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Campanha de 1998 acaba em prisões e denúncias

MARCELO PORTELA, BELO HORIZONTE - O Estado de S.Paulo

02 Março 2014 | 02h 10

Acusação contra publicitário, preso em BH, é parte da defesa de Azeredo

A campanha à reeleição do então governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo (PSDB), em 1998, foi também o estopim para uma complicada trama policial que, nos últimos anos, envolveu vários personagens daquela disputa.

Dias antes de o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedir a condenação de Eduardo Azeredo a 22 anos de prisão, o ex-deputado comemorava a prisão do empresário e publicitário Marco Aurélio Flores Carone, proprietário do site Novojornal.

Marco Aurélio Carone é acusado pelo promotor André Luiz Garcia de Pinho de ser o "relações públicas" de uma quadrilha que seria liderada pelo lobista Nilton Monteiro, preso em 2011 acusado de falsificação de documentos e outros crimes.

O PT e o bloco de oposição em Minas Gerais afirmam que a acusação e a prisão de Carone, no dia 20 de janeiro, são "políticas", pois a própria denúncia contra Carone é usada pela defesa de Azeredo no processo do mensalão mineiro.

O Novojornal é especializado em criticar políticos tucanos, entre eles o senador Aécio Neves (MG), pré-candidato do PSDB à Presidência e presidente do partido, e rendeu dezenas de processos cíveis e criminais contra Carone - que ainda é réu primário porque não teve nenhuma condenação transitada em julgado.

Nilton Monteiro é testemunha em investigações sobre financiamento de campanhas do PSDB, incluindo a de 1998.

Carone é filho de Jorge Carone, ex-prefeito de Belo Horizonte na década de 1960, e já se aventurou na política. Ele chegou a se candidatar ao governo de Minas em 2002 pelo nanico PSDC - eleição que foi vencida por Aécio Neves.

Quadrilha. Para o promotor André Luiz Pinho, Carone e Monteiro integram uma quadrilha especializada em falsificar documentos para achacar não só políticos, mas também empresários e integrantes do Judiciário. A denúncia da promotoria levou à prisão do empresário pela acusação de ameaçar testemunhas no processo.

No documento, o promotor cita diversas "vítimas" do grupo, incluindo Azeredo, e afirma que o tucano "tornou-se alvo a partir da falsificação de um suposto 'recibo' de recursos ilegais" que o ex-deputado "teria assinado em face de pagamento de despesas pessoais, durante a campanha eleitoral estadual de 1998".

O promotor chega a questionar até a denúncia apresentada contra Azeredo pelo então procurador-geral da República Antônio Fernando de Souza, que acusou o tucano de participar de esquema de desvio de recursos de estatais mineiras para irrigar a campanha.

"Inconsciente de que tudo o que Nilton Monteiro declara, apresenta ou redige é irremediavelmente falso, a Procuradoria da República, também induzida a erro, não só o considerou como uma das fontes fidedignas de informações que corroboraram a acusação contra Eduardo Azeredo, como chegou a efetuar menção nominal ao falsário", diz a denúncia do Ministério Público Estadual.

A prisão de Carone iniciou uma batalha entre o promotor e diversas entidades, como a seção mineira da Ordem dos Advogados do Brasil e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais. As entidades protestaram contra a medida e a decisão da Justiça de retirar do ar o site do Novojornal "pelo que poderia vir a ser publicado".

'Caráter político'. Uma das principais preocupações do Ministério Público é a fonte de financiamento do site.

"O caráter político está óbvio. A peça (denúncia) é um absurdo político. O promotor entra em coisa que não seria da investigação", disse o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas, deputado Durval Ângelo (PT). "Fazer oposição em Minas hoje é perigoso e dá até cadeia", afirmou o também deputado estadual Paulo Lamac (PT).

O Estado procurou a advogada de Marco Aurélio Carone, Sandra de Moraes Ribeiro, mas ela preferiu não dar entrevista. A defesa de Nilton Monteiro não foi localizada pela reportagem.

O advogado José Gerardo Grossi, que representa o ex-governador Eduardo Azeredo, afirmou que vai utilizar a denúncia do Ministério Público de Minas na defesa do seu cliente.

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