Apoiadores protagonizam eleição em SP

PT enfrenta a 'lulodependência' e PSDB tenta driblar rejeição de Kassab, seu maior aliado

FERNANDO GALLO, BRUNO BOGHOSSIAN, ESTADÃO.COM.BR, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2012 | 03h03

Dois cabos eleitorais de estaturas políticas distintas estão prestes a entrar em cena na disputa pela Prefeitura de São Paulo. A 40 dias do início da campanha, o PT prepara terreno para o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Fernando Haddad, um candidato praticamente desconhecido. No campo do PSDB, José Serra pretende apresentar como trunfo projetos lançados pelo prefeito Gilberto Kassab (PSD), mas enfrentará o desafio de driblar o alto índice de rejeição de seu aliado.

Com Haddad congelado no patamar de 3% das intenções de voto, a cúpula da campanha petista depende de Lula para impulsioná-lo, com base em pesquisas que mostram que o ex-presidente pode mobilizar quase metade do eleitorado a favor de seu apadrinhado. Lula seria o principal cabo eleitoral petista em São Paulo, uma vez que a presidente Dilma Rousseff ainda hesita em fazer demonstrações significativas de apoio ao pré-candidato.

No PSDB, Serra levará ao palanque um cabo eleitoral que tem como trunfo uma carteira de projetos vultosos e um orçamento de R$ 38 bilhões, mas que é desaprovado por 58% dos paulistanos. Kassab ainda traz na bagagem o peso do escândalo que envolve um diretor da secretaria municipal de Habitação, suspeito de enriquecimento ilícito.

Em cena. Lula entrou em campo na última sexta-feira, após um longo período de convalescência do câncer. Sua entrada em cena expôs a dependência que o PT de São Paulo tem do ex-presidente e a transição de geração que o partido vive na capital, sem grandes líderes que possam suprir suas eventuais ausências.

Sete meses transcorridos desde o diagnóstico da doença, em que não pôde se dedicar 100% à campanha de seu apadrinhado, Lula retoma as atividades sem que nenhum líder tenha emergido durante o tratamento para tomar as rédeas da pré-campanha. O próprio Haddad, sem capital político próprio, não tomava decisões importantes, como a definição da coordenação de campanha, sem consultar seu mentor.

O PT espera que a volta do ex-presidente, liberado pelos médicos para agendas mais intensas, turbine a campanha de Haddad não apenas do ponto de vista midiático, atraindo a atenção do eleitorado, mas também sob o prisma das costuras políticas - fechando as alianças que darão sustentação à campanha petista e elevarão o tempo de TV e rádio do PT nas eleições.

Especialistas ouvidos pelo Estado apontam as razões da "lulodependência" vivida pelo PT paulistano: o abatimento da velha guarda do PT paulista pelo escândalo do mensalão sem que o partido tivesse conseguido formar novos líderes em São Paulo, o alto cacife político somado ao estilo personalista e centralizador de Lula, e o consentimento dos petistas à liderança extrema do ex-presidente.

"O Lula centripetou tanto o partido e sua liderança que ele desestimulou a formação de novas lideranças", diz José Álvaro Moysés, professor de Ciência Política da USP. "O outro lado é que o partido permitiu isso. Ele impôs a candidatura da Dilma, todo mundo aceitou. Com Haddad, a mesma coisa. Um partido que reage assim não tem como criar outras lideranças."

Carlos Melo, do Insper, vê na crise do mensalão uma parte importante da "lulodependência" petista. "Essa geração que hoje está com 60 anos ou mais foi atingida pelo mensalão. Depois do Lula, viriam José Dirceu e José Genoino. Você tem uma lacuna", diz. "Ninguém tem a dimensão do Lula e ninguém se mobiliza para ter."

Peso. Pré-candidato apoiado pelo atual prefeito, Serra quer levar para a propaganda eleitoral obras e projetos inaugurados por Kassab - com destaque para aqueles iniciados no período em que o tucano estava na Prefeitura.

A equipe de campanha ainda não definiu a estratégia para apresentar a relação entre Serra e Kassab na TV, mas descarta afastar as imagens dos dois. "O Kassab continuou a gestão do Serra e foi reeleito com esse peso", afirma um tucano.

Em atos de campanha, os petistas usam a expressão "Serra-Kassab" para tentar colar no pré-candidato a rejeição do prefeito. Os tucanos ensaiam uma resposta: indicam que, neste segundo mandato, Kassab trocou boa parte da equipe que Serra havia deixado na Prefeitura.

Apesar do alto índice de rejeição de Kassab, Serra ainda consegue conquistar apoio entre os críticos do prefeito. Pretendem votar em Serra 20% dos eleitores ouvidos pelo Ibope que avaliam a gestão de Kassab como ruim ou péssima. Entre os paulistanos que rejeitam o governador Geraldo Alckmin (PSDB), apenas 6% declaram apoio a Serra.

Kassab ainda enfrenta o noticiário negativo envolvendo Hussain Aref Saab, que era responsável pela aprovação de obras imobiliárias na Prefeitura. Os tucanos reagem com o argumento de que o prefeito afastou exemplarmente o funcionário.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.