Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Em último debate Aécio usa Petrobrás e Dilma, a crise hídrica

Embora menos agressivos, Dilma e Aécio recorrem a temas como corrupção e gestão para tentar convencer indecisos

O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2014 | 00h47

No último debate antes da votação em 2.º turno, realizado na noite de sexta-feira pela TV Globo, Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) adotaram um comportamento mais polido, mas sem deixar de insistir nas táticas de desconstrução que marcaram toda a campanha presidencial. O tucano reforçou a estratégia de ligar a candidata do PT a casos de corrupção e questionar a situação econômica do País, enquanto Dilma levou para a discussão a crise hídrica do governo do PSDB em São Paulo e questionou a gestão de Aécio em Minas.

O debate ocorreu um dia depois de as pesquisas Ibope e Datafolha mostrarem que na reta final da campanha Dilma tem, respectivamente, oito e seis pontos porcentuais de vantagem sobre o candidato do PSDB.

Após a rejeição demonstrada ao clima beligerante de encontros anteriores, os candidatos demonstravam a nítida preocupação de não parecerem agressivos nas perguntas e respostas. Eles entraram lado a lado no estúdio da emissora, no Rio de Janeiro, e se cumprimentaram antes do início do debate.

O clima cordial parou por aí. Para garantir a audiência inicial do debate, Aécio abordou a reportagem da Veja logo na primeira pergunta. Segundo a revista, que adiantou para sexta-feira a circulação de sua edição do fim de semana, em depoimento na Justiça Federal como parte do acordo delação premiada, o doleiro Alberto Youssef – preso na Operação Lava Jato – disse que Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabiam do esquema de corrupção na Petrobrás.

O tucano questionou se a presidente tinha conhecimento das irregularidades. Ao introduzir a pergunta, voltou afirmar que ele, Marina Silva (PSB) e Eduardo Campos (PSB) – que morreu em um acidente aéreo – enfrentaram uma “campanha sórdida” e foram vítimas de calúnias e difamação promovidas pela campanha petista. Dilma respondeu em linha semelhante ao que havia feito ao longo do dia, no programa eleitoral e nas redes sociais.

“Essa revista tenta dar golpe eleitoral e não é a primeira vez. O povo não é bobo, candidato. O povo sabe que está sendo manipulada a informação porque não há nenhuma prova”, afirmou Dilma, que acusou Aécio de “endossar” a publicação. A presidente repetiu ainda que irá à Justiça para se defender.

Aécio, por sua vez, respondeu embasando a denúncia da reportagem, argumentando que a delação premiada, por meio da qual surgiu a informação questionada por Dilma, só traz benefício ao delator se forem apresentadas provas. Conforme a reportagem, Youssef não apresentou provas durante o depoimento.

O tema corrupção voltou a ser abordado no terceiro bloco, novamente pelo tucano. Aécio questionou a adversária sobre sua avaliação em relação às condenações no julgamento do mensalão, no qual ex-dirigentes petistas foram sentenciados a penas de prisão. Dilma rebateu questionando por que denunciados no chamado mensalão mineiro – esquema de arrecadação ilegal de recursos para a campanha à reeleição do então governador de Minas, Eduardo Azeredo (PSDB), em 1998 – ainda não foram julgados. Aécio, então, disse na tréplica que o principal acusado do mensalão mineiro, o ex-ministro Walfrido Mares Guia, é coordenador da campanha petista em Minas. Walfrido se livrou do processo em janeiro deste ano, quando a Justiça declarou prescrito os crimes de peculato e lavagem de dinheiro.

Água. Depois de explorar o assunto com mais ênfase no 2.º turno da campanha presidencial, Dilma aproveitou o agravamento do desabastecimento de água no Estado de São Paulo para questionar o adversário se não faltou planejamento à gestão do tucano Geraldo Alckmin. Aécio repetiu declarações anteriores e disse que a crise é culpa da falta de planejamento e de parceria do governo federal e apontou aparelhamento da Agência Nacional de Águas.

Dilma reagiu afirmando que “não planejar os investimentos para evitar a crise hídrica no Estado mais rico do País é uma vergonha”. “O senhor vai me desculpar, mas eu vou concordar com o humorista José Simão (colunista do jornal Folha de S.Paulo), vocês estão levando o Estado para ter um programa 'Meu Banho Minha Vida'. É isso que vocês conseguiram.”

Subsídios. Antes, ainda no primeiro bloco, depois de ser questionado por Dilma sobre o Minha Casa, Minha Vida, Aécio repetiu que a campanha da presidente faz “terrorismo eleitoral” ao afirmar que eventual governo seu acabaria com programas sociais. “Pessoas na lista do cadastro (do programa) estão recebendo mensagem dizendo que, se votarem em mim, sairão do cadastro”, reclamou. O tucano reforçou que pretende manter o programa e ampliá-lo para a faixa de até três salários mínimos. “Ninguém pode querer se apropriar de programas como se fossem seus. Vamos subsidiar, sim, programas sociais como este. O que não vamos fazer no nosso governo é o ‘bolsa empresário’ que ajuda um grupo muito restrito de brasileiros em detrimento da maioria.” Aécio acusou o governo também de não entregar os 3,5 milhões de habitações prometidas, mas apenas metade disso.

Dilma rebateu que Aécio precisa entender melhor as regras do programa, explicando que ele não passa por órgãos políticos, evitando privilégios a empresas nas construções. Ela disse não acreditar na proposta do adversário, acusando o PSDB de ter enfraquecido os bancos públicos e tê-los deixado endividados – a Caixa Econômica Federal é a instituição usada no financiamento do programa habitacional. “Agora vocês vêm com essa conversa que vão fazer política social. A prática fala muito mais que palavras vazias”, afirmou a presidente.

A petista voltou a questionar o fato de o governo mineiro não informar os valores de publicidade oficial destinada às três rádios e um jornal semanal da família de Aécio no Estado. Ela também procurou comparar a criação de empregos no seu governo e no governo Lula em relação à gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso, citando também a valorização do salário mínimo e questionando se Arminio Fraga – ex-presidente do Banco Central e já anunciado por Aécio como seu ministro da Fazenda caso seja eleito – não poderia comprometer a política de aumento real dos salários. Aécio respondeu dizendo ter orgulho da indicação de Arminio, diferentemente de Dilma que “demitiu” seu ministro Guido Mantega.

Indecisos. O debate da Globo teve como diferencial uma arena de 80 eleitores indecisos, selecionados pelo Ibope. Em dois dos quatro blocos, a plateia fez perguntas aos candidatos, que caminhavam livremente pelo estúdio. Dilma, ainda um pouco rouca, chegou a chamar um dos eleitores de candidato.

Adriana dos Santos, de 40 anos, assistente de compras, ao questionar Dilma, reclamou que as penas para os corruptos são brandas e perguntou qual eram as propostas dela para combater o desvio do dinheiro público. "Você tem toda razão, a lei é branda. Por isso que eu propus cinco grandes medidas de combate a impunidade", disse a petista citando a proposta de transformar em crime eleitoral o caixa 2 e reiterando o argumento de que foram os governos do PT que deram autonomia à Polícia Federal.

"Eu vou dizer olhando nos seus olhos. Existe uma medida que está acima de todas as outras para acabarmos com a corrupção no Brasil, vamos tirar o PT do governo", disse Aécio, na tréplica. /ANA FERNANDES, DANIEL GALVÃO, VERA ROSA, LUCIANA NUNES LEAL E DÉBORA BERGAMASCO

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