1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Kassab testa sua imagem como 4ª via no Estado

Pedro Venceslau - O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2014 | 02h 11

Depois de deixar prefeitura paulistana em baixa, líder do PSD se mostra a eleitores do interior

FRANCA - Pouco mais de um ano após sua despedida da Prefeitura de São Paulo, a qual deixou com o pior índice de aprovação popular desde Celso Pitta - 42% de ruim e péssimo no fim do mandato em 2012 -, Gilberto Kassab (PSD) começa a testar no interior do Estado a possibilidade de voltar ao jogo eleitoral.

Seus índices de intenção de voto estão longe do favorito Geraldo Alckmin (PSDB), governador que tentará a reeleição, e do segundo colocado nas pesquisas, o empresário Paulo Skaf (PMDB). Também não tem um padrinho político forte, como é o caso do ex-ministro Alexandre Padilha (PT), que contará com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no palanque. É, hoje, uma espécie de 4.ª via eleitoral.

Segundo seus cálculos, foram 40 incursões no interior até agora, em deslocamentos de avião alugado, helicóptero ou a bordo de um ônibus que, se a candidatura de fato vier a acontecer, será adaptado para receber uma pequena sala de reuniões.

Há no meio político quem duvide de que Kassab vá tentar voo tão alto como a disputa do governo do Estado. O ex-prefeito, porém, verbaliza cálculos que, segundo ele, provam que o Palácio dos Bandeirantes não é um sonho tão distante assim. "Eu tinha 20% de piso na avaliação ótima ou boa no auge da pauleira eleitoral no fim da minha gestão na Prefeitura. Acredito que até junho posso ultrapassar os 20% de intenção de voto na capital. O interior costuma acompanhar esse ritmo", afirmava ele ao Estado enquanto caminhava dias atrás pelas ruas de Franca, no nordeste paulista.

No caminho entre uma rádio e uma padaria, beijou uma garotinha no colo da mãe e conversou por cinco minutos com um engraxate que o reconheceu, mas foi pouco assediado pelos populares. Ao retornar para o veículo de um correligionário, Kassab foi abordado por um homem que se apresentou como presidente do PT na cidade. "Prefeito, vou lhe contar uma coisa em off. Estou torcendo pelo senhor, mas se não der certo, você dará um ótimo ministro da Dilma."

Kassab apenas sorriu. Para tentar mostrar que sua candidatura não é um "balão de ensaio", ele conta que deixará a presidência nacional do PSD em abril para dedicar-se exclusivamente à campanha. O comando da legenda fundada por ele - e que conta hoje com 42 deputados federais, a quinta maior bancada da Câmara - será repassado para o deputado federal Guilherme Campos.

Time. Kassab já conta com um grupo para a eleição. Ele diz que Alda Marco Antonio, sua vice-prefeita no segundo mandato, será sua candidata a vice-governador. O ex-prefeito apresenta o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles como o possível candidato ao Senado em sua chapa. No plano apresentado até o momento, Meirelles tem até suplente: Ricardo Patah, presidente da central sindical União Geral dos Trabalhadores (UGT).

O marqueteiro já contratado é Felipe Soutello, ex-braço direito de Luiz Gonzalez nas últimas campanhas do tucano José Serra, seu antecessor na Prefeitura e padrinho político quando venceu as eleições municipais de 2008.

As coordenações logística e política estão nas mãos de ex-assessores e ex-secretários da Prefeitura. João Aprá, ex-chefe de gabinete, já responde pela agenda da pré-campanha. Outro ex-chefe de gabinete, Arley Alves, o "Vermelho", cuidará das redes sociais.

A chamada "turma da Poli", uma referência aos antigos colegas da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo que integraram o primeiro escalão de seu governo na capital paulista, também está presente: Marcelo Rehder, Miguel Bucalém e Elton Zacarias irão, segundo Kassab, elaborar o programa de governo.

Ao falar sobre a formação de seu time, o ex-prefeito vislumbra como será disputar uma campanha sem o respaldo de Serra. "Nós continuamos amigos, mas não vou constrangê-lo a me apoiar. O Serra é uma pessoa de partido", diz Kassab. Em seguida, porém, o ex-prefeito deixa aberta uma porta de aproximação. "A vida é longa. Momentos de convergência ainda irão acontecer."

Durante sua passagem por Franca e Marília dias atrás, Kassab também discorreu sobre como espera compensar a baixa capilaridade do PSD em São Paulo, onde o partido comanda apenas 30 das mais de 600 cidades. As associações comerciais estariam para ele como o Sesi e o Senai para Paulo Skaf. Aliado do ex-prefeito, o ministro Guilherme Afif (PSD) presidiu a Associação Comercial de São Paulo e Kassab foi vice-presidente da Facesp (Federação das Associações Comerciais). Em todas as cidades que visitou na pré-campanha, as paradas na associações comerciais locais são obrigatórias. Na capital, Kassab reagrupou em torno de seu projeto quase todos os 30 militares aposentados que comandaram subprefeituras.

Outra questão recorrente é o dano à sua imagem por causa da chamada "máfia do ISS", um esquema de corrupção em que um grupo de auditores fiscais é acusado de ter, na sua gestão, desviado em torno de R$ 500 milhões dos cofres públicos. "No caso dos fiscais, o próprio Ministério Público se posicionou dizendo que se trata de um caso específico dos servidores concursados. A atual gestão teve vários servidores afastados dos cargos por suspeitas", afirma Kassab, testando uma resposta.

Plano B. O discurso firme de Kassab sobre a candidatura ao Palácio dos Bandeirantes ainda pode, segundo colegas paulistas, ser revertido num recuo estratégico e redirecionamento de forças para uma vaga no Senado. Skaf, por exemplo, ainda sonha em contar com o ex-prefeito como candidato ao cargo do Congresso.

Reservadamente, aliados de Kassab reconhecem que a provável ausência de Serra na disputa - o ex-governador sinaliza que disputará uma vaga de deputado federal - abriu uma "avenida" na eleição para senador. Esse tema, porém, é um assunto proibido no círculo de Kassab. "Minha decisão é irreversível", diz o ex-prefeito.

  • Tags: