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Campos prepara sua sucessão 'em família'

Pedro Venceslau, Isadora Peron e Angela Lacerda/Recife - O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2014 | 02h 06

Nomes mais cotados para a disputa em PE têm relações de parentesco com governador

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, provável candidato do PSB à Presidência, prepara sua sucessão no Estado com uma lista de opções circunscrita ao seu clã familiar e político. Os três nomes cotados por Campos para disputar o governo pernambucano em outubro têm algum grau de parentesco direto ou indireto com ele.

Primo de primeiro grau de Renata, mulher do governador, o ex-deputado Maurício Rands voltou de uma temporada na República do Chade para, segundo ele, ficar "na retaguarda" do governador. Depois de romper com o PT, ele se filiou ao PSB em outubro do ano passado, no limite do prazo legal para ser elegível. Considerado por aliados de Campos uma pessoa de sua estrita confiança, Rands representa a opção com mais experiência política da lista tríplice.

Outro nome que desponta na sucessão pernambucana é o do secretário da Casa Civil, Tadeu Alencar. Além do filho dele, Tomás Alencar, ser namorado de Maria Eduarda, filha do governador, as duas famílias são próximas desde a época de Miguel Arraes - o avô de Campos e ex-governador do Estado. Mas, apesar de serem tratados no Estado como primos, a assessoria de imprensa da Secretaria da Casa Civil garante que os Alencar e os Campos não estão na mesma árvore genealógica.

A terceira opção de Campos hoje é o secretário da Fazenda, Paulo Câmara, casado com uma prima de segundo grau do governador. Seu nome não chega a ser unanimidade dentro do PSB pernambucano, mas conta com a simpatia de grande parte dos dirigentes do partido.

O vice-governador João Lyra e o ex-ministro da Integração Nacional Fernando Bezerra chegaram a ser cogitados pelo governador, mas devem ocupar outros espaços na aliança. Lyra assumirá o governo quando Campos sair para a disputa presidencial em abril e Bezerra pode disputar o Senado. A vaga foi aberta semana passada, quando o peemedebista Jarbas Vasconcelos anunciou que não tentaria a reeleição.

Segundo Bezerra, Campos está ouvindo os partidos que compõem a sua base aliada no Estado para tomar a decisão. O ex-ministro acredita que, até o carnaval, o governador tenha definido o nome do seu sucessor.

Parentes. Além dos dois secretários cotados para a disputa, Campos mantém no governo pelo menos uma dezena de parentes seus e de sua mulher. A irmã da primeira-dama, Ana Elisabeth de Andrade Lima Molina, médica da Secretaria da Saúde, por exemplo, foi alçada a um cargo de direção da pasta.

Antes de fazer campanha para que a mãe, a então deputada Ana Arraes, fosse nomeada ministra do Tribunal de Contas da União (TCU), em 2011, Campos já havia patrocinado a escolha de dois parentes para ocupar espaços no Tribunal de Contas do Estado. Ele indicou como conselheiros do órgão um primo seu, João Campos, e um primo da mulher, Marcos Loreto. Outro primo do governador, Thiago Arraes Alencar Norões, foi escolhido procurador-geral do Estado no início do segundo mandato de Campos.

No Congresso, há a possibilidade de o filho de Campos ser candidato a deputado. João, de apenas 19 anos, teria a missão de representar a família em Brasília, já que Ana Arraes trocou o mandato na Câmara pela vaga no TCU.

Críticas. Segundo a deputada estadual Terezinha Nunes, do PSDB, partido que agora é aliado do governador, a escolha familiar que Campos pretende fazer para a sua sucessão põe em xeque o discurso da nova política adotado recentemente pelo governador. O deputado estadual Sérgio Leite (PT), que assumiu na semana passada a liderança da oposição na Assembleia Legislativa, também faz críticas a Campos nessa linha. "Essa é a forma de governar que ele chama de nova política?", questiona.

Para o filósofo e professor de Ética da Unicamp Roberto Romano, as decisões de Campos reproduzem uma ética herdada do seu avô. "A fama de 'esquerdista perigoso' imputada pelos militares a Miguel Arraes não corresponde às práticas que ele adotou quando foi governador de Pernambuco. Ele sabia se equilibrar muito bem entre os oligarcas do Estado, além de ter uma capacidade muito grande de passar pelas várias tendências ideológicas sem ficar preso a uma ou outra."

Em outubro passado, Campos se associou à ex-ministra Marina Silva para a sucessão presidencial. Ela poderá ser sua vice. A dupla tenta se apresentar como a terceira via da campanha presidencial, diante da tradicional polarização entre petistas e tucanos.