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Fabio Motta/Estadão

07 de Agosto de 2015 | 00:00
Atualizado 07 de Agosto de 2015 | 19:54

Fabio Motta/Estadão

Pessoas bateram panelas, buzinaram e gritaram durante os 10 minutos de propaganda do PT em vários bairros da capital paulista e também em outras capitais do País. Enquanto protestavam contra o governo, manifestantes gritavam "fora PT", "fora Dilma" e "acorda Brasil". Não é a primeira vez que isso acontece. Manifestações nesse formato tomaram corpo a partir de março, durante pronunciamento da presidente em rede nacional pelo Dia Internacional da Mulher. O 'fenômeno' é sempre acompanhado de calorosas discussões nas redes sociais. 

Para o economista Marcos Fernandes G da Silva, pesquisador do Cepesp/FGV (Centro de Política das Políticas Públicas) e coordenador do Núcleo de Analytics do Instituto de Finanças da FGV, 'panelar' é uma forma legítima e necessária de se manifestar contra o governo. Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP e coautor do livro 'Vinte centavos: a luta contra o aumento', ressalta o perigo de, com o ato, suprimirmos o debate.

Veja o que cada um tem a dizer sobre o assunto e comente: é a favor ou contra o 'panelaço'?  

Para cozinhar e protestar!
Para cozinhar e protestar!

Luiz Felipe Hadlich Miguel

Advogado

De diversas cores, tamanhos e formatos, as panelas são objetos presentes em praticamente 100% dos lares do planeta. Sua origem é bastante antiga, remontando à Pré-história as descrições de sua utilização (foi após a domesticação do fogo que o homem se afastou de sua existência puramente animal e deu início à sua vivência mais humana). Passados milhares de anos, em pleno século XXI, estes curiosos objetos (empregados usualmente para cozer alimentos) vêm ganhando outras utilidades.

No Brasil recente as panelas ganham força como instrumento de protesto. Insatisfeitos com os rumos da nação, cidadãos postam-se à frente de suas janelas para, em determinado dia e horário, percutirem objetos metálicos em panelas, gerando um ruído deveras emblemático e característico, numa demonstração de reprovação aos ditames governamentais adotados pela Presidência da República.

Os denominados "panelaços" nada mais são do que o puro e simples exercício do Direito de Reunião, consagrado constitucionalmente, e que garante a expressão de opinião pública - elemento basilar nos considerados Estados Democráticos de Direito.

Espera-se, com a sua efetivação, que a repercussão possibilite a mudança do status quo, de forma a permitir alterações de condutas e de diretrizes governamentais.

Vale lembrar que as redes sociais e os novéis métodos de rápida comunicação trazem aos organizadores dos manifestos um poder de, velozmente, dissipar a notícia, expondo dia e hora dos programados eventos.

A discussão que nos parece mais importante diante do quadro sócio-político brasileiro ora posto é saber: qual a real força deste movimento, que ganha novos adeptos a cada edição?

Nesta esteira, há um aparente desconforto do governo para com esta nova forma de protestar. Tanto é assim que em programa partidário recente fora feita uma referência velada aos ditos eventos, posicionando-os como manifestações de uma pequena parcela elitizada da população.

Longe de querer apoiar (ou não) este fenômeno, o fato é que expressa, a toda evidência, a indignação de uma parcela da população. Simplesmente ignorá-lo dará ensejo à sua potencialização. Curvar-se a ele é demonstrar fragilidade e o reconhecimento de equívocos na condução da política nacional.

A sociedade é um organismo mutável e adaptável. Estamos diante de um novo fenômeno de manifestação social. Suas efetivas forças e poderes ainda são desconhecidos. Resta saber se teremos instituições sólidas e governantes sensíveis aos reclames de seu povo. Enquanto isso, deixemos as panelas a postos - ao lado do voto, parecem ser armas das mais poderosas no exercício da democracia.

Luiz Felipe Hadlich Miguel,

associado do Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial - IBDEE

Justo e necessário
Justo e necessário

Marcos Fernandes G da Silva

Economista

Sim, vale: é justo e necessário. Confesso que tenho um tanto de vergonha em bater panela dado que não me identifico com muitos que o fazem, mas creio que estou errado. Explico-me.

Em campanha, a presidente e o PT prometeram o oposto do que foi entregue. Inflação fora de controle, gestão do setor de energia equivocada, descongelamento de preços administrados (correto, mas fatal em suas consequências), má gestão do setor de petróleo, desenho equivocado do contrato do pré-sal, energia (área de formação da presidente) e nos Fundos de Pensão estatais, desemprego, perda de conquistas, sensação de insegurança. Isso sem falar na corrupção na Petrobrás, cuja CEO é Dilma, bem como agora aparecendo na Eletrobrás.

O programa do PT de ontem, 06/08/2015, por exemplo, foi uma mistura de dissonância cognitiva, autoengano, ignorância, tortura dos fatos, com uma pitada de arrogância. Diante disso entendemos bem o programa do humorista britânico John Oliver, no qual, em comentando o caso Petrobrás e os panelaços, bate panelas ao final. Meus amigos correspondentes estrangeiros, muitos de esquerda, estão perplexos com Dilma e o PT. Não é por menos. Uma vez reeleita, Dilma não admite que errou, não pede desculpas para a nação; o presidente do partido parece não viver no mesmo país que nós. A lista é grande.

Mas podem argumentar que as pessoas que batem panelas são “de direita”, “classe média coxinha”. Em parte, são, e elas têm o direito de pensar e agir livremente. Teorias conspiratórias e maniqueísmos andam juntos. Lembro-me da segunda grande manifestação em São Paulo em 2013: uma amiga petista (sim, tenho amigos petistas e eleitores convictos de Dilma, poucos...que sobraram...dão um trabalho!) de cara me manda uma mensagem...”golpe em andamento, direita nas ruas”. Jesus, quanta assimetria entre a realidade e a imaginação conspiratória.

Por exemplo, o colega de Fundação Getúlio Vargas e cientista político, Sergio Praça, em seu blog “Política com Ciência” (e digo eu, sem crença, mas fatos), revelou um dado importante sobre o perfil dos participantes dos protestos de 2013. Matthew Winters e Rebecca Weitz-Shapiro, num artigo acadêmico publicado ano passado no Journal of Politics in Latin America, mostram que (i) nos protestos os cidadãos não se identificavam com partidos e (ii) os alinhados com do Partido Verde PV e com PSOL eram mais numerosos que indivíduos da direita politicamente organizada.

Algo semelhante ao autoengano conspiratório aparece nas pseudoanálises de alguns intelectuais (que mormente ignoram dados, modelos e preferem crendices infundadas). Imaginam que as pessoas são manipuladas por oráculos chomskynianos. Venhamos e convenhamos, numa democracia de massas, todos somos, em algum momento, massa mesmo e, por vezes, elite. Explico: como economista sou elite, assim como filósofo da ciência, que seja. Logo sei mais do que os outros e sou mais bem informado e formado (nestes campos). Mas na hora em que o Congresso vai discutir transgênicos, células tronco, sou massa, preciso ler, me informar com biólogos que pensam, se possível e desejável, de forma diferente a ponto de poder tirar minhas conclusões se me posicionar politicamente como eleitor a favor ou não de uma lei.

Os formadores de opinião, biólogos e economistas, cientistas políticos, juristas, engenheiros, todos os profissionais, usam os meio de comunicação - como o faço agora - para formar opinião. Cabe ao cidadão discernir  entre o que falamos e os fatos. Educação crítica faz falta neste momento e sabemos como caro isto é ao Brasil, posto que mesmo entre pessoas ditas “de elite” o maniqueísmo que separa o mundo entre petralhas e coxinhas prevalece. Mas este é o eleitor que temos.

Muito bem, os paneleiros - que vão de Moema a Marsilac, de Pirituba a Itaquera agora (ai santo autoengano!) não precisam, como nós, saber de tudo: ele assistem televisão, leem notícias no smartphone e analisam - tudo que foi prometido numa eleição sanguinolenta, dominada por marqueteiro vendedor de biscoito e não por debate, não é entregue (no delivery, afinal não foi tudo marketing mentiroso!?).

De duas a uma, ou o intelectual orgânico do PT (parece-me que não há mais isto, a cúpula do partido é medíocre, ao contrário do passado) acha que as massas são inteligentes, esclarecidas e iluminadas superando a alienação burguesa somente quando votam em Dilma e no PT ou ela/ele me lembra um economista famoso que, diante do fato de que sua teoria era contrariada pela realidade, proclamou em bom tom, bradando “a realidade está errada!”.

Mas ao início deste artigo coloquei que tenho vergonha de panelar (acabei de criar o verbo) dado que não me identifico com muitos que o fazem, mas estaria errado ao agir assim. Estou mesmo, pois irei para a rua e baterei, panelarei. Afinal, não é porque alguns participantes são preconceituosos, ignorantes e arrogantes à direita que vou me privar de dizer: basta de mentira e salto alto. Afinal, muitos à esquerda que não batem panelas e não vão às ruas compartilham os péssimos predicados acima.

Marcos Fernandes G da Silva,

economista da FGV, pesquisador do Cepesp/FGV (Centro de Política das Políticas Públicas), coordenador do Núcleo de Analytics do Instituto de Finanças da FGV e pesquisador na FGV do desenvolvimento do supercomputador Watson/IBM

Suprimindo o debate
Suprimindo o debate

Pablo Ortellado

Filósofo

O direito de protestar é um dos direitos mais fundamentais de uma democracia. Tanto os protestos de rua, como os panelaços, que andam em voga, são instrumentos legítimos de expressão da insatisfação. Mas será que os protestos que temos visto recentemente têm cumprido a função histórica de expressar as insatisfações populares e pressionar o sistema político?

A questão não é que o debate na sociedade se expresse por meio de protesto, mas que ocorra justamente o contrário: que o protesto esteja a serviço de uma dinâmica que está suprimindo o debate público. 

Nada pode ser mais simbólico da negação do debate do que protestar fazendo barulho, cobrindo de ruído um pronunciamento da presidente ou do partido da presidente. Infelizmente, essa indisposição ao debate não está apenas neste gesto simbólico, mas na dinâmica política que se vê no Executivo e no Legislativo e que de lá se expande para os meios de comunicação e para a sociedade civil. 

Governo e oposição, os dois grandes agrupamentos políticos que organizam a esfera pública, têm se esforçado para esvaziar o debate de qualquer substância, substituindo-o por ataques mútuos de desqualificação. De um lado, o governo ataca a oposição, acusando-a de mobilizar apenas os mais ricos que protestariam por verem seus privilégios ameaçados pela ascensão social dos mais pobres. De outro, a oposição desqualifica os apoiadores do governo que seriam marionetes políticos alimentados por recursos públicos distribuídos pelo Estado. Pouco importa que essas acusações mútuas flutuem entre a falsidade e o exagero. O resultado é que o debate substantivo de ideias e visões de país desaparece e as decisões políticas passam a ser o resultado de um jogo de forças muitas vezes desprovido de justificação.

O ajuste fiscal em curso, por exemplo, não consegue encontrar espaço para uma discussão qualificada. De um lado, o governo, pressionado pelas contas públicas e pela necessidade de investimento externo, adota uma política flagrantemente contrária ao discurso de campanha e defende, como pode, as medidas amargas que impôs. De outro, a oposição, que defendia políticas muito semelhantes no debate eleitoral, oscila entre denunciar a incongruência do governo e sabotar o ajuste fiscal para prejudicá-lo. Nesse jogo de força que domina o debate parlamentar, os meios de comunicação e as redes sociais, não há espaço para se debater as contas públicas, a estrutura tributária, a adoção de medidas anticíclicas e o modelo de desenvolvimento. 

O protesto é um instrumento fundamental para pressionar o sistema político que frequentemente está desconectado das questões vivas da sociedade civil. Manifestar e protestar é o principal instrumento, para além do voto, por meio do qual a sociedade intervém nas instituições políticas. A maior parte das nossas conquistas civilizacionais, dos direitos trabalhistas aos mecanismos de proteção ambiental, é o resultado de campanhas de protesto. 

Mas o que temos visto recentemente é a inversão desta lógica que vai da sociedade civil às instituições políticas. Boa parte da nossa dinâmica política recente é o agenciamento de insatisfações legítimas da sociedade civil por uma disputa institucional entre dois grupos políticos. É a guerra no alto que mobiliza a sociedade civil e não o contrário. Retomar o debate público para podermos construir saídas para os nossos problemas passa necessariamente pela esfera pública recuperar sua autonomia do poder político.

Pablo Ortellado,

professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP e coautor do livro 'Vinte centavos: a luta contra o aumento'

Frigideira e pressão
Frigideira e pressão

Valdemir Pires

Economista

Não é preciso ter uma memória prodigiosa para lembrar um tempo em que, no Brasil, milhões de famílias não tinham o que por na panela para preparar a refeição do dia; nem tinham panela, pratos ou talheres. Tempo em que as panelas chinesas não ameaçavam os fabricantes nacionais do utensílio doméstico básico. 

Recuando um pouco na história do país, a memória encontra um tempo, sombrio, no qual realizar panelaços contra o governo seria motivo de prisão. Nesse período, a fome também grassava do Oiapoque ao Chuí.

As manifestações recentes contra o governo eleito há alguns meses, que fazem uso do repicar das panelas (copiando uma prática comum na vizinha Argentina), são um sinal de melhores dias, que deixam para trás um passado ingrato. Por um lado, são expressão de uma democracia que amadurece, por mais recalcitrantes que sejam os que pedem a volta dos militares e os que ainda não aprenderam a respeitar os votos da maioria. Por outro lado, são a prova de que se multiplicaram as panelas, alguns até podendo se dar luxo de danificar parte das suas, paralelamente à chegada de gêneros alimentícios a cozinhas nunca antes abastecidas.

Mas o ruído dos panelaços nos bairros e regiões em que residem os mais ricos e os menos pobres também traz consigo sombrias perspectivas. O direito de manifestação - conquistado com tanta luta e sacrifícios - vem sendo utilizado à base de três ingredientes que jamais deram bom resultado: a intolerância política, a insensibilidade social e o oportunismo golpista. Barrigas cheias sustentando cabeças abarrotadas, não de ideias, propostas e projetos, mas de preconceitos e informações distorcidas, enviesadas, temperadas com o óleo rançoso de visões de mundo retrógradas e posturas políticas protofascistas.

Juntas, as panelas que repicam estão intencionalmente se transformando numa imensa frigideira, onde, pretendendo fritar a presidente eleita, podem terminar lançando óleo quente sobre todas as instituições e sobre as frágeis conquistas sociais obtidas a muito custo nas últimas duas décadas.

É preciso desarmar essa panela de pressão que está tornando o quotidiano insuportável em todas as instâncias da vida, principalmente para aqueles de maior sensibilidade e para os que têm em suas mãos maiores responsabilidades. É preciso reencontrar a perdida receita que faz o bolo crescer e, ao mesmo tempo, prosseguir na busca dos misteriosos ingredientes que permitem que esse crescimento se distribua menos desigualmente do que tem sido habitual nessa terra em que tudo dá, muitos plantam, mas poucos colhem.

Valdemir Pires,

economista, professor e pesquisador do Departamento de Administração Pública da UNESP

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