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Denúncias fazem Petrobrás viver inferno astral

ANTONIO PITA / RIO - O Estado de S.Paulo

23 Março 2014 | 02h 07

Suspeitas de corrupção, investigações da PF e Tribunal de Contas, valor de mercado reduzido à metade e tarifas defasadas marcam a empresa em 2014

Pressionada por uma avalanche de denúncias de corrupção, a Petrobrás vive sua mais grave crise de credibilidade e governança. São pelo menos cinco inquéritos abertos na Polícia Federal, além de investigações no Ministério Público Federal e no Tribunal de Contas da União (TCU). A crise é também financeira, com perdas acumuladas de R$ 185 bilhões, cerca de 51% do seu valor de mercado, em três anos.

Aberta às pressas na quinta-feira, a sala de crise da empresa não tem data para fechar. O clima é de desconforto, para a presidente Graça Foster, ao ver voltarem à cena as denúncias de corrupção na compra da refinaria de Pasadena, de 2006. E pelo próprio punho da presidente Dilma Rousseff, que atribuiu a aprovação da compra a falhas em relatório da empresa.

"É uma situação sem igual em 60 anos. Há um clima de revolta na empresa", avalia o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). "Não me lembro de nenhum diretor da Petrobrás que tenha sido preso", completa, citando o ex-diretor Paulo Roberto da Costa, detido pela Polícia Federal na quinta-feira.

À frente da Diretoria de Refino e Abastecimento em 2006, Costa é apontado como responsável pelo acordo de compra da refinaria de Pasadena, ao lado de Nestor Cerveró, ex-diretor da Área Internacional da companhia. Cerveró, que atuava como diretor financeiro da BR Distribuidora, foi demitido na sexta-feira, em meio a uma operação do governo para blindar a presidente. Ambos os cargos teriam sido preenchidos por indicação do PMDB.

A compra de Pasadena está sendo investigada há mais de um ano pelo TCU. Após a revelação de que Dilma, então presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, votou a favor da aquisição, o relator do caso, ministro José Jorge, disse que pode convocar os conselheiros para depor. "Como regra geral do TCU, eles podem ser chamados a se explicar", afirmou.

O caso da refinaria foi o ponto de partida para abertura de cinco inquéritos somente na PF. Agentes da instituição foram aos EUA e a países vizinhos para investigar o caso. Na Holanda, eles apuram o pagamento de US$ 139 milhões pela SBM Offshore em propinas a funcionários da estatal.

O Ministério Público Federal no Rio também começou a investigar se houve irregularidade nesse pagamento, a pedido do deputado Antonio Imbassahy, líder do PSDB na Câmara.

Mercado. À crise política se somam insatisfações do mercado. Entre outubro de 2010 e dezembro de 2013, ela perdeu R$ 185 bilhões do valor de mercado. Nos últimos três meses, o tombo foi de 18%, segundo cálculos da consultoria Economática.

Há decepção com perdas causadas por defasagem no preço dos combustíveis. "O mercado esperava que a presidente retomasse o caminho de lucratividade", diz Adriano Pires. "O comportamento das ações nesta semana indica que o mercado está precificando o efeito Dilma."

Somente no ano passado as dívidas subiram mais de US$ 22 bilhões, alta de 30% em relação a 2012. A situação levou o Conselho Fiscal da empresa a registrar em ata um alerta. Em fevereiro, seus integrantes sugeriram um risco de rebaixamento pelas agências de classificação.

No Conselho de Administração houve divergências quanto às demonstrações financeiras. O conselheiro independente Mauro Cunha se opôs à sua aprovação, questionando operações contábeis que seriam usadas para encobrir as dívidas. Outros conselheiros também teriam expressado críticas.

A crise chamou atenção dos investidores internacionais, que formalizaram uma chapa para concorrer às vagas de conselheiros independentes. Encabeçado pelo fundo britânico Aberdeen Asset, o grupo avalia a governança da empresa como "crítica" e capaz de comprometer "a capacidade de investimento e expansão da Petrobrás no longo prazo". O movimento foi apoiado por duas consultorias internacionais que orientam investidores globais sobre as assembleias.

Há desconfianças ainda quanto à capacidade da Petrobrás de ampliar a produção. Na segunda-feira, em recado direto dirigido aos estaleiros nacionais, a presidente Graça Foster disse que "nada pode atrasar a curva de produção" da empresa. No mercado, a fala foi entendida como um ultimato.

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