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No Rio, mais de 1 milhão de eleitores sem vontade de escolher

Na capital fluminense, 26,8% não votaram no 2.º turno; Crivella vê ‘rejeição à política’; Freixo cita ‘desesperança’

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2016 | 05h00

RIO - A advogada carioca Rachel Lima, de 31 anos, não saiu para votar anteontem. Achou que seu dia seria mais proveitoso em casa, estudando para o concurso público que vai prestar semana que vem. “Moro em Bonsucesso e voto em Campo Grande (bairros distantes cerca de 40 quilômetros), não valia a pena. Minha abstenção foi um protesto. (O candidato do PSOL, Marcelo) Freixo é muito moderno para a nossa realidade e o (candidato do PRB, eleito, Marcelo) Crivella é muito conservador”, afirmou.

Como ela, mais de 1,3 milhão de eleitores não votaram no segundo turno, 26,8% dos 4,8 milhões de eleitores inscritos. O total de votos em branco foi de 149.866 (4,2%) e o de nulos, 569.536 (15,9%). Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal, venceu Freixo, deputado estadual e militante dos direitos humanos, com 59,4% dos votos.

Nesta segunda-feira, 31, Crivella minimizou esses índices. “Matematicamente não foi impactante, mas foi uma rejeição não só a mim e a ele (Freixo), mas à política de um modo geral. Tivemos 1,7 milhão de votos e iremos honrá-los”, disse o prefeito eleito.

Neste domingo, 30, após a derrota, Freixo afirmou que as abstenções e os votos nulos e em branco eram efeito da “desesperança” do eleitor. “Por um lado, a gente enfrentou um fundamentalismo religioso e político; por outro, uma desesperança muito grande. Mas conseguimos reverter isso em muita gente e tivemos mais de um milhão de votos. Não há um outro lugar para resolver nossas questões coletivas a não ser a política.”

Vendedor ambulante, Ailton Ferreira, de 45 anos, se disse indiferente aos dois candidatos. “Eu já não estava com vontade de votar. A condução estava demorando e desisti. Não vi muita diferença entre eles. É difícil saber se colocariam em prática o que falavam.” Ele afirmou que soube das propostas apresentadas pelas candidaturas “pelo boca a boca dos amigos”.

Falta de identidade. O camelô Lúcio Cunha, de 41 anos, foi eleitor no primeiro turno de Pedro Paulo (PMDB), apoiado pelo atual prefeito, Eduardo Paes, e se absteve no domingo. “Não me identifico com eles. Crivella tem história, Freixo até poderia ser bom, mas não com o PT do lado”, disse. “Não valia meu esforço de sair, pegar fila. Acho que o Crivella vai fazer um bom governo, é um bom cidadão”, afirmou Cunha.

A reportagem abordou aleatoriamente transeuntes nesta segunda-feira no Largo da Carioca, ponto do centro do Rio de grande movimento de pessoas. A maior parte disse ter anulado o voto ou nem sequer foi às urnas.

A aposentada Inez Moraes, de 69 anos, comemorou o fato de, por causa da idade, nas próximas eleições, seu voto ser facultativo. “Eu anulei porque nenhum dos dois está apto para ocupar a prefeitura. Não tenho nada contra o Crivella. Mas o Freixo não tem educação”, afirmou Inez.

‘Lógico’. A advogada Ana Calado, de 42 anos, defendeu o voto nulo como “lógico”. “O último debate foi decisivo. Os candidatos deveriam ter se preocupado em apresentar propostas concretas, e não ficar se agredindo. A população já está tão sofrida! Crivella já mostrou que encara o cargo para lucrar.”

 

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