De frente para o espelho

Fechada a contabilidade das urnas, a presidente reeleita tem pela frente um desafio que ao País parecia vencido desde o advento do Plano Real, que restabeleceu a estabilidade econômica e cuja consolidação sugeriu o fim de um ciclo de experimentalismos no setor, ressuscitados por Dilma Rousseff.

João Bosco Rabello, João Bosco Rabello

27 Outubro 2014 | 00h33

A presidente tem o mandato renovado sob a contestação de metade do País e receberá de si própria uma herança maldita, que não poderá terceirizar, como até aqui tem feito os governos do PT.

De volta à cadeira presidencial, após o hiato da campanha, precisará dizer ao País o que fará para restabelecer os índices positivos da economia que recebeu – algo que se recusou a fazer por toda a campanha.  O País que deixou para si mesma cresce abaixo de 1%, tem a inflação fora da tolerância da meta, padece da ausência de investimentos, conduz uma política externa errática e perde credibilidade internacional.

Lidará ainda com uma crise institucional anunciada desde a judicialização do caso Petrobrás, de que é parte, uma sombra que deverá se manter sobre seu governo, no mínimo, por metade de seu mandato – sem que se saiba seu alcance sobre os governos do PT, apenas que os atinge.

Vai ter, portanto, mais dificuldades com menor apoio popular e mantendo a dependência do PT, a cujo líder, Lula, deve mais uma vez votos decisivos na reta final – tanto em Pernambuco, que não deu a Aécio Neves a mesma votação de Marina Silva e, mais tarde, ao governador Paulo Câmara, mas prestigiou o outro filho da terra, o ex-presidente Lula.

Também em São Paulo, Aécio não chegou aos 70% como se estimara segundo o resultado do primeiro turno, e viu, em contrapartida, Dilma ir aos 37%, quando se previa que, no máximo, chegasse aos 30%.

Mas o que derrubou o cálculo de Aécio Neves, desde o início da campanha, foi Minas Gerais, que não contribuiu para a conta geral do Sudeste feita pelo candidato do PSDB.

O Nordeste confirmou as previsões a favor de Dilma, que seriam insuficientes caso Aécio tivesse também confirmado as expectativas em relação ao Sudeste.

Essa constatação leva a outra: mesmo lhe faltando Minas, segundo maior colégio eleitoral, o candidato do PSDB perdeu no plano nacional por um margem que nas pesquisas se define por “empate técnico”.

A diferença eleitoral entre PT e PSDB maior nas últimas disputas, portanto, praticamente acabou tendo cada um, hoje, metade das preferências do País.

Pode-se concluir, portanto, que apesar do resultado, o sentimento antipetista no País aumentou , estabelecendo-se como um índice técnico a balizar eleições. Se considerada ainda a votação de cabresto do Bolsa Família, que deu ao PT a vantagem de largar com 34,6% da votação total obtida por Dilma – ou 15 milhões de votos no primeiro turno –, tem-se aí uma conta mais apertada ainda em desfavor da presidente reeleita.

O PT fez do Bolsa Família um programa assistencial do partido, embora seja irrigado com recursos públicos. Mas é usado para ameaçar seus beneficiários em caso de derrota dos candidatos do governo. Se já fosse programa de Estado, o PT teria perdido a eleição.

Aécio Neves fez o que seus antecessores como candidatos não conseguiram: esteve a pontos da vitória. Sai credenciado, pelo resultado, a comandar a oposição, o que se já tivesse feito há mais tempo, poderia tê-lo levado ao Planalto.

Mais conteúdo sobre:
João Bosco Rabello

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.