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Temer e a avalanche

Jose Roberto de Toledo

31 Julho 2017 | 00h10

Se cada ponto percentual fosse um metro, o Palácio do Planalto estaria rodeado não por um espelho d’água com 60 centímetros de profundidade, mas por um fosso de 86 metros de desconfiança. O Congresso se ocultaria atrás de 82 metros de descrença, e a Esplanada dos Ministérios estaria separada do Brasil por 74 metros de descrédito. Essa é a atual fundura da falta de representatividade da democracia brasileira. Mas quem cavou a crise não se ocupa disso. De fato, aprecia o isolamento.

Governar despreocupado com a opinião pública é mais um luxo a que os encastelados no poder se acostumaram. Virou rotina, uma trivialidade como viajar no jatinho de amigos, comprar jóias com recurso público ou receber malas e caixas de dinheiro vivo pago por açougueiros com complexo de grandeza. De tão habituados à altitude de seus palácios, os cortesãos se desacostumaram a observar a planície. É erro de consequência nada trivial.

A falta de protestos – a despeito das sucessivas quebras do recorde de impopularidade – não deveria ser alívio para Temer e sua turma, mas o contrário. A insatisfação não é um fenômeno que se manifesta linearmente. É engano pensar num roteiro de novela que constrói o fim inescapável aos poucos. O Brasil virou filme de suspense. Reviravoltas são esperadas, mas imprevisíveis.

Como todo sistema complexo, as relações políticas formam uma rede embaraçada, um labirinto com múltiplos caminhos e saídas inimagináveis. A calma aparente de 2017 se assemelha à de 2013. Quando junho virá, ninguém sabe. Mas multiplicam-se sinais de que a pressão social está se acumulando, se reprimindo, sem saída: medo em alta, confiança em baixa, falta de perspectiva.


A oscilação decimal da taxa de desemprego em um patamar de dois dígitos não é sinal de melhora das condições econômicas, mas de piora das relações de trabalho. É a necessidade do ex-empregado de apelar ao bico como única forma de sobrevivência. De tanto crer que governar é administrar expectativas, ministros e presidente acabam acreditando em suas narrativas edulcoradas.

O cenário que se arma é comparável ao que antecede um grande incêndio florestal ou uma avalanche. Enormes quantidades de energia vão comprimindo a neve no alto da montanha ou se acumulando em bilhões de folhas ressecadas pela falta de chuvas. Sem sucessivos deslizamentos ou fogos menores que dissipem a pressão, a energia aprisionada cresce até o ponto de ruptura. Quando explode, a única escapatória é tentar sair da frente.

A queda de Dilma liberou pressão – pelo menos de um lado do espectro político. A permanência de Temer acumula tensões de todos os lados. A julgar pelo noticiário, o presidente deve conseguir enterrar na Câmara – esta semana, ou na próxima – a primeira denúncia do procurador Rodrigo Janot contra ele. Outras virão e, com elas, mais detalhes se tornarão públicos sobre as lambuzadas da Turma do Pudim. Mais pressão reprimida.

Pode ser que exploda amanhã, por causa de inocentes 20 centavos, pode ser que se acumule até outubro de 2018. Quanto mais tempo demorar para ser liberada, maior será o estrago – e maior a quantidade de vítimas. Enquanto isso, os morubixabas partidários tratam a crise e as eleições do próximo ano como só mais uma.

2018 não repetirá 2014 ou 2002. Talvez se pareça com 1989, mas em escala exponencial. O grau de insatisfação da população com a classe política, com seus representantes e com os partidos não é uma abstração estatística ou um recorde de almanaque. É um fenômeno social que, de algum jeito, acabará destampado. Por sobrevivência, os congressistas deveriam desafogar a pressão antes de enfrentarem as urnas. É isso ou sair da frente.