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Rodrigo Garrido/Reuters

Ao se afastar do PT, Dilma ganha ou perde?

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29 de Fevereiro de 2016 | 00:00
Atualizado 29 de Fevereiro de 2016 | 20:01

Rodrigo Garrido/Reuters

Buscando conter as investidas da oposição e de parte do PMDB por sua saída do Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff iniciou um processo de afastamento do PT: não compareceu à festa de 36 anos de seu partido no último sábado, no Rio de Janeiro, e, questionada sobre críticas de petistas ao ajuste fiscal conduzido por sua administração, disse que não governa só para a legenda, mas para toda a população. 

+ Marco Aurélio Nogueira: PT se afasta de Dilma +

Leia as análises de Alberto Aggio, historiador e professor titular da Unesp em Franca, e João Cardoso Palma Filho, professor titular de Política Educacional do Instituto de Artes da Unesp, sobre a questão e deixe a sua opinião: quem se beneficia com o distanciamento entre a presidente e o PT?

 

Dilma perde
Dilma perde

João Cardoso Palma Filho

Educador

É de todo sabido que Dilma entrou tardiamente para o PT, quase que às vésperas da vitória de Lula na eleição de 2002. No seu DNA político encontra-se a marca, muito mais do PDT Brizolista do que a do PT de Lula. Por outro lado, se não fosse o PT e Lula, jamais teria sido eleita em 2010 e muito menos teria alçado ao Planalto para um segundo mandato em 2014. De fato, Lula apostou em uma candidata sem nenhuma experiência política e, pior que isso, sem a capacidade de dialogar com os setores oposicionistas.

Ela não pode responsabilizar o PT e muito menos ainda Lula pelo desastre da política econômica que sustentou durante os quatro anos do seu segundo mandato. 

Como consequência dessa mesma política, resolve, no segundo mandato, enveredar pelo caminho de um reajuste fiscal, que joga nas costas dos trabalhadores e da população em geral o preço a ser pago pelos erros do primeiro mandato.

Evidente que a base social que sustenta o Partido dos Trabalhadores jamais concordaria com tal política que, além de não resgatar a credibilidade do País no meio das finanças internacionais, provoca arrocho salarial, inflação e desemprego.

No campo político, perdeu toda a base de sustentação que tinha no Congresso Nacional, por ocasião do primeiro mandato.

Se esperava que com os juros na estratosfera fosse angariar o apoio dos setores que se beneficiam com essa política de juros altos, se enganou. O apoio não veio, e, em contrapartida a dívida interna explodiu ao ponto de várias instituições retiraram do Brasil o título de bom pagador. Há receio generalizado de que a situação do País possa se deteriorar mais ainda. A crise combina falta de apoio na área política com a perda de credibilidade por parte daqueles que poderiam alavancar os investimentos, tão necessários para o emprego volte.

Na crise, quem perde mais são os trabalhadores que não têm como proteger os seus recursos em aplicações financeiras, e nesses setores que o PT e Lula ainda detêm apoio.

Se Dilma romper com o PT/Lula, como vem sendo anunciado pelos meios de comunicação, estará liquidada e, com certeza enfrentará o processo que pretende cassar o seu mandato, conquistado legitimamente no pleito de 2014, apesar da oposição não se conformar, sem quem a defenda nas ruas e no parlamento.

Em resumo, Dilma tem muito a perder se afastando do PT e de Lula, mas se não mudar a sua política econômica, eles é que se afastarão dela, uma vez que o PT e Lula não podem abandonar suas bases de sustentação, ou seja, os movimentos sociais.

João Cardoso Palma Filho,

professor titular de Política Educacional do Instituto de Artes da Unesp

Cálculo, dissimulação e marketing
Cálculo, dissimulação e marketing

Alberto Aggio

Historiador

Dilma Rousseff sempre advertiu que aqueles que apostassem na ruptura entre ela e Lula perderiam em quaisquer circunstâncias. E assim tem sido desde que Lula a convidou para ser candidata à Presidência da República. Nas campanhas eleitorais, sempre figurou como a mulher que Lula havia escolhido para governar o País pela primeira vez. Uma mulher de capacidades notáveis e de história heroica. Desde que assumiu o poder, não foram poucas as vezes em que Dilma recorreu ao ex-presidente para ouvir seus conselhos, ainda que não os aceitasse de todo. Há aí uma relação entre criador e criatura até agora inabalável.

Lula sempre teve em Dilma Rousseff uma 'persona' tão distinta a ele que poderia cumprir com rigorosidade o papel que ele havia projetado: eleger-se como se Lula fora; e mais: não alçar voo próprio pelas limitações que ele conhecia, além de garantir uma situação favorável para quando ele desejasse retornar ao centro da vida política, reelegendo-se presidente da República.

Entre os dois sempre houve um jogo intencional que mesclou cálculo político, dissimulação e marketing. Precisariam sempre se manter e se refazer, movimentar-se no cenário e, por fim, vender-se como um mesmo produto.

Em relação ao PT, Dilma Rousseff sempre foi menos enfática, mais protocolar e, por fim, mais distante. Nunca se considerou devedora do partido. Dilma efetivamente não é e nunca foi uma liderança partidária, orgânica ao PT ou ao PDT, seu partido de filiação anterior. Suas origens, marcadas pelo voluntarismo da luta armada deixou marcas, não apenas de conduta mas de concepção política.

Mas o tempo não passou em vão. As bombas-relógio do segundo mandato de Lula começaram a explodir ao final do primeiro governo de Dilma. O horizonte já evidenciava a tempestade, e depois das manifestações multitudinárias de 2013 o cenário se mostraria sempre mais difícil. Desde a nova posse em 2015 a situação só se agravou: crise econômica, Lava Jato e outras operações contra a corrupção, atingindo diretamente o PT e seus aliados, e a perda de credibilidade entre agentes políticos e opinião pública acabaram por gerar uma situação de gravidade inaudita para os planos futuros de Lula.

Em meio a essa turbulência, os sinais de crítica sempre tiveram um vetor: de Lula para Dilma, e não o inverso. Ainda que de maneira errática, sempre que pode, Lula procura manifestar, embora de forma leve, sua contrariedade em relação às políticas de ajuste. O mesmo ele sempre fez em relação a alguns dos colaboradores de Dilma. Registre-se que Lula sempre procurou salvaguardar-se em relação aos indicados para compor o governo Dilma, procurando se resguardar de resultados não previstos.

Dilma não tem alternativa senão tentar debelar ou 'cozinhar' a crise. Sabe que não tem mais como construir uma grande obra de governo. Não teria com quem negociar e não teria apoio nem mesmo do PT, quanto mais da oposição.

Não tem liderança nem credibilidade para se afastar de Lula e do PT visando tomar as medidas necessárias para enfrentar a crise. E está convencida de que o programa do PT (que retoma o governo Lula) é irrealizável, tanto mais nas atuais circunstâncias. O PT e Lula têm mais área de manobra discursiva para realizar uma crítica a Dilma, sem romper com ela e nem com o governo.

Nessa zona cinzenta, o PT e Lula querem se revitalizar e sabem que não será com os possíveis êxitos do governo Dilma. Eles não virão: nem com o programa de ajuste e menos ainda se ela adotar o retorno à 'nova matriz econômica'”.

Cálculo, dissimulação e marketing são os ingredientes que compõem um quadro de desespero, ilusão e autoengano nas relações entre Dilma, Lula e PT.

Alberto Aggio,

historiador e professor titular da Unesp em Franca

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