os críticos que, principalmente nos anos 1960 e 1970, viam tais instituições como agentes da política externa norte-americana?

No ápice da guerra fria, o governo norte-americano e suas agências de inteligência viam a América Latina e a maior parte do mundo através do prisma do combate ideológico e de poder contra a União Soviética e seus aliados. Nas décadas de 1960 e 1970, os EUA frequentemente viam o Brasil e outros países como "campos de batalha" na Guerra Fria. O que me motivou a trabalhar na Fundação Ford foi que nós, como uma organização independente, não precisávamos adotar essa mentalidade. Nós poderíamos tentar entender as aspirações das pessoas com as quais estávamos trabalhando e apoiá-las em seus próprios termos. No contexto do período, eu pude entender por que alguns brasileiros podem ter desconfiado de mim. Eu nunca vou me esquecer de quando fui recebido com uma ensurdecedora explosão na minha primeira visita à Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Os jovens professores com os quais me encontrava tentaram me garantir que eram apenas fogos de artifício. Um deles depois me confidenciou, no entanto, que era uma bomba detonada por estudantes como uma forma de aviso para manter distância. Com o passar dos anos, alguns desses jovens professores integraram o núcleo que desenvolveu o programa de pós-graduação em ciências políticas da universidade.

O apoio da fundação à criação de um centro composto por cientistas sociais expulsos da USP pelo regime militar, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é considerado emblemático. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse a pesquisadores da FGV que o apoio financeiro dado pelo senhor ajudava pessoas que estavam sendo perseguidas a se manterem no País e contou que, na época, era muito dinheiro, mas não lembrava o valor. O senhor recorda?

Eu era o diretor do programa, junto com o Frank Bonilla, assessor do programa na área de ciências sociais, que trabalhou com Fernando Henrique para elaborar a recomendação que o escritório brasileiro fez à Fundação para concessão de uma verba para a criação do centro. Eu não consigo lembrar a quantia exata, mas eu realmente considero-a uma das verbas mais importantes e gratificantes concedidas durante minha atuação na fundação. O Cebrap não somente ajudou a manter Fernando Henrique e seus colegas produtivamente engajados no Brasil, como também se tornou um centro líder de pesquisa e análise social no Brasil e em toda a América Latina. Embora Fernando Henrique não fosse um político na época, ele se tornou uma força primordial no restabelecimento da democracia no Brasil. Em julho, ele recebeu o Prêmio Kluge, que é como o Prêmio Nobel para as ciências sociais, por todas as suas realizações como estudioso e líder político. Mais de quatro décadas depois do primeiro benefício que concedemos, eu fiquei comovido quando ele me enviou um e-mail dizendo que, na época de maiores dificuldades no Brasil, a fundação tornou possível que ele escrevesse o que escreveu e fizesse o que ele fez.

É verdade que o senhor foi chamado pela embaixada americana para uma conversa após o apoio ao Cebrap? Havia algum tipo de pressão do Departamento de Estado norte-americano?

Pouco depois que enviamos para nossa sede em Nova York a recomendação do escritório brasileiro para a concessão da bolsa para o Cebrap, eu recebi um telefonema de um representante da embaixada americana no Rio. Ele começou me avisando: "Se você sabe o que é bom para a sua carreira, você irá desistir de obter a verba para o Cebrap". Eu disse a ele que nós trabalhamos muito na recomendação, revisamos com cuidado a proposta e os planos de Fernando Henrique e seus colegas, e estávamos convencidos de que atendia aos nossos parâmetros. Realmente, nós estávamos entusiasmados com aquela oportunidade. Eu realmente disse, entretanto, que, se ele tivesse alguma informação que fosse relevante para nossa decisão sobre o apoio, eu gostaria de ouvi-la. Ele respondeu marcando um encontro para mim no dia seguinte com um oficial da CIA. Ele chegou carregando uma pasta com memorandos e clippings de jornal. Eu examinei o material com ele: cada item simplesmente indicava que Fernando Henrique havia sido visto na presença de um "conhecido esquerdista". Eu disse ao meu visitante que a pasta era tão somente sobre "culpado por associação" e que eu não havia visto nada que invalidasse nossa recomendação aos representantes da fundação. Eles de fato rapidamente aprovaram a doação.

Com a crise financeira, estaria em curso uma mudança de perfil da filantropia norte-americana?

Não há dúvida de que as fundações estabelecidas nos EUA sofreram com a recessão econômica dos últimos cinco anos e com a obrigação legal de despender 5% de todas as doações que recebem a cada ano. Mas a chegada das fundações Gates (criada por Bill Gates) e Buffet (do investidor Warren Buffett) e a proliferação de outras fundações sugerem que a filantropia organizada continuará a ser um colaborador vital para o pluralismo dentro dos Estados Unidos e para a inovação e o dinamismo entre as instituições sem fins lucrativos. Além disso, um crescente número de fundações nos EUA está concedendo recursos de maneira transnacional. O número de fundações filantrópicas no Brasil também está crescendo e vai desempenhar uma papel ainda maior no País. Eu esperaria que as fundações nos EUA, Europa, América Latina, Ásia e África trabalhassem mais em parceria e aprendessem umas com as outras. Eu dirijo o comitê de uma fundação na Europa que em breve se reunirá com sua filial no Brasil justamente para promover um intercâmbio.

* Peter Bell foi representante da Fundação Ford no Brasil de 1964 a 1969; subsecretário do Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar dos EUA; presidente da Inter-American Foundation; membro sênior do Carnegie Endowment for International Peace; presidente da ONG CARE; co-fundador do Diálogo Interamericano e membro do conselho da Human Rights Watch. Atualmente, é pesquisador sênior no Hauser Center for Nonprofit Organizations da Harvard University.

Mais conteúdo sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.