Dida Sampaio/AE
Dida Sampaio/AE

Ex-símbolo da ética, Demóstenes Torres é cassado em votação secreta no Senado

Em último pronunciamento, parlamentar diz ser julgado sem provas, mas acaba destituído do cargo por 56 votos a favor, 19 contrários e 5 abstenções

Ricardo Brito e Eugênia Lopes, de O Estado de S.Paulo

12 Julho 2012 | 03h08

 BRASÍLIA - Três meses após dizer que era só "amigo do empresário" Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, o senador Demóstenes Torres (ex-DEM, sem partido-GO) foi cassado nessa quarta-feira, 11, sob a acusação de mentir a colegas, receber vantagens indevidas e usar o mandato para defender interesses do contraventor. Em votação secreta de três minutos, após quase três horas de sessão de julgamento, o painel do plenário apresentou o placar: 56 votos favoráveis à perda de mandato, 19 contrários e 5 abstenções. Apenas o senador Clóvis Fecury (DEM-MA) não estava presente, por motivo de licença.

Demóstenes fica agora proibido de disputar cargos públicos até 2027, pena imposta pela Lei da Ficha Limpa, da qual foi o relator.

O ex-líder do DEM, que se notabilizou pelo discurso em defesa da ética e chegou a sonhar com voos presidenciais em 2014, entrará para a história como o segundo senador a ter o mandato cassado por quebra de decoro no País - Luiz Estevão (PMDB-DF) perdeu o mandato em 2000, acusado de mentir sobre seu envolvimento em desvios da obra do Fórum Trabalhista de São Paulo.

No oitavo discurso que fez em plenário desde a semana passada, o senador cassado chegou a pedir clemência. "Quem cassa senador é senador, não é a imprensa. Por favor, me deem a oportunidade de provar minha inocência. Não acabem com a minha vida, nem me deixem disputar outra eleição em 2030", afirmou.

No momento mais ousado do pronunciamento, de 35 minutos, alegou inocência e investiu contra o relator de seu processo no Conselho de Ética, Humberto Costa (PT-PE). Ele lembrou que Costa foi absolvido pela Justiça no caso da chamada máfia dos sanguessugas, um esquema de desvio de recursos da época em que comandou o Ministério da Saúde. "Ele provou que era um homem honrado; por que a minha cabeça tem que rolar?", questionou.

Isolado. Primeiro a chegar ao plenário, Demóstenes permaneceu isolado praticamente durante toda a sessão que culminou com a cassação de seu mandato.

Uma espécie de "cordão de isolamento" foi formado, deixando-o afastado dos demais senadores. Apenas seu advogado, Antonio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, ficou todo o tempo a seu lado. Poucos senadores se aventuraram a cumprimentá-lo - um deles foi Jader Barbalho (PMDB-PA). Apesar de o plenário estar cheio, o silêncio imperou na maior parte das três horas da sessão de cassação.

Conhecido na maior parte dos seus nove anos e meio de mandato por ser implacável na cobrança aos pares, Demóstenes chegou a pedir perdão, no discurso, a quem "levianamente" agrediu.

O senador Renan Calheiros (AL), líder do PMDB, permaneceu de braços cruzados durante o pronunciamento - Demóstenes havia pedido sua cassação em 2007 pela suspeita de ter contas pagas por um lobista de uma empreiteira. À imprensa Renan disse que o momento era "difícil". "É um constrangimento ter que julgar um colega", afirmou.

Credibilidade. Coube ao senador Randolfe Rodrigues (AP), do PSOL, partido que entrou com pedido de quebra de decoro contra Demóstenes em março, fazer uma das defesas mais enfáticas da cassação dele durante os debates. "O que está em jogo não é a condenação de conduta errônea. A votação de hoje é um sinal a milhões de brasileiros sobre a credibilidade de uma instituição centenária, fundamental para a democracia em nosso País."

Após a cassação, Demóstenes deixou rapidamente o plenário. Ele dará lugar ao engenheiro Wilder Pedro de Morais (DEM-GO), 44 anos. Ex-marido de Andressa Mendonça, atual mulher de Cachoeira, Morais tem até 90 dias para tomar posse, a partir da publicação do decreto de perda de mandato de Demóstenes, previsto para sair na quinta.

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