Governe-se com tal barulho

Fechadas as urnas e conhecido o resultado das mais disputadas e acirradas eleições presidenciais desde 1989, com 3% de diferença para a vencedora, a presidente reeleita terá de se defrontar com o desafio de governar um País de ânimos políticos acirrados como há muito não se via. Além disto, o processo eleitoral, em tudo que o abarca, deixará para os próximos quatro anos um cenário político mais complexo do que o encontrado pelos presidentes nos últimos 20 anos. E essa complexidade se refere a um conjunto de problemas, que listo aqui no que me parece uma escala do menor para o maior.

Cláudio Couto, O Estado de S. Paulo

27 Outubro 2014 | 00h26

O menor problema (embora nem por isto simples) é o novo Congresso. Ao que se nota, a presidente reeleita terá de contar mais do que antes com os partidos de adesão – aqueles que apoiam qualquer governo, independentemente da coloração programática, desde que bem recompensados com cargos e verbas. Na Câmara, esses partidos contavam com 13 agremiações até antes das eleições, saindo dela com 20. É bem verdade que, dentre eles, “apenas” 9 têm uma bancada de ao menos 15 parlamentares. E esses possuem o simbólico número de 50,1% das cadeiras. Ou seja, sem sua adesão, não se governará.

A dependência dessa adesão fisiológica se tornou ainda maior com o declínio da bancada partidária que tradicionalmente apoiava governos petistas. Com o apoio do PSB, esse grupo beirava, formalmente, os 30% da Câmara e do Senado. Mas com o rompimento das siglas, bem como a perda de deputados pelo PT, esse número se reduziu para menos de 20% na Câmara e ficou em um quarto do Senado. A situação melhoraria um pouco no caso de um reatamento entre PT e PSB – hoje muito difícil.

O segundo problema será tirar a economia do estado letárgico e, ao mesmo tempo, por freio à inflação. Isso requererá medidas que, no curto prazo, poderão ser impopulares (como cortes de gastos e elevação dos juros), provocando um desgaste logo de saída. Serão necessários sinais ao setor privado que possibilitem uma retomada da confiança empresarial, viabilizando o aumento do investimento privado no médio prazo. Caso este aumente, poderá propiciar um influxo favorável à popularidade governamental. Porém, se demorar a ocorrer, para além de seus problemas intrínsecos, tende a gerar um desgaste que aumentará ainda mais o custo das negociações políticas.

O terceiro problema está relacionado ao clima de conflagração e acirramento de ânimos que vem caracterizando de forma crescente o debate nacional. Nas páginas de blogueiros, nas redes sociais e nas ruas, o ânimo político tem sido mais acerbo do que entre as lideranças partidárias – ao menos as que ocupam posições institucionais de responsabilidade governamental. A criminalização pura e simples do adversário, a sabotagem digital e a disseminação de boatos perigosos até por alguns que têm cargos em governos (e, por isso mesmo, deveriam ser menos irresponsáveis) indica que o próximo período promete turbulências.

O uso cada vez mais intenso e pouco rigoroso da palavra “golpe” pelos dois lados da contenda, as evocações ao regime militar (com alguns o defendendo), as analogias histórica e teoricamente descabidas do Brasil com regimes autoritários, tudo isto produz um clima político que requererá da presidente reeleita e de seu partido uma iniciativa para o diálogo e uma ordem de moderação aos seus correligionários e simpatizantes.

Não levar isto em consideração, seja fomentando ainda mais a radicalização do debate, seja não chamando os seus às falas, pode até mesmo não ocasionar uma deterioração mais séria das condições institucionais, mas tornará o governo muito mais difícil. E, afinal, imagina-se que, ao ganhar uma eleição tão disputada, o que a vitoriosa mais deseja é justamente governar.

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