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Dilma dá última cartada para reduzir resistência do agronegócio à reeleição

Nivaldo Souza - O Estado de S.Paulo

19 Maio 2014 | 02h 06

Presidente anuncia nesta segunda plano de safra com expectativa de financiamento recorde e marca reunião no Planalto com principais líderes do setor

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff dá nesta semana sua última cartada a fim de tentar atrair o agronegócio para sua campanha à reeleição e evitar que o setor feche por completo seu apoio ao pré-candidato do PSDB ao Planalto, senador Aécio Neves, e, em menor grau, ao pré-candidato do PSB, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos.

O primeiro passo será dado hoje, com o lançamento do Plano Safra 2014/15, que deve receber um aumento em relação ao orçamento de R$ 136 bilhões destinado ao financiamento do ciclo anterior. O passo seguinte, e talvez o mais importante, será um encontro de Dilma com lideranças do agronegócio ensaiado para ocorrer nos próximos dias no Palácio do Planalto.

A reaproximação de Dilma com o agronegócio está sendo conduzida com apoio da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), atual presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A ideia é romper a resistência do setor, com quem Dilma manteve boa relação em 2010, quando foi eleita.

Kátia Abreu evita falar em crise entre a petista e os líderes ruralistas. "É bobagem querer fazer essa divisão de quem apoia ou não a presidente. Não existe uma classe desse tamanho unânime."

Pelo diagnóstico do Planalto, pecuaristas, produtores de cana-de-açúcar e parte do segmento da soja estão próximos da oposição. Mas ainda há quem possa estar com o governo, caso dos grandes produtores de soja.

Soja. Dilma tem boa relação com o senador Blairo Maggi (PR-MT), de uma família que é a maior produtora de soja do Brasil. A presidente colocou como titular da Agricultura na reforma ministerial do início deste ano o seu indicado, ministro Neri Geller, que também é produtor do grão no Mato Grosso. "Os grandes produtores estão com o governo, mas com os médios produtores não é bem assim", afirma o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Rui Prado, representante do setor no principal Estado produtor do grão.

Soja é o carro-chefe das exportações brasileiras. Segundo Prado, uma pesquisa ouvindo 50 lideranças ruralistas mato-grossenses constatou que a maioria está descontente com a lentidão de investimentos estatais em infraestrutura.

O gargalo da logística também é indicado pelo presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Almir Dalpasquale. "Temos a observação de que o setor não é unânime. Se a Aprosoja apoiasse a presidente Dilma, talvez não tivesse apoio de 100% do setor, talvez nem de 50%", diz, ressaltando que a entidade ainda não tem posicionamento formal.

Pecuaristas. Entre os pecuaristas, o descontentamento é maior. O presidente da Associação Brasileira dos Criados de Zebu (ABCZ), Luiz Carlos Paranhos, será o porta-voz do setor na reunião com Dilma. A entidade, uma das principais representantes dos criadores de gado, avalia que o governo deixou de fortalecer o Ministério da Agricultura, colocou em risco a segurança fundiária em zonas de conflito com reserva indígenas e quilombolas no Mato Grosso do Sul e no Sul da Bahia, respectivamente, além de não ter reconhecido a importância do agronegócio para o Produto Interno Bruto (PIB) e na pauta de exportações. Dilma foi vaiada no evento anual da entidade realizado no início do mês em Uberaba.

"Temos de reconhecer que o governo fez coisas boas, como o crédito para máquinas agrícolas e o financiamento para a lavoura, políticas que têm de ser mantidas. Mas existe ainda um certo preconceito com as empresas do agronegócio (no Planalto). Falta o reconhecimento pelo governo da importância do setor e a garantia da segurança da propriedade privada, que é uma coisa básica para novos investimentos", diz.

Etanol. Os usineiros de etanol são hoje os mais descontentes com Dilma. A principal entidade do setor, a União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica), diz que 30% das empresas estão tendo de empenhar pelo menos 17% do faturamento para cobrir endividamentos e pode deixar de produzir cana-de-açúcar por causa da crise. Segundo o diretor técnico da entidade, Antonio de Padua Rodrigues, 30 empresas de etanol estão em processo de recuperação judicial e há um risco coletivo de calote que já dificulta o acesso a financiamento privado.

A Unica prepara um conjunto de propostas para apresentar aos pré-candidatos no 5.º Top Etanol, no início de junho. Embora a presidente da entidade, Elizabeth Farina, já tenha entrado em rota de colisão com a presidente Dilma e o ministro Guido Mantega (Fazenda), Rodrigues evita atacar o governo. "O País precisa definir o que quer de participação do etanol na matriz energética. O setor vive uma rota de redução de importância. Precisamos conhecer como e o que será feito para corrigir essa rota", afirma.

Milho e aves. O descontentamento com o governo também é grande entre os produtores de milho. O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Alysson Paolinelli, diz que o setor vive há mais de duas décadas uma política de "empurração" de problemas e que não "confia mais em um governo que não cumpre o que prometeu". Ele evita posicionamento direto sobre o nome da corrida eleitoral que mais agradaria o setor de milho.

Aécio e Campos procuraram a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), presidida pelo ex-ministro da Agricultura do governo Fernando Henrique Cardoso, Francisco Turra, para pedir sugestões de pontos que não devem faltar nos seus planos de governo voltados para o agronegócio. A entidade é a principal representante dos criadores de aves e frangos. "Fui procurado diretamente pelo Eduardo Campos, com quem estive pessoalmente duas vezes, e a equipe do Aécio Neves nos procurou para pedir o estudo de competitividade que tínhamos apresentados à presidente Dilma."

Entre os pontos apresentados por Turra aos pré-candidatos, constou um estudo no qual a associação afirma que decisões equivocadas do governo e a lentidão no processo, entre 2006 e 2013, levou o País a reduzir o potencial anual de exportações de produtos agrícolas em US$ 1,5 bilhão. Como isso, teria ocorrido o embargo de 100 mil empregos que deixaram de ser criados no período. "Percebo que há mais interesse dos candidatos agora do que na época em fui ministro, quando não havia tanta proximidade deles com o agronegócio."

Turra ressalta que a associação não tem, no momento, compromisso com nenhum pré-candidato. O ex-ministro de FHC, contudo, é filiado ao PP do Rio Grande do Sul, que está fechado informalmente com Aécio.

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