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A foto e o filme

José Roberto de Toledo

Para 57% dos brasileiros, 2014 será melhor do que o ano passado - é a sétima maior taxa entre 65 países e está 50% acima da média mundial. No Brasil, praticamente a metade crê num 2014 de maior prosperidade econômica. Mais: 71% se dizem felizes, ante 60% no resto do planeta. Dá para ser melhor do que isso?

Não só dá como já foi melhor. Em 2012, todas essas taxas eram maiores. E em 2011 e em 2010. A foto na entrada do cinema mostra um belo cenário, mas o desenrolar do filme sugere um final menos feliz do que quando o espectador sentou na cadeira.

Mais importante do que o estado da opinião pública é a sua tendência, para onde ela está rumando. E a série histórica de pesquisas da rede WIN e do Ibope sugere que os brasileiros transitam de um estado de graça para uma situação ainda largamente feliz e otimista, mas mais realista.

Quais as implicações desse câmbio para as eleições deste ano?

Em 2012 as taxas de otimismo da população e de aprovação do governo se descolaram dos números da economia real. Pareciam flutuar num colchão de ar muito acima do que costumava ser a sua relação com a confiança do consumidor e a satisfação com a renda pessoal. O ajuste, quando veio, aconteceu de uma vez só, deflagrado pelos protestos de rua que marcaram junho de 2013.

Parecia o apocalipse para os governantes, mas não foi - não para todos. Após a mais abrupta queda de popularidade já sofrida por um presidente brasileiro, Dilma Rousseff engatou uma lenta recuperação. Não voltou ao patamar onírico pré-junho, mas mostrou mais resiliência do que se esperaria de um simples poste.

Já a oposição postou-se na defensiva, esperando para ver o rumo do vento. Esperou tanto que perdeu a chance de emplacar um discurso que aproveitasse o desejo de mudança da população.

Comparando a queda do otimismo do brasileiro na série anual da pesquisa WIN/Ibope com a recuperação de popularidade de Dilma na série mensal, há uma aparente contradição. Uma cai e a outra sobe. É questão de alinhar os fotogramas na sequência certa. Se a pesquisa WIN fosse feita em julho, e não em dezembro, provavelmente mostraria uma diminuição ainda maior do otimismo.

Isso quer dizer que Dilma já pode correr para o abraço? Não, por dois motivos. O principal é que dois a cada três eleitores insistem em que querem mudar muita coisa no governo. Isso mantém aberta a porta aos candidatos de oposição, se encontrarem um jeito de mostrar que são os mais aptos para promover a mudança.

O outro motivo é o mesmo que rege todas as eleições presidenciais brasileiras desde sempre: o bolso do eleitor. O Ibope acaba de fazer um estudo estatístico medindo a influência de fatores econômicos sobre a popularidade presidencial, desde Fernando Henrique Cardoso. E a conclusão é irrefutável.

Segundo a CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari, "a cada ponto de melhora na percepção de aumento da própria renda, há um aumento de cerca de 2 pontos porcentuais no nível de aprovação do presidente. Já no caso do endividamento, a cada ponto na percepção de diminuição do nível de endividamento, aumenta pouco mais de 2 pontos a aprovação do presidente em exercício".

Essa regra valeu para FHC e Lula. E para Dilma? Ainda mais.

Diz Marcia: "Para ela, a cada ponto de percepção de melhora no desemprego ou na atual situação financeira, a sua aprovação aumenta em mais de 2 pontos porcentuais. O endividamento também tem impacto, mas menor. O poder de explicação dessas variáveis para a aprovação do governo é de pouco mais de 50%".

A foto é boa para Dilma, mas o filme é uma incógnita. Os altos e baixos da trama prometem continuar até o fim da campanha. Embora outros fatores possam aloprar o resultado, o mais provável é que a renda e o emprego continuem ditando o destino da popularidade presidencial e, por tabela, suas chances de reeleição.