Buscando o eleitor decisivo

No final dos anos 1950, com base em avanços anteriores da ciência política e da estatística, o economista político Anthony Downs, autor do clássico “Uma teoria econômica da democracia”, deu forma final ao teorema do eleitor mediano. Segundo ele, num eleitorado distribuído de forma normal ao longo de uma certa dimensão de preferências (por exemplo, o eixo esquerda-direita) e numa eleição majoritária, tende a vencer quem conquistar o voto de um hipotético “eleitor mediano”.

Cláudio Couto, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2014 | 23h37

Aos menos familiarizados com estatística, dois esclarecimentos.

Primeiro, a distribuição normal de um certo conjunto de fenômenos (por exemplo, eleitores) concentra a maior parte dos casos no espaço intermediário de uma escala, reduzindo-se o número na medida em que se vai para os extremos superior ou inferior (a chamada “curva normal”). Por exemplo, na distribuição esquerda-direita, o grosso do eleitorado ficaria no centro, reduzindo-se quanto mais se fosse para a direita ou para a esquerda.

Segundo, dividindo ao meio os dois lados da escala está a mediana. Em nosso exemplo de um eleitorado distribuído ao longo do eixo esquerda-direita, haveria um “eleitor mediano” a ter metade dos votantes à sua direta, outra metade à sua esquerda. Na disputa entre um concorrente de esquerda e outro de direita, muito simplificadamente, cada um já teria garantidos os eleitores do seu lado do espectro ideológico e, portanto, faltaria a ele conquistar apenas mais um voto para ter a maioria. O voto decisivo seria o do eleitor mediano. Quem cativasse esse votante hipotético, ganharia a eleição. Por essa razão, há uma tendência dos partidos à esquerda e à direita de rumar para o centro.

Como todo modelo teórico, este simplifica bastante a realidade. Por um lado, facilita a compreensão das linhas gerais de certos problemas. Por outro, requer do analista parcimônia ao usar o modelo, incorporando à análise das situações concretas as nuances da realidade. É como o motorista que, ao guiar-se por um mapa, não ignora os reais obstáculos do caminho.

A distribuição esquerda-direita, por exemplo, muda de significado de um momento histórico para outro, de um lugar para outro e de um âmbito de questões para outro. O que era esquerda há certo tempo, pode ter-se tornado centro agora; o que é centro num estado da federação, pode ser considerado direita em outro; quem está à esquerda no plano dos costumes, pode estar à direita no âmbito da economia. Sem mencionar, ainda, que o eixo esquerda-direita é apenas uma (embora talvez a mais importante) das várias dimensões de preferências.

O modelo funciona melhor quando há apenas dois candidatos relevantes. Quando se multiplicam - como no 1.º turno de nossa atual eleição presidencial, em que há três - as tendências ficam menos claras. Afinal, nesse contexto, é plausível que cada competidor almeje o voto de apenas uma fatia do eleitorado, suficiente para levá-lo ao 2.º turno. Chegando lá, contudo, será indispensável cativar os medianos.

Na longa trajetória percorrida até ganhar o governo federal (e, sobretudo, depois de tê-lo conquistado), o PT rumou para o centro e - nas últimas três eleições - cativou o eleitor presidencial mediano. Ocupando o centro, empurrou para a direita o PSDB - que conquistara facilmente o eleitor mediano em 1994 e 1998, mas perdeu essa capacidade.

Com sarcasmo, Elio Gaspari já disse que os tucanos apostavam que se o eleitor odiasse duplamente o PT, teria dois votos antipetistas. Podemos dizer que o erro do PSDB nos últimos anos foi apostar mais no antipetista mediano do que no eleitor mediano. Quem quer que desafie a Dilma no provável 2.º turno precisará levar isto em conta.

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