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Eleições 2014

Marina: Deus e a nova política

Isadora Peron - O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 19h 00

Marina Silva, do PSB, chega à disputa presidencial, segundo suas palavras, por 'providência divina', e encara o desafio de romper a polarização entre petistas e tucanos com o discurso voltado às manifestações de junho

Marina Silva, 56 anos

Estado civil: Casada 

Partido: PSB  

Coligação: PPS, PPL, PHS, PRP e PSL

Formação: Historiadora  

Cargos que já ocupou: Pelo PT, foi vereadora em 1988, deputada estadual em 1990 e senadora em 1994 (foi reeleita ao Senado em 2002). Foi ministra do Meio Ambiente nos dois mandatos de Lula. Em 2010, concorreu, pelo PV, à Presidência da República

Uma candidata que se considera “um milagre da educação” por ter chegado aonde chegou depois de aprender a ler apenas aos 16 anos. Uma candidata que diz confiar “em Deus e na Justiça” ao se deparar com a iminente recusa do registro de seu partido. Uma candidata que, ao ver o aliado desaparecer após uma trágica queda de avião, atribui a uma “providência divina” o fato de não estar no mesmo voo.

A religiosidade – e, para alguns, o messianismo – acompanha a trajetória de Marina Silva. Foi fundamental para transformá-la num nome viável ao Palácio do Planalto – o voto evangélico engrossou seu bom desempenho na campanha presidencial de 2010, quando acabou na terceira colocação, com 19,33% da preferência dos eleitores brasileiros. É, ao mesmo tempo, usada por adversários para associá-la a uma espécie de “obscurantismo” que não vê legitimidade em causas como o casamento gay, pondo, assim, em xeque, a aura progressista adquirida por sua história de defesa do meio ambiente.

A história pessoal de Marina ajuda a narrativa dos aliados sobre a mulher predestinada. Aos 56 anos, já esteve à beira da morte diversas vezes. Nascida numa família de seringueiros no Acre, enfrentou três hepatites, cinco malárias e uma leishmaniose. Sofre até hoje as consequências de uma contaminação por mercúrio. Alfabetizou-se tarde – “um milagre da educação” – e trabalhou como empregada doméstica. No mesmo ano em que entrou para a política, ao se eleger vereadora de Rio Branco em 1988, viu o amigo e referência Chico Mendes ser assassinado.

Ao drama pessoal superado, à experiência de participar de um governo popular como o do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministra do Meio Ambiente, ao afastamento desse mesmo governo desgastado por anos no poder, soma-se nesta eleição o discurso da “nova política”, turbinado pelas manifestações de junho de 2013.

Enquanto os jovens iam às ruas naqueles dias do ano passado para dizer que não se sentiam mais representados pelos políticos tradicionais, Marina colocava seus seguidores para obter assinaturas a fim de criar um partido só seu, a Rede Sustentabilidade. Era um projeto ambicioso após o fim da parceria com o PV, legenda que a abrigara na eleição presidencial anterior.

A criação de uma estrutura própria parecia ser o óbvio após a má experiência com os verdes. Marina não se integrara a eles. Tinha seu próprio grupo. Ao mesmo tempo, era acusada pelos anfitriões de tentar mandar no partido.

A criação da Rede, porém, esbarrou na falta de planejamento e no fato de a Justiça Eleitoral não ter validado todos os apoios obtidos. Quando já havia sinais claros de que ela e o seu grupo não conseguiriam reunir as 500 mil assinaturas necessárias para ter o registro legal, Marina se recusou a discutir um plano B – confiava “em Deus e na Justiça”. O apelo divino não foi atendido.

Em 3 outubro de 2013, ao deixar, já à noite, a sede do Tribunal Superior Eleitoral derrotada, Marina tinha menos de 48 horas para decidir o que fazer. Ela poderia optar por dois caminhos: ou se filiava a uma outra legenda para poder se candidatar ao Palácio do Planalto ou ficava sem partido e, consequentemente, fora da disputa.

Na madrugada, revelou a um grupo restrito de parentes e amigos o que chamou de plano C: estava disposta a abrir mão de ser cabeça de chapa. Queria apoiar a candidatura de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e presidente do PSB, à Presidência. Numa manobra surpreendente, se filiou ao partido e criou um fato político relevante: uma pré-candidata com cerca de 16% das intenções de voto seria a vice de um pré-candidato que não chegava a ter 5% de apoio do eleitorado.

Lula. O PSB havia deixado a base aliada do governo Dilma Rousseff há poucas semanas quando Marina tomou a decisão de entrar para o partido. Na avaliação de dirigentes da sigla, esse foi o momento que consolidou a candidatura de Campos à Presidência. Antes de assinar a ficha de filiação, a ex-ministra pediu garantias de que ele iria até o fim, mesmo diante dos apelos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem mantinha uma relação de respeito e amizade.

Marina e Campos foram colegas de Esplanada durante o governo Lula. Ela ocupou o Ministério do Meio Ambiente de 2003 a 2008. Ele ocupou o da Ciência e Tecnologia entre 2004 e 2005. Não eram muito próximos e chegaram até mesmo a ficar em lados opostos em discussões como o uso de energia nuclear e a liberação do plantio de transgênicos. Na primeira vez que apareceram juntos na TV, no programa do PSB exibido em março deste ano, apresentaram-se como os “filhos da esperança”, em referência ao mote usado por Lula na campanha vitoriosa de 2002.

O então candidato do PSB adotou muitas das ideias de Marina, inclusive a da “nova política”. Ao lado da companheira de chapa, criticava a distribuição de cargos em troca de apoio e dizia que iria governar sem as velhas raposas. Os próprios aliados de Campos admitiam, porém, que esse discurso na sua boca soava artificial. Quando esteve à frente do governo do Estado de Pernambuco não foi exatamente esse modelo que adotou. As divergências mais explícitas entre a dupla apareceram durante a montagem dos palanques estaduais. Enquanto Campos liberava as alianças costuradas pelo PSB nos Estados, como o apoio à reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo e ao petista Lindbergh Farias no Rio, Marina condenava as escolhas publicamente.

Mas essas diferenças não abalaram o relacionamento entre os dois. Antes da convenção que oficializou a chapa em 28 de junho, selaram um acordo para deixar os problemas para trás. No dia do ato, Campos brincou dizendo que só brigaria com a vice se alguém o obrigasse a comer a comida dela – devido a problemas de saúde, Marina é conhecida por ter uma série de restrições alimentares.

Acidente. No dia 13 de agosto, Campos deixou o Rio de Janeiro rumo a Santos. Na noite anterior, após dar uma entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, pediu para Marina acompanhá-lo na agenda de campanha no litoral paulista. Marina, em razão de suas restrições à aliança do PSB com os tucanos do Estado, preferiu não ir junto.

O jatinho no qual estavam o candidato e outras seis pessoas caiu, num desastre sem sobreviventes. De uma hora para outra, Marina, que dez meses antes havia abandonado seu projeto presidencial, estava de novo no páreo. A circunstância era surpreendente, dolorosa e, para muitos, inexplicável. Foi quando Marina falou em “providência divina” por não estar no mesmo voo. “Esses são mistérios que nós não compreendemos, nem em relação aos que ficaram nem em relação aos que foram”, afirmou ao desembarcar no Recife para acompanhar o enterro do ex-governador pernambucano.

A narrativa sobre a candidata predestinada, mais uma vez, ganhava força. Durante o velório de Campos, pessoas da própria família comentavam que só viam sentido na morte do então candidato se Marina chegasse ao Palácio do Planalto. Foram os familiares do ex-governador que consolidaram sua candidatura com apoio público ao seu nome, já no dia seguinte à tragédia. Havia resistências dentro do PSB. Integrantes do partido já vislumbravam uma situação difícil: teriam uma candidatada forte, com reais chances de vitória, mas sem qualquer ligação orgânica com a legenda.

Os problemas não tardaram a aparecer. Na semana passada, nas primeiras reuniões para o rearranjo da candidatura, o secretário-geral do partido e coordenador-geral do comitê eleitoral, Carlos Siqueira, deixou o encontro em Brasília dizendo que Marina não era Campos, que não o representava. E acusou a ex-ministra de querer mandar no partido – argumento semelhante ao dos antigos aliados verdes de Marina.

Futuro. De hoje até 5 de outubro, serão 43 dias de uma campanha traumatizada pelo acidente que matou não apenas um candidato, mas também um líder político que unia pessebistas e aliados. O primeiro desafio de Marina, dizem pessoas próximas, é não deixar o PSB fugir: ao mesmo tempo em que o discurso da “nova política”, sem concessões, aproxima Marina do eleitorado insatisfeito com o atual sistema representativo, afasta a candidata de apoios importantes na eleição.

Ela também terá de lidar com a desconfiança de setores empresariais – o ramo de infraestrutura a considera sectária, assim como o do agronegócio.

Ao mercado financeiro, apoiadores como o economista Eduardo Giannetti e a herdeira do banco Itaú, Maria Alice Setubal, ou Neca, como é conhecida, tentam mostrá-la como uma opção segura. Compromissos, como o de dar autonomia de ação para o Banco Central, vêm sendo firmados.

O discurso, de acordo com os aliados, também precisa ser modulado. Campos morreu sem criticar diretamente Lula. Durante a campanha, voltou a sua carga contra Dilma. Dizia que a presidente não conseguiu colocar em prática as medidas necessárias para que o Brasil continuasse a crescer.

Marina também terá dificuldades em criticar Lula. Apesar da sucessão de embates perdidos quando estava à frente do ministério, ela deixou o governo em 2008 sem críticas públicas à figura do ex-presidente. A dúvida dos colegas é se isso se estenderá também a Dilma.

Ao curto período até o dia das eleições soma-se o pouco tempo que o PSB tem no programa eleitoral de TV.

Na semana passada, os dois minutos diários de propaganda eleitoral foram usados para homenagear Campos e apresentar Marina como candidata. A imagem do ex-governador vai ser mantida viva até o fim das eleições. Se antes era Marina quem impulsionava a candidatura do companheiro de chapa, agora se espera que a memória dele a faça chegar à Presidência da República.

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