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Morte de Ivan sela destino de Ivã na Funai

Lourival Sant'Anna - O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2014 | 02h 00

Coordenador de fundação foi demitido em meio a confronto iniciado com assassinato de cacique

 

No dia 29 de novembro, habitantes da Terra Indígena Tenharim Marmelo se reuniram na aldeia Vila Nova para celebrar o encerramento dos trabalhos da primeira brigada indígena de combate ao incêndio florestal, fruto de um convênio com o Ibama. Lá estavam o cacique Ivan Tenharim, da aldeia Kampinhu'hu, assim como os chefes da maioria das 13 aldeias, e seu xará Ivã Bocchini, coordenador da Regional Madeira da Funai.

Quatro dias depois, a morte do cacique desencadearia uma sequência de acontecimentos que culminaria na exoneração do coordenador da Funai, publicada na sexta-feira. A foto feita pelo repórter do Estado (acima), em que os dois aparecem juntos, foi não só talvez a última do cacique, mas também o último instante de uma estabilidade tensa que se romperia em seguida. Até hoje não se sabe do que o cacique morreu. Seus familiares dizem tê-lo visto caindo de sua moto, e sustentam que a morte foi acidental. Entretanto, dias depois, Bocchini publicou no blog da Coordenação Regional do Madeira que o cacique teria sido assaltado e espancado até a morte por homens brancos.

A versão passou despercebida na região, até que o desaparecimento de três brancos, no dia 16, levou à especulação de que eles teriam sido vítimas de vingança pela morte do cacique. O paradeiro de Aldeney Salvador, funcionário da Eletrobrás, do representante comercial Luciano Ferreira e do professor Stef de Souza ainda é desconhecido.

Mas a vinculação entre a versão do coordenador da Funai e os desaparecimentos levou centenas de moradores da vila de Santo Antonio do Matupi, no município de Manicoré, que abrange parte da Terra Indígena, a atacarem as aldeias, desmantelando os odiados postos de pedágio mantidos pelos índios, e levando à fuga de muitos deles.

Fazendeiros e madeireiros do Matupi e também de Apuí, o próximo município ao longo da Transamazônica, queixam-se de que o pedágio, imposto pelos índios em 2007, representa mais uma sobretaxa para os produtores da região, que já enfrentam a estrada de terra e o alto preço da tonelada do calcário usado na correção do solo - que sai por R$ 15 de Cáceres (MT), a 1.800 km, e chega a Apuí por R$ 380. Os índios cobram R$ 70 das carretas, R$ 60 dos caminhões, R$ 20 das caminhonetes, R$ 15 dos carros e R$ 10 das motos - na ida e na volta.

De acordo com fiscais do Ibama, graças ao pedágio, os índios pararam de vender madeira. Em 2011, o Ibama fez uma grande apreensão de madeira ilegal na Terra Indígena. Mas, segundo o cacique Zelito Tenharim, funcionário da Funai, os índios tinham vendido a madeira para "botar pressão" para que o pedágio, considerado ilegal, fosse mantido. "O pedágio nos trouxe qualidade de vida, os índios estão bem nutridos graças a ele", afirmou Zelito. Segundo ele, a receita custeia os estudos de 22 indígenas nas universidades de Humaitá e uma aluna de medicina em Cuba.

O ressentimento é alimentado pelas disputas de terra. Fazendeiros do Matupi disseram ao repórter do Estado que algumas das terras mais férteis da região estão na Tenharim Marmelos. "Estamos lutando para mudar, deixar as melhores terras para a produção e as terras que não produzem para a reserva", disse o pecuarista Maximiano Carreta, que mantém contatos com os governos em Manaus e Brasília. Dois agricultores acenaram, em aprovação.

"Não dá certo", reagiu mais tarde o cacique Domingos Tenharim, da aldeia Vila Nova, a quem o repórter perguntou o que achava dessa ideia. "Essa troca é muito ruim." Segundo o cacique, "não nasce nem pasto" nos campos que os fazendeiros querem deixar para os índios. Domingos disse que os índios plantam mandioca, arroz, feijão, milho, batata, melancia, abacaxi e cana. "Por enquanto, não temos gado, mas pretendemos ter."

Para completar, a aldeia Vila Nova tem eletricidade e conexão de internet por rádio - confortos inexistentes na maioria das fazendas da região. Tudo isso serviu de combustível para a explosão de revolta em pleno Natal.

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