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Entrevista. Lucas Oliveira

Integrante do Movimento Passe Livre, professor comenta como os protestos de rua ocorridos em junho do ano passado estão refletidos no debate eleitoral

'As ruas não estão pedindo um novo salvador'

Roldão Arruda

23 Agosto 2014 | 21h 12

O Movimento Passe Livre foi o desencadeador e a principal referência das manifestações de junho de 2013, que acabaram refletindo o descontentamento da sociedade com políticos e instituições públicas. Destacado integrante do movimento, o professor Lucas Oliveira comenta a forma como os protestos estão refletidos agora no debate eleitoral.

Marina Silva tem sido apontada como a principal depositária das esperanças de mudanças que vieram dos protestos. Como vê isso?

O Movimento Passe Livre é apartidário. Em relação às eleições, o que fazemos é a análise das propostas na área de transporte. De maneira geral, a candidatura à Presidência da República tem pouca influência na questão do transporte municipal. Mas ele poderia encaminhar ações que levariam à tarifa zero, que é a nossa proposta. Nenhum dos três principais candidatos apoia isso, nem faz proposta no sentido de redução de tarifas - que foi o motivo inicial dos protestos em todo o País.

Qual candidato estaria mais próximo de ser o porta-voz do que as ruas disseram?

Nenhum. Bastar ver que nenhum estava na rua. Foi a população que saiu e conseguiu uma vitória histórica, que foi a redução de tarifas em várias cidades. Naquele momento, todos os grupos partidários foram obrigados a recuar perante a força dos manifestantes. PSDB, PSB, PT, PMDB, todos faziam parte de governos que aumentaram as tarifas e tiveram que voltar atrás.

Marina não estava nessas siglas.

Mas ela participa dos velhos esquemas de alianças partidárias. Hoje está no PSB, que fazia e continua fazendo parte do governo de São Paulo - um dos governos obrigados a recuar após os protestos. Neste ano o aumento das tarifas de transporte foi barrado pela Justiça em Belo Horizonte, cidade governada por Marcio Lacerda, do PSB, o partido que ela integra.

Você não vê novidade nessas alianças partidárias de agora?

Não. Continuam sendo alianças para ver como gerir o Estado e controlar a população. Os governos inicialmente tentam reprimir, depois procuram englobar as estruturas participativas e organizam milhões de reuniões que dificilmente encaminham as demandas populares. Por fim, se nenhuma das duas coisas dá certo e as manifestações permanecem, eles cedem.

As propostas de Marina de uma democracia mais direta não podem ser uma resposta?

É preciso deixar claro que as ruas não estavam pedindo por um novo salvador.

E quanto à ideia de melhorar as formas de ouvir a população?

O MPL não quer mais formas de ouvir a população. O que ele reivindica é a população decidindo diretamente. Se alguém ouve para depois executar, continua mantendo a população no papel de expectadora. O MPL defende a permanente mobilização das pessoas. Não acredita na via institucional, de cima para baixo. Se acreditássemos, estaríamos ajudando a construir alguma candidatura. E não estamos fazendo isso.