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‘Efeito do mensalão nas eleições será pequeno’

Wilson Tosta, de O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2012 | 20h 07

Para Fleischer, oposição ‘não sabe bem’ como usar julgamento na disputa e PT será mais prejudicado por rompimento com PSB

O julgamento do escândalo do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, que pode levar à cadeia dirigentes e parlamentares do PT e de partidos aliados, terá pouca influência nas eleições municipais de 2012, avalia o cientista político David Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).

Para ele, o petismo colherá um resultado mais magro nas cidades maiores mais pelo rompimento de um aliado, o PSB, do que pelo processo sobre o esquema de compra de votos no Congresso durante o governo Lula.

Mesmo assim, o PT deve crescer em municípios menores, ainda impulsionado pelo Bolsa Família, e o PSDB talvez avance nas capitais, mas isso terá pouca consequência para as eleições presidenciais de 2014. "Depende do desempenho da economia e da presidente Dilma (Rousseff) em 2013 e 2014", diz o pesquisador, sobre as possibilidades da oposição na sucessão presidencial.

Fleischer avalia que a oposição está certa ao usar o escândalo para tentar atingir o PT, mas "não sabe bem" como fazê-lo. O pesquisador reconhece que a nova classe C, formada pelos ex-pobres que ascenderam socialmente no governo Lula, se tornou um ator político relevante no Brasil e tem posições conservadoras, mas ressalta que poucos compreendem corretamente essa situação.

Para Fleischer, o principal efeito nacional das eleições municipais se dará na disputa pela Câmara, pelo Senado e pelos governos estaduais. "Por isso todos os deputados estão em campo tentando eleger aliados, para que estes possam servir como cabos eleitorais em 2014."

Fala-se que o PT corre o risco de uma derrota grande nas capitais, mas com desempenho melhor no interior. O sr. Concorda?

Sim, é possível, porque o PSB declarou a sua independência do PT e não quer ser o sócio júnior do PT, quer crescer. Em pequena parte, pode ser por causa do mensalão. Em 2004 e 2008, o PT avançou bastante nos grotões, em parte por causa da Bolsa Família. É possível que avance mais ainda em 2012.

E a oposição? Poderia ter melhor desempenho nas capitais do que o PT e os partidos aliados?

O PSDB talvez, mas com certeza DEM e PPS não. O PSOL vai até eleger o prefeito de Belém.

O resultado eleitoral pode ajudar a oposição a se construir para 2014, dando força para Aécio, Serra ou a outros candidatos?

Acho difícil. Aécio Neves deve ser o candidato do PSDB em 2014. Serra de novo acho difícil. Eduardo Campos e seu PSB devem avançar bem em 2012. Campos pode até se aventurar para presidente em 2014 ou tentar o Senado ou ser vice de Aécio. Depende do desempenho da economia e da presidente Dilma em 2013 e 2014.

Falou-se, nos últimos anos, no surgimento de uma nova classe média. Ela teria garantido a reeleição de Lula e a de Dilma. Esse grupo social é um ator decisivo na campanha de 2012?

Sim, mas poucos candidatos e partidos têm uma boa compreensão da situação. Os novos que entraram na classe C se tornaram mais conservadores, demandam bons serviços básicos, educação, saúde, segurança, saneamento básico. Falta aos partidos ter assessores competentes o bastante para analisar isso.

São Paulo, com o desempenho surpreendente de Celso Russomanno, seria um exemplo da força dessa nova classe?

Não exatamente. É um sinal do aparecimento do velho populismo que movimentou São Paulo várias vezes. E de que o eleitor está cansado da briga PSDB-PT.

Se Russomanno for para o segundo turno, a eleição ficará nas mãos dessa classe C?

Em grande parte, sim, pois esta nova classe C é maioria no eleitorado em São Paulo.

O PT perdeu para sempre a classe média para o PSDB?

Em alguns municípios, sim, é possível. Mas não para sempre.

É possível nacionalizar a eleição municipal?

Não exatamente. O partido que eleger mais prefeitos e vereadores em 2012 do que em 2008 vai eleger mais deputados em 2014 do que em 2010, e vice-versa. É o único efeito de nacionalização.

O julgamento do mensalão no Supremo terá peso no voto?

Só em municípios maiores, onde um candidato de partido oposicionista resolver usar isso para bater no candidato do PT, se tiver. Mas o efeito deve ser pequeno. O povo toma conhecimento do mensalão via telejornais das grandes redes. Deve ter pouco impacto. A oposição acerta (ao usar o mensalão na campanha), porque é uma das poucas armas que tem, mas não sabe bem como usar. Serra falou que Haddad é do PT - o partido do mensalão -, mas não foi mais a fundo, citando nomes de todos os (réus) conhecidos aos paulistanos.

O mensalão é um tema distante do dia a dia dos eleitores, por isso a oposição o explora mal?

O mensalão só apareceu para o grande público em agosto e em setembro com mais força, informação e cobertura na TV. É pouco tempo para o eleitor médio compreender o caso. Quando todos os acusados forem condenados e punidos, o impacto vai ser maior, mas isso só depois do primeiro turno.

Por que PSDB e PT se enfrentam com tanta força em torno de governos que já acabaram, como o de Lula e o de FHC?

Porque o governo Lula foi extremamente bem avaliado nas pesquisas de opinião, no segundo mandato. O PSDB tenta bater nisso, mas com pouco sucesso. Por outro lado, o PT bate facilmente no governo FHC, pois nem o PSDB defende adequadamente o governo FHC.

As eleições municipais podem mudar algo em relação a 2014?

As eleições de 2012 são importantes para eleger mais deputados em 2014. Por isso todos estão em campo tentando eleger aliados para que possam servir como cabos eleitorais em 2014. Os senadores também estão em campo, para eleger aliados para a reeleição ou para tentarem o governo.

QUEM É DAVID FLEISCHER: Nascido em Washington (EUA), David Fleischer veio ao Brasil pela primeira vez em 1962. Em 1972, ingressou na Universidade de Brasília (UnB), onde é professor emérito. É especialista em sistemas eleitorais, partidos políticos, legislativo e transparência.