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Desafios Política Externa

Grandes potências, pequenos negócios

Lisandra Paraguassu e Iuri Dantas - O Estado de S. Paulo

31 Agosto 2014 | 22h 00

Itamaraty rejeita a tese de que País deixou de lado o 1º mundo - mas os números não o ajudam

BRASÍLIA - A crise financeira internacional, iniciada em 2008, revelou a fragilidade da política externa brasileira em relação às grandes potências e a baixa capacidade da indústria nacional de transformar em oportunidades, entre os emergentes, o período de dificuldades enfrentado pelos EUA e países europeus. Neste ponto, estatísticas, empresários e especialistas concordam: os produtos brasileiros perderam espaço nas compras americanas e foram substituídos por bens da China e da Europa.

Ao mesmo tempo, o comércio com a China, fonte de um generoso superávit comercial para o País, se mantém com a venda de grãos e minérios, as chamadas commodities. As medidas tomadas pelo governo Dilma não foram capazes de ampliar mercados e ainda se tornaram alvo de questionamentos dos EUA e da União Europeia na Organização Mundial do Comércio. Hoje, empresários e agricultores brasileiros pressionam os candidatos à Presidência por maior abertura comercial e assinatura de acordos de preferência comercial.

Chefe da diplomacia nacional, o ministro Luiz Fernando Figueiredo nega que o País tenha abandonado sua agenda com as grandes potências - EUA e UE. “Temos parcerias tradicionais que continuarão sempre. Não vamos abrir mão delas. Por isso queremos um acordo com União Europeia”, assinalou. “Mas isso não é excludente. Os Brics não excluem outras parcerias. As instituições que estamos criando não devem ser vistas como antagônicas ou alternativas, uma coisa não é contra a outra. Temos que nos abrir e estamos nos abrindo cada vez mais. Essa é a visão de política exterior que nós temos.”

Segundo Edoardo Pollastre, presidente da Eurocâmaras, entidade que reúne as câmaras de comércio do Brasil com os países da UE, o Brasil pode perder ainda mais espaço nas prateleiras do Velho Mundo. Ao se manter fiel às regras do Mercosul, que impedem o Brasil de negociar acordos bilaterais, o Itamaraty não consegue acompanhar as negociações da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimentos, o acordo de preferências hoje em discussão entre os EUA e a UE.

“O Brasil corre o risco de perder uma oportunidade fantástica. Um acordo EUA-Europa está marchando mas o Brasil vai ficar fora deste contexto, tem que correr para fazer um acordo Brasil-Europa”, afirmou. “Entendo a problemática argentina, mas o país líder é o Brasil, que deve impor a sua política.”

A presidente Dilma Rousseff ensaiou uma reaproximação ao escolher Antonio Patriota - então embaixador em Washington - como primeiro chanceler de seu governo. O diálogo azedou, porém, depois das revelações de espionagem, feitas por Edward Snowden. Para Rodrigo Perpétuo, professor de Política Internacional Contemporânea no Ibmec-MG, o episódio da espionagem levou Dilma a se aproximar mais do Mercosul e buscar apoio da Alemanha, onde a chanceler Angela Merkel também foi espionada.

Esse distanciamento pode ter influenciado na escolha da Suécia como parceira na renovação da frota de caças da Aeronáutica brasileira e culminou com a ausência dos americanos da licitação do campo de Libra, no pré-sal, arrematado por um consórcio de Petrobrás, Shell, Total e as chinesas CNPC e CNOOC.

A relação com os chineses é considerada pelo Itamaraty como a melhor de todas. O Brasil mantém um superávit comercial, mas só baseado em produtos agrícolas e minérios. Diplomatas consideram difícil o projeto de ampliar a exportação de manufaturados buscando nichos que os chineses não dominam. A grande preocupação é com a forte influência chinesa na América do Sul. Na visita ao País, o presidente Xi Jinping ofereceu US$ 35 bilhões para financiamentos no continente. O Brasil gosta da ideia, mas quer garantias de que sua influência regional não vai diminuir.

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