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Dilma muda política e reduz idas ao exterior

Lisandra Paraguassu - O Estado de S.Paulo

05 Maio 2014 | 02h 06

Presidente também recebe menos chefes de Estado e desperta críticas no Itamaraty

Atualizado às 19h16 de 13 de maio

BRASÍLIA - Em 2011, quando assumiu o governo, a presidente Dilma Rousseff avisou que não pretendia dedicar tanto tempo a viagens internacionais, como fizeram os seus dois antecessores. Ninguém no Itamaraty imaginava, porém, que a mudança seria tão drástica. Nos seus três primeiros anos, Dilma recebeu um terço dos presidentes e fez pouco mais da metade de viagens na comparação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no mesmo período de mandato.

A redução incomoda diplomatas e até mesmo correligionários, que reclamam de ver o Brasil perder a influência construída em oito anos de governo Lula.

Assessores mais próximos da presidente creditam a escassez de visitas de Estado ao País à agenda apertada e ao aumento na quantidade de cúpulas a que os mandatários hoje precisam comparecer, o que facilita encontros bilaterais. Dilma, porém, nunca escondeu a pouca paciência com os meandros da diplomacia. Para marcar uma viagem ou uma visita, diplomatas precisam suar para convencê-la.

Por causa do estilo, o foco da política externa de Dilma nesses três primeiros anos passou longe da ideia de "caixeiro-viajante", como Lula costumava se autointitular. Em meio a suspeitas de que os Estados Unidos espionaram a Petrobrás e até comunicações dela própria, a presidente acabou voltando seus esforços externos a discussões sobre soberania e governança global da internet.

Nos seus três anos de governo, Dilma recebeu presidentes 21 vezes - alguns deles, como Cristina Kirchner, da Argentina, e José Mujica, do Uruguai, mais de uma vez. Em alguns casos, em visitas quase informais, como quando Mujica foi apenas jantar com a presidente no Palácio da Alvorada em uma visita que só foi anunciada no dia seguinte, em uma nota do Palácio do Planalto. Em seus primeiros três anos de governo, Lula havia recebido 63 visitantes. Fernando Henrique Cardoso, 50.

Estoque. O estoque de pedidos de visitas, tanto ao Brasil quanto para que a presidente vá a outros países, alcança algumas dezenas. Mesmo na América do Sul, supostamente a prioridade da sua política externa, Dilma ainda não foi a todos. Uruguai, Argentina, Paraguai e Venezuela, os parceiros do Mercosul, receberam atenção especial. Dilma também já foi três vezes ao Peru - uma delas, para a Cúpula América do Sul-Países Árabes -, mas Bolívia e Equador ainda esperam uma atenção, e têm cobrado. Colômbia, Guiana e Suriname também não estão nos planos, assim como não há menção de uma volta pelo Caribe, tão caro a Lula e com quem o Brasil aumentou exponencialmente os negócios.

A necessidade de ver um fim prático para as visitas e viagens já deixou o Brasil em situações difíceis, segundo diplomatas. Em 2012, Dilma não queria ir para a Cúpula ASPA, em Lima, um grupo criado e incentivado pelo Brasil - terminou convencida na última hora. Em 2011, na sua primeira visita à África, só concordou em ir a Angola e Moçambique depois do encontro IBAS (Índia, Brasil e África do Sul), em Pretória, uma semana antes. Presidentes, diplomatas e ministros dos países visitados tiveram de cancelar compromissos e viagens para atender a comitiva brasileira.

A preferência da presidente são os encontros em que acredita haver resultados práticos e impacto mundial, como o G20 - encontro dos 20 países mais ricos do mundo - e os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), além da Assembleia das Nações Unidas, em Nova York, quando fez o discurso pela governança global na internet e cobrou duramente o presidente dos EUA, Barack Obama.

Nas viagens, Dilma tem por hábito fazer diversos encontros bilaterais curtos. Assessores próximos explicam que essa é sua preferência e que acredita ser suficiente. Os diplomatas afirmam que Dilma consegue bons resultados. Objetiva, a presidente costuma cobrar sem problemas respostas para assuntos que não evoluem e passar recados duros. Em Bruxelas, na última cúpula Brasil-União Europeia, deixou claro ao outro lado que não gostou das ameaças da União Europeia de questionar a Zona Franca de Manaus, por exemplo.

'Insubstituível'. Em tese defendida em 1997, o embaixador Sérgio Danese, subsecretário-geral de Comunidades Brasileiras no Exterior, sustenta que as viagens de presidentes em encontros são uma força "quase insubstituível" na promoção dos interesses brasileiros. Um dos pontos essenciais, segundo o embaixador, são as visitas de Estado, seja recebendo, seja viajando a diferentes países. Além disso, como afirma Danese no livro Diplomacia Presidencial - História e Crítica (Topbooks), escrito a partir da tese acadêmica, as viagens e visitas do presidente colaboram para promover os interesses do País, elevar o nível de participação do Brasil nos foros decisivos e ampliar parcerias.