Márcio Fernandes/Estadão <br>
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Marina perde apoio no final da campanha e sai enfraquecida

Após fase apoteótica como candidata do PSB substituindo Eduardo Campos, ex-ministra comete erros e fica fora

Isadora Peron, O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2014 | 00h34

Marina Silva foi alçada à condição de candidata do PSB à Presidência em consequência de uma tragédia, a morte de Eduardo Campos num acidente aéreo, e entrou na campanha com ares de favorita. Mas, atacada por seus principais adversários, foi perdendo força e, após a abertura das urnas, termina a jornada enfraquecida politicamente.

A derrota foi desenhada nos últimos dias da disputa do primeiro turno. Mesmo assim, Marina tentou manter o bom humor e não demonstrar abatimento. Além de procurar mostrar fidelidade a seus princípios. “Estou aqui não como derrotada, mas como alguém que sabe que não teve de abrir mão de seus princípios para ganhar uma eleição’’, disse ontem à noite, em entrevista em São Paulo.

No entanto, se em 2010 o terceiro lugar na corrida presidencial foi comemorado como uma vitória por Marina, ficar na mesma posição este ano tem gosto de amarga derrota. As explicações para esse desfecho são muitas. Passa pela falta de estrutura partidária, os recuos programáticos e a demora para reagir aos ataques dos adversários.

Talvez o primeiro erro de Marina tenha acontecido quando ela ainda era vice de Campos. Defensora do que chama de nova política, rechaçou publicamente alianças que o PSB fez com nomes do PSDB e PT em importantes colégios eleitorais, como São Paulo e Rio. O preço: fez diversos atos políticos esvaziados nos dois Estados. Além disso, deu abertura para especulações de que lhe faltaria apoio político para governar.

Marina também errou no que seria o seu grande trunfo: a divulgação do programa de governo. Um dia depois de apresentar à sociedade um documento de 242 páginas, sua equipe teve de correr para alterar um trecho que, conforme a justificativa, teria ido por engano para a gráfica.

Se o capítulo não fosse justamente sobre a ampliação dos direitos dos homossexuais, tema delicado porque Marina é evangélica, a história poderia ter sido vista apenas como um descuido de seus assessores. Mas o episódio tomou outra dimensão. No imaginário popular (e nas redes sociais), a versão que prevaleceu foi a de que Marina recuou após pressões do pastor Silas Malafaia. Hoje, seu grupo de aliados admite que o custo político do recuo foi alto demais.

Por defender uma nova maneira de fazer política, as contradições de Marina foram mais cobradas do que as dos políticos tradicionais. Ao subir no palanque de Paulo Bornhausen, candidato do PSB ao Senado de Santa Catarina, teve de ouvir do PT que abraçava apoiadores da ditadura – o pai de Paulo, Jorge Bornhausen, foi um dos principais nomes da Arena, partido que deu sustentação ao regime militar.

Esse, porém, não foi o único ataque desferido pela campanha da presidente Dilma Rousseff. O arsenal foi amplo e versátil, passando por críticas sobre a sua proposta de independência do Banco Central até ilações sem fundamento de que Marina iria acabar com o Bolsa Família ou deixaria em segundo plano a exploração do pré-sal.

Do lado tucano, os ataques também vieram. O principal argumento usado por Aécio Neves foi comparar Dilma com Marina, já que ambas foram ministras do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Marina foi filiada ao PT por 24 anos.

Desgaste. Marina sentiu tamanha virulência. Nas últimas semanas, perdeu peso e a voz. Sentiu-se particularmente ofendida com as críticas feitas por Lula, por quem sempre teve respeito e admiração. Queixou-se sobre o assunto com aliados mais próximos e, durante uma entrevista, chorou. O episódio foi usado para reforçar a imagem de que Marina era frágil, já que ela tem um histórico de doenças e restrições alimentares.

Mesmo pressionada pela coordenação da campanha, Marina resistiu a revidar de maneira mais enfática aos ataques que sofria. Somente nessa última semana de campanha assumiu um tom mais eloquente, ao chamar Dilma de mentirosa e classificar o PT como “essa gente”.

Outro problema para Marina foi a falta de traquejo e a dificuldade de tomar decisões rápidas. As agendas de campanha eram sempre organizadas na véspera. Decisões simples costumavam ser discutidas à exaustão, em busca do tal consenso progressivo defendido pelo grupo. A simples tentativa de fazer uma carreata era vista como um dilema moral por Marina, já que ela se diz contra esse tipo de ato de político, por considerá-lo atrasado e pouco sustentável.

Soma-se a tudo isso o fato de Marina ser um corpo estranho dentro do PSB. A convivência entre os dirigentes da sigla e os representantes da Rede Sustentabilidade nunca foi pacífica, por mais que estivessem, na teoria, dividindo um mesmo projeto de poder.

Marina, porém, reluta em admitir erros e considera que seria precipitado neste momento fazer uma avaliação. "Precisamos de tempo para 'metabolizar' o que aconteceu", afirmou, ao brincar dizendo que estava falando em "marinê castiço".

Para ela, tal avaliação só poderá ser feita daqui a algum tempo. "Derrota ou vitória se medem na História, erro ou acerto também. Em determinados momentos, você precisa esperar pela História."

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