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O novo cenário e a imagem de quem cobiça o eleitorado

Com os três protagonistas de volta à rua após a morte de Campos, Dilma, Marina e Aécio expõem as estratégias para conquistar votos

23 Agosto 2014 | 18h 31

A trágica morte de Eduardo Campos no dia 13 de agosto reconfigurou a disputa presidencial, colocando no páreo Marina Silva, uma candidata competitiva, e obrigou as campanhas petista e tucana a reavaliarem suas estratégias. A construção da imagem dos candidatos, porém, já vem sendo trabalhada há anos e continua sendo a base de apresentação feita aos eleitores nos programas de TV, iniciados na terça-feira da semana passada.

Temos a gerentona dura e enérgica que é capaz de tomar decisões com firmeza, mas também cozinhar no Palácio do Planalto em momentos de descontração. A mulher de aparência frágil e destino forte que foi ungida por uma “providência divina” para entrar na disputa presidencial. O político mineiro conciliador que pregava o pós-Lula e assumiu a veste de antídoto ao modo petista de governar.

O Estado levantou informações com as campanhas e organizou fatos para tentar mostrar com qual feição político-eleitoral chegam até aqui os principais concorrentes ao Palácio do Planalto.

Candidata à reeleição, Dilma era a “boa gestora”, mas nos últimos três anos e meio essa imagem se desgastou diante dos problemas administrativos e políticos e de índices baixos de crescimento do PIB e preocupantes no controle da inflação. Na atual disputa, mais “humanizada”, a ex-mãe do PAC assumiu a condição de presidente que vai divulgar a “verdade” sobre o seu governo e vencer o “pessimismo” dos adversários.

Depois de conquistar quase 20 milhões de votos em 2010 e não conseguir o registro de seu partido, a Rede Sustentabilidade, Marina Silva assumiu a candidatura do PSB centrada na ideia de romper com a polarização entre PT e PSDB e afastar do governo a “velha política”. A tragédia que abateu Campos deve reforçar o aspecto religioso da ex-ministra do Meio Ambiente.

Aécio, por sua vez, procura reiterar a imagem de que representa a real oposição ao PT e ao governo Dilma. O ex-governador mineiro, que flertou com petistas durante seu mandato e mantinha uma relação de aliado com Lula, é agora o mais duro crítico do PT, mas sempre tomando o cuidado de preservar o ex-presidente e seu “legado” social.

Ontem, pela primeira vez, os três favoritos na disputa foram às ruas simultaneamente para colocar à prova essas imagens. Após o trauma do acidente aéreo, a corrida começa para valer.

Dilma: A Gestora Agridoce

Presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, adota linguagem jovial e postura mais dócil para 'revelar a verdade escondida pelos pessimistas' a respeito de sua capacidade de administrar o País

Divulgação

Dilma Rousseff, 66 anos

Estado civil: Divorciada

Partido: PT

Coligação: PMDB, PSD, PP, PR, PDT, PC do B, PROS, PRB.

Formação: Economista

Cargos que já ocupou: Foi secretária do governo de Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, de 1999 a 2002, ministra de Minas e Energia, de 2003 a 2005, e da Casa Civil, de 2005 a 2010; foi eleita presidente em 2010

A presidente Dilma Rousseff respondia a internautas em 7 de julho quando a personagem Dilma Bolada, criação do publicitário Jeferson Monteiro, pediu que ela postasse um “é tóis”, gíria usada pelo atacante Neymar no lugar de “é nóis”. Orientada por assessores, Dilma pôs o antebraço direito sobre o punho esquerdo formando um “T”, abriu um sorriso e posou para a foto. Em poucas horas, o “é tóis” presidencial foi replicado nas redes sociais, publicado em sites de notícias, copiado, adaptado e parodiado. Virou meme, mensagem que ganha vida própria da rede.

O objetivo era mostrar que a candidata à reeleição realmente estava ao computador com internautas naquele primeiro dia útil de campanha oficial. Se em 2010 Dilma foi apresentada como boa gestora, desde 2011 essa imagem foi arranhada por problemas administrativos e políticos e índices econômicos frustrantes. Em 2014, Dilma quer ser vista como gestora capaz de tomar decisões com firmeza, mas também como mulher que “sente saudade da filha e do neto”, que trabalha e que cozinha quando possível, como mostrou sua estreia na propaganda eleitoral.

A goleada que o Brasil levou da Alemanha no dia seguinte ao “é tóis” transformou o “T” de Dilma no 7 do placar do jogo e a euforia do País com a Copa em vergonha. Mas o gesto aparentemente infantil passou a simbolizar um dos alicerces da estratégia para Dilma seguir no Planalto: o Brasil pecou nos gramados, mas foi bem-sucedido como anfitrião e organizador do maior evento do mundo.

Ao se vincular ao Mundial, Dilma lançou a âncora que lastreia o discurso do PT no qual a “verdade” vencerá o “pessimismo”. A lógica é: se os pessimistas erraram nas previsões da organização da Copa, tampouco acertam quando falam do cenário econômico, dos atrasos em obras ou das barbeiragens políticas da presidente. A “verdade”, que, segundo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é escondida por “certa imprensa”, virá à tona nos programas elaborados pelo publicitário João Santana para o horário eleitoral.

 

Assim, o PT pretende maquiar erros de gestão e articulação cometidos por Dilma ao longo do mandato – muitos apontados pelos próprios integrantes do partido – e culpar os “pessimistas”.

“Primeiro diziam que Dilma era só uma boa gestora e não sabia fazer política. Depois disseram que era mais política do que gestora. Vamos mostrar que ela tem capacidade de gestão – e a Copa demonstrou isso – e de articulação política, ao fazer uma ampla aliança em torno de sua candidatura”, disse o presidente nacional do PT, Rui Falcão, coordenador-geral da campanha.

A estratégia ganhou reforço inesperado com os xingamentos à presidente na abertura da Copa. Os insultos ajudaram os petistas a tentar transformar Dilma de vilã em vítima das elites. 

Página em branco. Para quem participou da primeira campanha da presidente, reconstruir a fama de Dilma será mais difícil do que o trabalho feito em 2010. Antes daquela eleição, Dilma era desconhecida da maioria da população e os estrategistas puderam usar ferramentas do marketing e da política para criar uma imagem atraente da candidata. Era como “escrever em uma página em branco”, na definição de um aliado.

Em novembro de 2002, quando o então presidente eleito Lula anunciou os últimos integrantes do ministério, entre eles a titular de Minas e Energia, assessores petistas nem sequer sabiam como grafar Rousseff. Dilma deu uma resposta surpreendente ao ser questionada pelo repórter se estaria só esquentando a cadeira para o PMDB: “Pode ser que sim”.

A “ministra-tampão” se consolidou no cargo, ganhou a confiança do presidente, assumiu a Casa Civil após a crise do mensalão e recebeu o carimbo de candidata em 2007, durante visita a uma plataforma da Petrobrás onde Lula imprimiu a mão suja de óleo no macacão laranja de Dilma.

Mas faltava à escolhida uma marca própria. A primeira veio pelas mãos do próprio Lula, que, em março de 2008, ao lançar obras de infraestrutura no Complexo do Alemão, no Rio, apresentou a pupila como “mãe do PAC”, o Programa de Aceleração do Crescimento criado para ser o maior pacote de obras do País. O título destacava dois componentes da imagem de Dilma: mulher e gestora.

Fora de risco. No ano seguinte, a futura candidata foi surpreendida pelo diagnóstico de um linfoma, divulgado por ela própria em abril. Para disfarçar a queda de cabelo provocada pelo tratamento quimioterápico, Dilma passou a usar peruca. Só no início de 2010, com o câncer sob controle, a equipe de João Santana começou a trabalhar de fato a imagem da candidata.

Para isso tiveram, primeiro, de driblar o estilo despojado da futura presidente. Dilma não usa esmalte e corta as próprias unhas. Foi convencida a duras penas a incorporar a maquiagem à rotina, mas aprovou o corte assinado pelo cabeleireiro Celso Kamura. 

Dilma fez tratamento nos dentes e peeling. Auxiliares tentaram, sem sucesso, convencê-la a trocar esfihas e quibes por frutas secas e queijo branco. Os maiores estilistas do País enviaram dúzias de modelos, mas ela até hoje prefere as roupas criadas pela gaúcha Luisa Stadtlander. 

Por vezes os assessores esbarraram no temperamento forte da presidente. No fim de 2010, antes de tomar posse, Dilma foi recebida pelo então presidente da França, Nicolas Sarkozy, e ficou na dúvida sobre o que usar: calça ou saia? Os assessores foram unânimes em indicar saia, mas Dilma recusou com um argumento convincente: “A Angela Merkel só usa calça”, afirmou, citando a chanceler alemã. 

Quatro anos depois, os estrategistas da campanha de Dilma precisam destacar os melhores ângulos da presidente e neutralizar os arranhões do exercício do poder. O primeiro ano de governo foi marcado pela queda de sete ministros acusados de corrupção. Santana transformou a adversidade em oportunidade e criou o rótulo “faxina”. A estratégia ajudou a descolar Dilma de Lula, ainda marcado pelo mensalão. Na sequência vieram ações para reduzir os juros bancários e a conta de energia. A presidente ganhou a simpatia da classe média, avessa ao PT desde o escândalo de 2005. A aprovação dela foi às alturas.

A queda do crescimento do PIB de 2,7% em 2011 para 0,9% em 2012 abalou parte dessa imagem. No ano seguinte, o risco de alta da inflação simbolizado pelo aumento do preço do tomate, associado a atrasos no PAC e ao estilo autoritário de governar, manchou a fama de gestora competente.

A impressão era de uma presidente politicamente isolada, que reabilitou “faxinados” para o centro do poder, e ameaçada pela volta da inflação. Pesquisas davam indícios de insatisfação com a economia e surgiam críticas públicas ao modelo de comunicação do governo. Para piorar, agora era Lula quem enfrentava um câncer – na garganta – e estava fora de combate.

Redesenho. Apesar disso, Dilma mantinha altos níveis de aprovação pessoal. Só as imprevisíveis manifestações de junho de 2013 foram capazes de derrubar essa popularidade. De março a julho, a aprovação de Dilma despencou de 63% para 31%, segundo o Ibope.

A presidente assumiu as rédeas da reação e convocou um gabinete de crise para identificar projetos parados nos escaninhos da burocracia e colocá-los em prática. As reuniões eram tensas. Em um domingo à noite, no Palácio da Alvorada, Dilma interrompeu o debate acalorado entre ministros: “Vocês não sabem o que está acontecendo, eu não sei o que está acontecendo, ninguém sabe”.

Dias depois, Dilma foi à TV anunciar cinco compromissos com o País. A proposta de Assembleia Constituinte para a reforma política foi bombardeada até por aliados como o vice Michel Temer, mas dessa lista frutificou o Mais Médicos, uma das vitrines do governo mesmo após a polêmica sobre a vinda de profissionais estrangeiros, ao lado do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).

A aprovação não voltou aos patamares pré-junho de 2013, e o ano da campanha à reeleição começou com um furo na fama de gestora: a revelação de que Dilma deu aval à compra da refinaria de Pasadena (EUA) pela Petrobrás, negócio que provocou US$ 792 milhões de prejuízo à estatal, segundo o Tribunal de Contas da União.

Exibir na campanha obras do governo em andamento é um dos instrumentos para redesenhar a imagem da boa gestora. Nas últimas duas semanas, Dilma gravou para a propaganda eleitoral em canteiros em Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, Rondônia e Pará. 

Além disso, Santana tenta adocicar a sisudez de Dilma mostrando a candidata à reeleição no meio do povo e posando para as já famosas “Rousselfies”. Os jovens, muitos dos quais foram às ruas em 2013, são o principal alvo. Pesquisas mostram que parte deles se beneficia dos programas de Lula e Dilma, mas não dá o devido crédito. Santana vai vender a ideia de que o esforço pessoal desses jovens só deu resultado graças a oportunidades criadas pelo governo. 

Para ter mais empatia com esse eleitorado, o publicitário usou uma colagem em estilo pop art sobre a foto de Dilma aos 21 anos, recém-presa pela ditadura. A imagem ilustra o clipe do jingle Coração Valente, tentativa de vincular a presidente que combateu os militares aos manifestantes de 2013. “A minha luta continua na luta de vocês”, disse Dilma a jovens em São Paulo, há duas semanas.

Na ocasião, a presidente recebeu um grafite de um artista da periferia feito sobre outra imagem cara à Dilma, na qual aparece diante de um tribunal militar, em novembro de 1970, após meses de cárcere e tortura. “Naquele dia ela reencontrou seu companheiro, Carlos Araújo”, disse o jornalista Ricardo Batista do Amaral, que revelou a foto na biografia A Vida Quer é Coragem. É com a imagem de valente na condução do País e terna no trato com o povo que Dilma quer chegar ao fim de outubro podendo postar um novo “é tóis”, sem risco de goleada.

Marina: Deus e a nova política

Marina Silva, do PSB, chega à disputa presidencial, segundo suas palavras, por 'providência divina', e encara o desafio de romper a polarização entre petistas e tucanos com o discurso voltado às manifestações de junho

Percio Campos/EFE

Marina Silva, 56 anos

Estado civil: Casada 

Partido: PSB  

Coligação: PPS, PPL, PHS, PRP e PSL

Formação: Historiadora  

Cargos que já ocupou: Pelo PT, foi vereadora em 1988, deputada estadual em 1990 e senadora em 1994 (foi reeleita ao Senado em 2002). Foi ministra do Meio Ambiente nos dois mandatos de Lula. Em 2010, concorreu, pelo PV, à Presidência da República

Uma candidata que se considera “um milagre da educação” por ter chegado aonde chegou depois de aprender a ler apenas aos 16 anos. Uma candidata que diz confiar “em Deus e na Justiça” ao se deparar com a iminente recusa do registro de seu partido. Uma candidata que, ao ver o aliado desaparecer após uma trágica queda de avião, atribui a uma “providência divina” o fato de não estar no mesmo voo.

A religiosidade – e, para alguns, o messianismo – acompanha a trajetória de Marina Silva. Foi fundamental para transformá-la num nome viável ao Palácio do Planalto – o voto evangélico engrossou seu bom desempenho na campanha presidencial de 2010, quando acabou na terceira colocação, com 19,33% da preferência dos eleitores brasileiros. É, ao mesmo tempo, usada por adversários para associá-la a uma espécie de “obscurantismo” que não vê legitimidade em causas como o casamento gay, pondo, assim, em xeque, a aura progressista adquirida por sua história de defesa do meio ambiente.

A história pessoal de Marina ajuda a narrativa dos aliados sobre a mulher predestinada. Aos 56 anos, já esteve à beira da morte diversas vezes. Nascida numa família de seringueiros no Acre, enfrentou três hepatites, cinco malárias e uma leishmaniose. Sofre até hoje as consequências de uma contaminação por mercúrio. Alfabetizou-se tarde – “um milagre da educação” – e trabalhou como empregada doméstica. No mesmo ano em que entrou para a política, ao se eleger vereadora de Rio Branco em 1988, viu o amigo e referência Chico Mendes ser assassinado.

Ao drama pessoal superado, à experiência de participar de um governo popular como o do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministra do Meio Ambiente, ao afastamento desse mesmo governo desgastado por anos no poder, soma-se nesta eleição o discurso da “nova política”, turbinado pelas manifestações de junho de 2013.

Marina: construção da imagem
Reprodução

Marina Silva, de 56 anos, tornou-se candidata após a morte de Eduardo Campos. Na caminhada até o dia 5 de outubro, a ex-ministra de Lula levará consigo sua trajetória de militante da causa ambiental e o discurso da "nova política".

Enquanto os jovens iam às ruas naqueles dias do ano passado para dizer que não se sentiam mais representados pelos políticos tradicionais, Marina colocava seus seguidores para obter assinaturas a fim de criar um partido só seu, a Rede Sustentabilidade. Era um projeto ambicioso após o fim da parceria com o PV, legenda que a abrigara na eleição presidencial anterior.

A criação de uma estrutura própria parecia ser o óbvio após a má experiência com os verdes. Marina não se integrara a eles. Tinha seu próprio grupo. Ao mesmo tempo, era acusada pelos anfitriões de tentar mandar no partido.

A criação da Rede, porém, esbarrou na falta de planejamento e no fato de a Justiça Eleitoral não ter validado todos os apoios obtidos. Quando já havia sinais claros de que ela e o seu grupo não conseguiriam reunir as 500 mil assinaturas necessárias para ter o registro legal, Marina se recusou a discutir um plano B – confiava “em Deus e na Justiça”. O apelo divino não foi atendido.

Em 3 outubro de 2013, ao deixar, já à noite, a sede do Tribunal Superior Eleitoral derrotada, Marina tinha menos de 48 horas para decidir o que fazer. Ela poderia optar por dois caminhos: ou se filiava a uma outra legenda para poder se candidatar ao Palácio do Planalto ou ficava sem partido e, consequentemente, fora da disputa.

Na madrugada, revelou a um grupo restrito de parentes e amigos o que chamou de plano C: estava disposta a abrir mão de ser cabeça de chapa. Queria apoiar a candidatura de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e presidente do PSB, à Presidência. Numa manobra surpreendente, se filiou ao partido e criou um fato político relevante: uma pré-candidata com cerca de 16% das intenções de voto seria a vice de um pré-candidato que não chegava a ter 5% de apoio do eleitorado.

Lula. O PSB havia deixado a base aliada do governo Dilma Rousseff há poucas semanas quando Marina tomou a decisão de entrar para o partido. Na avaliação de dirigentes da sigla, esse foi o momento que consolidou a candidatura de Campos à Presidência. Antes de assinar a ficha de filiação, a ex-ministra pediu garantias de que ele iria até o fim, mesmo diante dos apelos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem mantinha uma relação de respeito e amizade.

Marina e Campos foram colegas de Esplanada durante o governo Lula. Ela ocupou o Ministério do Meio Ambiente de 2003 a 2008. Ele ocupou o da Ciência e Tecnologia entre 2004 e 2005. Não eram muito próximos e chegaram até mesmo a ficar em lados opostos em discussões como o uso de energia nuclear e a liberação do plantio de transgênicos. Na primeira vez que apareceram juntos na TV, no programa do PSB exibido em março deste ano, apresentaram-se como os “filhos da esperança”, em referência ao mote usado por Lula na campanha vitoriosa de 2002.

O então candidato do PSB adotou muitas das ideias de Marina, inclusive a da “nova política”. Ao lado da companheira de chapa, criticava a distribuição de cargos em troca de apoio e dizia que iria governar sem as velhas raposas. Os próprios aliados de Campos admitiam, porém, que esse discurso na sua boca soava artificial. Quando esteve à frente do governo do Estado de Pernambuco não foi exatamente esse modelo que adotou. As divergências mais explícitas entre a dupla apareceram durante a montagem dos palanques estaduais. Enquanto Campos liberava as alianças costuradas pelo PSB nos Estados, como o apoio à reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo e ao petista Lindbergh Farias no Rio, Marina condenava as escolhas publicamente.

Mas essas diferenças não abalaram o relacionamento entre os dois. Antes da convenção que oficializou a chapa em 28 de junho, selaram um acordo para deixar os problemas para trás. No dia do ato, Campos brincou dizendo que só brigaria com a vice se alguém o obrigasse a comer a comida dela – devido a problemas de saúde, Marina é conhecida por ter uma série de restrições alimentares.

Acidente. No dia 13 de agosto, Campos deixou o Rio de Janeiro rumo a Santos. Na noite anterior, após dar uma entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, pediu para Marina acompanhá-lo na agenda de campanha no litoral paulista. Marina, em razão de suas restrições à aliança do PSB com os tucanos do Estado, preferiu não ir junto.

O jatinho no qual estavam o candidato e outras seis pessoas caiu, num desastre sem sobreviventes. De uma hora para outra, Marina, que dez meses antes havia abandonado seu projeto presidencial, estava de novo no páreo. A circunstância era surpreendente, dolorosa e, para muitos, inexplicável. Foi quando Marina falou em “providência divina” por não estar no mesmo voo. “Esses são mistérios que nós não compreendemos, nem em relação aos que ficaram nem em relação aos que foram”, afirmou ao desembarcar no Recife para acompanhar o enterro do ex-governador pernambucano.

A narrativa sobre a candidata predestinada, mais uma vez, ganhava força. Durante o velório de Campos, pessoas da própria família comentavam que só viam sentido na morte do então candidato se Marina chegasse ao Palácio do Planalto. Foram os familiares do ex-governador que consolidaram sua candidatura com apoio público ao seu nome, já no dia seguinte à tragédia. Havia resistências dentro do PSB. Integrantes do partido já vislumbravam uma situação difícil: teriam uma candidatada forte, com reais chances de vitória, mas sem qualquer ligação orgânica com a legenda.

Os problemas não tardaram a aparecer. Na semana passada, nas primeiras reuniões para o rearranjo da candidatura, o secretário-geral do partido e coordenador-geral do comitê eleitoral, Carlos Siqueira, deixou o encontro em Brasília dizendo que Marina não era Campos, que não o representava. E acusou a ex-ministra de querer mandar no partido – argumento semelhante ao dos antigos aliados verdes de Marina.

Futuro. De hoje até 5 de outubro, serão 43 dias de uma campanha traumatizada pelo acidente que matou não apenas um candidato, mas também um líder político que unia pessebistas e aliados. O primeiro desafio de Marina, dizem pessoas próximas, é não deixar o PSB fugir: ao mesmo tempo em que o discurso da “nova política”, sem concessões, aproxima Marina do eleitorado insatisfeito com o atual sistema representativo, afasta a candidata de apoios importantes na eleição.

Ela também terá de lidar com a desconfiança de setores empresariais – o ramo de infraestrutura a considera sectária, assim como o do agronegócio.

Ao mercado financeiro, apoiadores como o economista Eduardo Giannetti e a herdeira do banco Itaú, Maria Alice Setubal, ou Neca, como é conhecida, tentam mostrá-la como uma opção segura. Compromissos, como o de dar autonomia de ação para o Banco Central, vêm sendo firmados.

O discurso, de acordo com os aliados, também precisa ser modulado. Campos morreu sem criticar diretamente Lula. Durante a campanha, voltou a sua carga contra Dilma. Dizia que a presidente não conseguiu colocar em prática as medidas necessárias para que o Brasil continuasse a crescer.

Marina também terá dificuldades em criticar Lula. Apesar da sucessão de embates perdidos quando estava à frente do ministério, ela deixou o governo em 2008 sem críticas públicas à figura do ex-presidente. A dúvida dos colegas é se isso se estenderá também a Dilma.

Ao curto período até o dia das eleições soma-se o pouco tempo que o PSB tem no programa eleitoral de TV.

Na semana passada, os dois minutos diários de propaganda eleitoral foram usados para homenagear Campos e apresentar Marina como candidata. A imagem do ex-governador vai ser mantida viva até o fim das eleições. Se antes era Marina quem impulsionava a candidatura do companheiro de chapa, agora se espera que a memória dele a faça chegar à Presidência da República.

Aécio: De pós-Lula a Antipetista

Para pavimentar plano de chegar ao Planalto Aécio Neves, candidato do PSDB, promove um processo de desconstrução da imagem de conciliador, se afasta do ex-presidente e investe num perfil mais conservador

André Dusek/Estadão

Aécio Neves, 54 anos

Estado civil: Casado

Partido: PSDB

Coligação: DEM, PTB, SDD, PT do B, PMN, PTC, PTN e PEN.

Formação: Economista

Cargos que já ocupou: Foi deputado federal de 1986 a 2002 e presidiu a Câmara dos Deputados em 2001. Elegeu-se governador de Minas Gerais em 2002,foi reeleito em 2006 e, em 2010, chegou ao Senado

 

Pouco depois de ser eleito presidente da República em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva foi a Belo Horizonte para um encontro com o então governador de Minas Gerais, Itamar Franco. Apesar de ser filiado ao PMDB, o ex-presidente que lançou o Plano Real e projetou o tucano Fernando Henrique Cardoso não disputou a reeleição. Preterido pelo partido, que lançou Newton Cardoso, Itamar trabalhou abertamente por um tucano, o deputado Aécio Neves, que acabou eleito. No fim da conversa, Lula fez uma revelação ao interlocutor. “Aécio será tratado como um governador do PT.” Nos oito anos em que esteve à frente do governo mineiro, Aécio cultivou a imagem de amigo do partido de Lula. Petistas insatisfeitos com a proximidade diziam que ele era um “tucano de bico vermelho”. Aécio apresentava-se como um conciliador, e falava no “pós-Lula”, sugerindo ser o único capaz de unir os dois adversários nacionais em um futuro projeto comum.

Nas eleições municipais de 2008, por exemplo, Aécio, então governador, fez aliança com então prefeito petista de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, em torno da candidatura do secretário de Desenvolvimento Econômico de Minas, Marcio Lacerda, do PSB.

Para pavimentar o plano de chegar ao Palácio do Planalto, entretanto, o tucano promoveu um processo de desconstrução dessa imagem. No Senado e, principalmente, na presidência nacional do PSDB, abraçou o antipetismo como causa, mas sempre tomando o cuidado de preservar Lula e seu “legado”. Ou seja: os programas de transferência de renda. “Hoje, o Brasil está pior do que há quatro anos. O Brasil, que vinha bem, perdeu o rumo”, disse o candidato em tom solene em seu primeiro discurso na propaganda eleitoral na TV.

A estreia dessa estratégia em rede nacional aconteceu bem antes, em maio de 2013, no popular Programa do Ratinho, no SBT. “Lula teve a virtude de juntar todos os programas do governo FHC em um só, que virou o Bolsa Família.” Um tucano que acompanhou de perto as últimas campanhas presidenciais do partido diz que a tática funciona como um “antídoto” contra o previsível discurso do medo, que não foi bem combatido por José Serra e Geraldo Alckmin nos pleitos anteriores.

 

O norte da campanha continuou o mesmo depois da surpreendente entrada de Marina Silva na disputa. Na mais recente pesquisa Datafolha, Dilma registrou 34% de rejeição – a mais alta entre os candidatos. “Não vamos criar fantasmas. Nossos adversários continuam sendo o PT e a Dilma”, diz o senador José Agripino (DEM), coordenador da campanha de Aécio.

Família. A perspectiva de uma disputa fora da zona de conforto das fronteiras mineiras exigiu outra reformulação da imagem que Aécio construiu em Minas – essa, mais delicada. Desde o começo, os marqueteiros de Aécio preocupavam-se com sua fama de boêmio e conquistador de beldades famosas. Isso nunca incomodou o eleitor mineiro, mas na campanha presidencial poderia ser fatal. “Sempre tentaram colar nele a fama de playboy, mas isso nunca colou. Aécio teve a sabedoria de frequentar boates fora de Minas. Se fosse aqui, estaria perdido”, brinca José Eustáquio de Oliveira, o “Taquinho”, que foi assessor de Tancredo no governo mineiro no mesmo período em que Aécio “carregava a mala” do avô.

No governo de Minas, Aécio sempre respeitou o que costumava chamar de liturgia do cargo, mas fazia questão de ressaltar que o fato de ser homem público não o impedia de levar uma vida normal, de sair e se divertir.

Ao se desincompatibilizar do governo de Minas para se candidatar ao Senado em 2010, o mineiro foi aos poucos adotando uma imagem mais sóbria. Os primeiros fios brancos começaram a despontar no cabelo do tucano. Gabriela, filha mais velha do primeiro casamento do candidato, passou a acompanhar o pai com mais assiduidade em várias agendas pelo País.

Em outubro do ano passado, quando já viajava rodando o Brasil em ritmo de pré-campanha, casou-se com Letícia Weber, de 34 anos. No dia 8 de junho nasceram, prematuros, os filhos gêmeos do casal – Bernardo e Júlia. O casal de bebês ficou internado na UTI neonatal do hospital, drama que foi compartilhado com a imprensa.

No Dia dos Pais, o pequeno Bernardo recebeu alta após 65 dias internado. Ao lado da Letícia Weber, Aécio deixou a Clínica Perinatal, em Laranjeiras, na zona sul do Rio, com o filho no colo. Deu ali mesmo uma entrevista coletiva dizendo que apresentará um projeto de lei propondo que o período de quatro meses de licença-maternidade das mães de filhos prematuros comece a contar a partir da alta do bebê. Disse também que pretende ampliar os leitos de UTIs neonatal na rede pública.

Antes do início da campanha eleitoral na TV, a equipe de Aécio produziu um desenho animado para reforçar a blindagem contra eventuais ilações sobre seu passado “baladeiro”. “Aos 11 anos, Aécio mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro, onde viveu sua adolescência. Lá estudou e começou a trabalhar. Aécio gostava de jogar futebol e de surfar, mas não era de viver à toa. Aos 17 anos descolou emprego em uma revendedora de carros em Botafogo e entrou na economia da PUC”, dizia o vídeo.

Mesmo com a projeção nacional que conquistou ao assumir a presidência da Câmara dos Deputados, em 2001, quando tinha apenas 41 anos, Aécio conseguiu manter-se em evidência durante a gestão no Estado natal. No Palácio da Liberdade, além do figurino de político conciliador, ele mobilizou forças internas para enfrentar o poderio dos paulistas no PSDB. Rivalizou com José Serra até onde deu, para ser considerado como opção para a campanha de 2010. Assim, com a vitória da petista Dilma Rousseff, credenciou-se como nome natural para a disputa deste ano.

No primeiro desenho da estratégia de comunicação de Aécio, o nome forte do seu marketing era o antropólogo Renato Pereira, que ganhou prestígio após comandar a campanha de Henrique Capriles contra Hugo Chávez na Venezuela em 2012. Mas a parceria terminou em dezembro do ano passado. A versão oficial é que os dois tinham “diferenças de visões”. Mas, segundo pessoas que trabalharam na equipe de Pereira, o motivo do rompimento foi outro. O marqueteiro teria entrado em atrito com a irmã de Aécio, Andrea Neves.

Jornalista, Andrea sempre teve forte ascendência sobre o irmão, atuando como uma espécie de guardiã de sua imagem. No primeiro governo de Aécio em Minas, ela coordenou um grupo de comunicação que comandou a estratégia de comunicação do Estado. Na pré-campanha, Andrea recebeu carta branca do irmão. Foi ela, por exemplo, quem montou uma estrutura de atuação nas redes sociais que operava em Belo Horizonte fora do radar da campanha oficial.

Renato Pereira acabou sendo substituído por Paulo Vasconcellos, o marqueteiro que trabalhou com os irmãos Neves em todas as campanhas.

Presidente. Para os críticos, a passagem de Aécio pelo governo de Minas foi marcada por uma postura dócil da imprensa local. Ao retornar ao Congresso, o tucano já esperava um ambiente mais hostil. Nos dois primeiros anos de mandato, foi cobrado pela atuação considerada “apagada” na Câmara Alta. Essa postura mudou no primeiro semestre de 2013, quando Aécio começou a admitir a candidatura presidencial. Já com o controle do partido, o mineiro decidiu assumir a presidência do PSDB para ter liberdade de ação mais de um ano antes da convenção nacional que o escolheu como presidenciável tucano.

Naquele momento já estava consolidado seu discurso antipetista, que se afastou de Lula e cujo projeto presidencial foi apadrinhado por Fernando Henrique Cardoso – fundamental para que Aécio fincasse bases em São Paulo. Para atrair votos no maior colégio eleitoral do País, ele moldou uma imagem mais conservadora na política e na economia, adequada ao eleitorado do Estado.

“Queremos tirar o País das garras de um partido político que se esqueceu de suas origens e da sua história”, afirmou o tucano ao assumir a presidência do PSDB. Claramente, a tática passava pela reedição da polarização com o PT e a aposta no desgaste dos 12 anos de poder dos partidários de Lula. Isso, procurando sempre ressaltar que as conquistas sociais não ficariam ameaçadas. Pelo contrário, poderiam ser ampliadas com uma gestão pública mais eficiente.

Governador. A vitrine do governo de Minas, contudo, virou vidraça quando, em 20 de julho, o jornal Folha de S.Paulo revelou que o governo mineiro gastou quase R$ 14 milhões na construção de um aeroporto no município de Cláudio, em área desapropriada de seu tio-avô, Múcio Tolentino. A pista, que fica localizada a 6 km de uma propriedade da família do senador, começou a ser construída em 2008, no segundo mandato de Aécio, e ficou pronta em outubro de 2010 – quando ele já havia deixado o governo. A reportagem mostrou que o local era administrado por familiares de Aécio.

O episódio gerou desgaste na imagem do mineiro, que demorou a admitir que usou a pista ainda não homologada pela Agência Nacional de Aviação Civil. Embora tenha sempre afirmado que não via irregularidade no investimento público, o caso deixou Aécio na defensiva durante a primeira das entrevistas de candidatos à Presidência na bancada do Jornal Nacional, da TV Globo.

Na pré-campanha, Aécio procurou se aproximar de Eduardo Campos, o candidato do PSB, tentando atrelar um eventual apoio do ex-governador num 2.º turno com Dilma. Campos, sob pressão de sua então vice, Marina Silva, rejeitou a investida e preferiu seguir o roteiro original da proposta de terceira via. Após a morte de Campos – em um acidente aéreo, no dia 13, em Santos (SP) – e a ascensão de Marina como candidata a presidente, o tucano tenta agora reafirmar que é sua candidatura, e não a de Marina, que representa o antagonismo ao projeto do PT.