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Irmãos Gomes enfrentam sua nova sigla e ex-aliados

Luciana Nunes Leal, enviada especial - O Estado de S.Paulo

17 Maio 2014 | 02h 02

Cid e Ciro não se entendem com PROS, legenda que adotaram, e terão Eunício e Tasso como adversários

FORTALEZA - Nas eleições do Ceará, os irmãos Cid e Ciro Gomes, principais líderes políticos do Estado, enfrentarão dois ex-aliados, Eunício Oliveira (PMDB), pré-candidato ao governo, e Tasso Jereissati (PSDB), que deverá disputar o Senado. O maior problema que têm para resolver no momento, porém, são os conflitos internos. Cid, governador, e Ciro, secretário estadual de Saúde, estão em guerra com a direção nacional do PROS, partido para onde migraram em outubro passado após deixarem o PSB por discordarem da candidatura de Eduardo Campos à Presidência da República.

Os irmãos acusaram parte da bancada de deputados do PROS de "chantagem", por ter exigido a saída do ministro da Integração Nacional, Francisco Teixeira, ligado a Cid. O líder do partido na Câmara, Givaldo Carimbão (AL), e outros deputados ameaçam abandonar a reeleição da presidente Dilma Rousseff e embarcar na campanha de Eduardo Campos. "Abomino qualquer tipo de chantagem. Recebi muitos convites quando decidi sair do PSB e sou grato por isso. A condição básica era o apoio a Dilma, o que foi garantido pelo PROS. Que diabo é isso agora? Estão com ciúme porque sou amigo da Dilma? ", reagiu Cid, em entrevista ao Estado.

O governador ainda não decidiu quem será o candidato do PROS à sua sucessão. Diz não ter pressa e que "quem deve iniciar o processo eleitoral é a oposição". Há duas semanas, o PMDB deixou o governo do Estado e fortaleceu a pré-candidatura do senador Eunício Oliveira, líder isolado em pesquisa Ibope/O Povo de 5 de maio. No pior desempenho, o peemedebista tem 42% e a petista Luizianne Lins, ex-prefeita de Fortaleza, chega a 12%.

Alternativa. O PT cearense é dividido entre o grupo liderado por Luizianne, adversária dos irmãos Gomes, e a ala do deputado José Guimarães, próximo do governador. Se Cid e Ciro optarem por deixar o PROS ou ficarem isolados no partido, a alternativa será apoiar um candidato petista próximo de Guimarães.

Eleito senador em 2010 na chapa de reeleição de Cid Gomes, Eunício diz que tinha a promessa do governador de apoiá-lo este ano, mas que o ex-aliado não se manifestou, quando foi procurado, em meados de abril. "Entendi o silêncio de Cid como uma resposta negativa", afirma. Eunício reconhece que a aliança com o PSDB é uma possibilidade. "Eu disse à presidenta Dilma: 'Se não houver acordo (com Cid Gomes), eu voto na senhora, mas vou abrir meu palanque'. Não tenho objeção em fazer uma aliança fora da base", diz o peemedebista. Na reforma ministerial, Dilma ofereceu a Integração Nacional a Eunício, em uma tentativa de tirar o senador da disputa cearense, mas ele rejeitou o convite.

Outro protagonista da eleição no Ceará deverá ser o tucano Tasso Jereissati, que rompeu com os irmãos Gomes em 2010, depois de 20 anos de aliança. Derrotado na disputa pelo Senado, o ex-governador e ex-senador foi pressionado pelo pré-candidato do PSDB à Presidência da República, senador Aécio Neves, a abrir um palanque no Estado de 6,1 milhões de eleitores - é o oitavo colégio eleitoral do País.

Tasso não aceita disputar o governo, mas concordou em ser candidato a senador. Pode se aliar a Eunício ou formar uma chapa com o ex-deputado e ex-prefeito de Maracanaú Roberto Pessoa, do PR. O nome de Tasso também faz parte da longa lista de possíveis candidatos a vice de Aécio.

O cenário de candidaturas está incerto, mas os eleitores não têm dúvida em apontar saúde e segurança como os principais problemas do Ceará. As reclamações de atendimento precário e falta de médicos se agravaram quando, em janeiro do ano passado, o governo do Estado gastou R$ 650 mil com um show de Ivete Sangalo de inauguração do Hospital Geral do Norte, em Sobral, base eleitoral da família Gomes.

Menos de um mês depois, a fachada do hospital desabou durante um temporal. Cid reage citando uma série de investimentos em saúde e diz que o atendimento à população é mais eficiente que no passado.

O governador enfrentou outras denúncias de gastos indevidos. Em 2008, pediu desculpas por ter levado a sogra para uma viagem à Europa paga pelo poder público. No ano passado, anunciou que mudaria o cardápio do Palácio da Abolição depois da denúncia de que caviar, lagosta e escargot faziam parte do buffet oficial.

Violência. Mas é o aumento da violência no Estado que domina a pré-campanha. O governador reclama do "uso eleitoral" do tema pela oposição, mas reconhece que o aumento dos homicídios é preocupante. O PSDB levou o assunto para as inserções do partido no rádio e na televisão.

"Tomei todas as medidas, aumentei o número de delegacias, investi em capacitação, aprimorei o controle externo, fui criticado porque comprei Hilux, mas são carros bons que rodam 24 horas", diz o governador, que atribui ao tráfico de drogas o aumento dos assassinatos. "Oitenta por cento dos casos estão associados a drogas", afirma.

O governo cearense contestou levantamento de uma ONG mexicana que apontou Fortaleza como a segunda capital mais violenta do País, com 72,8 mil homicídios por cem mil habitantes em 2013. O Centro Brasileiro de Estudos Latino Americanos (Cebela) aponta taxa de 54 assassinatos por cem mil habitantes na capital em 2011, mais que o dobro dos 25,2 assassinatos por cem mil habitantes de 1999.

"Meu filho quase foi atingido por uma bala quando saía da minha casa, com meu neto no colo", desabafa Maria de Lourdes Félix, de 58 anos, moradora de Bom Jardim, um dos bairros mais violentos da capital cearense. A construção da delegacia de Bom Jardim, obra de R$ 785 mil com recursos estaduais e federais, foi interrompida em dezembro. Segundo Cid Gomes, a construtora faliu e o Estado procura uma solução jurídica para concluir a delegacia.

"A violência será tema central da campanha. Nossas pesquisas indicam que a população tem a sensação de que existem duas polícias: uma para a área nobre e outra para a periferia, onde a polícia desperta a sensação de medo. Cid vai apresentar os investimentos em segurança, mas será confrontado com as altas taxas de homicídios", afirma o sociólogo César Barreira, coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC).

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