João Assis/Estadão
João Assis/Estadão

Dona de casa de Parelheiros e empresária dos Jardins quebram estereótipos

Reportagem do ‘Estado’ foi a principal reduto tucano em São Paulo encontrar eleitores de Dilma Rousseff e à periferia da cidade para localizar pessoas pró-Aécio Neves

João Paulo Carvalho, O Estado de S. Paulo

27 Outubro 2014 | 08h14

Juliana está feliz. A jovem de 19 anos, mãe de Richard, de 8 meses, acaba de fechar o primeiro pacote de TV por assinatura. “Tem vários canais. São muitas opções. Fico até perdida, moço. Também vamos tentar botar internet com wi-fi até o dezembro. Quem sabe, não é?”, afirma a dona de casa.

A adolescente chama a atenção nas ruas do centro de Parelheiros, uma das regiões mais pobres de São Paulo, no extremo sul da cidade. Ela estampa dois adesivos de Aécio Neves. Um em cada peito. Certa de seu voto para presidente, não sai de casa sem os adereços tucanos. “O Aécio vai vencer. Ele é um candidato preparado para comandar o Brasil. Fala bem, tem ótimas propostas para o País. No PT só tem corrupção, moço. O senhor não viu o que aconteceu lá no mensalão? Está todo mundo preso”, esbraveja.

Casada com o polidor Wellington Soares da Silva, de 25 anos, Juliana Aparecida da Silva Reis faz questão de distribuir folhetos e santinhos favoráveis ao candidato do PSDB. Quer ajudar Aécio a melhorar seu desempenho na região no segundo turno.

“Minha família só briga comigo. Todo mundo vota na Dilma, incluindo meu marido. Os vizinhos também. Ninguém acredita que apoio o Aécio. Não tem nada a ver isso de rico e pobre. Eu voto naquele no qual acredito, sabe.”

Neste segundo turno, considerando apenas a cidade de São Paulo, Aécio Neves (PSDB) teve 64% dos votos válidos contra 36% de Dilma Rousseff (PT). O distrito eleitoral onde o tucano conseguiu o melhor desempenho foi no Jardim Paulista, com 86,65% dos votos (clique aqui para ler). Um dos piores resultados de Aécio Neves foi em Parelheiros. Ele obteve 39,72% ante 60% de Dilma.  O resultado do tucano só foi pior em Cidade Tiradentes, extremo leste, onde ficou com 39,05% e Dilma com 60,95%.

Beneficiada pelo Programa Bolsa Família, Juliana recebe R$ 173 por mês. “Isso não resolve meu problema. É pouco. Tenho certeza que o Aécio vai melhorar isso. “Você sabe que o Bolsa Família é do PSDB, né, moço. Foi o PT quem roubou a ideia.”

O maior sonho de Juliana é fazer faculdade de Medicina ou Direito. “Esses cursos são muito caros. Não tenho condições de pagar, mas quem sabe um dia. Acho que o Aécio vai melhorar a educação neste País. Se eu ganhasse uma bolsa pelo ProUni? Faria, claro”, afirma.

Num município predominantemente petista, Juliana é hostilizada por algumas pessoas que passam por ela. “O PT é quem governa para os pobres. Fora, Aécio”, grita um senhor. “Eu não me importo”, diz a jovem que se anima com a música de Jorge e Mateus tocada por um caminhão de som em frente à praça central de Parelheiros.

Do outro lado. A mais de 30 quilômetros dali, no Jardim Paulista, bairro nobre de São Paulo, Sheila Grecco, de 35 anos, se prepara para mais um dia de trabalho. Dona de uma agência de comunicação na Avenida Paulista, a empresária trabalha com moda, gastronomia e mercado de luxo. Assim como Juliana, de Parelheiros, Sheila já decidiu seu voto. “Vou de Dilma, claro. Voto nela porque amo o meu país. Considero-a uma pessoa séria, honrada e de biografia admirável. O PT assumiu conteúdos programáticos para o bem do povo e, consequentemente, para o bem de todos.”

Frequentemente cercada por pessoas da alta sociedade, Sheila está sempre nas melhores festas e casas noturnas da capital paulista. Formada em Letras, História e Jornalismo, tem doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. “Sofro preconceito por pensar desta forma. Sou alvo de piadinhas e comentários. Sou chamada de “Dilmete Glamurete”, “Esquerda Caviar” e “Petistete”, acham que eu sou a esquerda “cool” e “bem nascida” e que é fácil eu defender causas de esquerda até porque tenho uma condição econômica privilegiada.”

A vizinhança toda de Sheila não entende seu posicionamento político e pensam que ele é, no mínimo, contraditório. “Acham estranho alguém ser idealista e gostar de moda ou trabalhar com mercado de luxo. Para defender uma sociedade justa para todos, eu não preciso andar de cabelo sujo, sapatilha chinesa, saia de camponesa ou usar a Crocs do brechó. Eu adoro moda e meu DNA é vermelho até na sola do scarpin”, brinca.

Para Sheila, a gestão do PT na Presidência da República só melhorou seu negócio. A empresária crava que inflação está sob controle e concorda com as medidas econômicas do governo Dilma. “Hoje os meus melhores clientes são os emergentes, gente que quer entrar nesse mercado e que ascendeu graças à gestão Lula-Dilma. O dinheiro mudou de mãos no Brasil nas últimas décadas e tem gente que não sabe lidar com isso ou não quer aceitar essa nova realidade. A nova classe média quer ter acesso a bens e serviços que nunca teve. Eles querem ter acesso ao glamour. Acho isso admirável e adoro trabalhar com os “novos ricos” por um simples motivo: pagam pontualmente, de forma justa e profissional e não são arrogantes.”, conclui.

Neste domingo, ao lado da mãe, Geni Grecco, Sheila caprichou no visual. Com chapéu a la Lula e um vestido vermelho, a empresária comprou até esmalte importado para homenagear o PT no dia da votação. “Peguei o melhor vestido que tinha no armário. Fiz as unhas com esmalte caro. Tudo vermelho, claro. A cor não poderia ser diferente Não é todo dia que a gente compra um Yves Saint-Laurent (esmalte francês), da cor Rouge Pop art.”, brinca.

Durante a caminhada até sua sessão de votação, Sheila foi hostilizada por alguns moradores da região. “Coisa ruim. Isso tudo é coisa ruim”, disse um senhor ao se deparar com a petista na porta de uma faculdade na região central de São Paulo. “Essa situação é vergonhosa. Não vou responder em respeito à idade dele. Mas espero que ele leia um bom livro de história na aposentadoria dele.”

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