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Jose Roberto de Toledo

20 Março 2017 | 00h10

Após a Polícia Federal espetar a JBS na Carne Fraca não dá mais para ignorar que empresas suspeitas de corromper funcionários públicos investiram R$ 1,2 bilhão (corrigida a inflação) na eleição de 2014. E isso só pelo caixa 1. É mais da metade de tudo o que foi doado oficialmente por grandes financiadores (quem deu mais do que R$ 2 milhões) para candidatos a presidente, governador, senador, deputado federal e estadual.

Tampouco dá para esquecer que esses grandes doadores alvos da Lava Jato e de outras operações policiais colocaram largas somas nas campanhas de praticamente todos os partidos grandes e médios, além de alguns nanicos: PT, PSDB, PMDB, PP, PSD, PR, PSB, PC do B, PDT, PRB, PTB, SD, PROS, DEM, PSC, PV, PTN, entre outros. A cor dos partidos não importava, só a do dinheiro.

Em regra, o tamanho do investimento seguiu as regras de qualquer negócio: foi proporcional à chance de retorno. O valor recebido pelas legendas em 2014 acompanhou o favoritismo de seus candidatos nas eleições majoritárias. PT e PSDB ganharam mais que o resto porque foram ao segundo turno na corrida presidencial. A mesma lógica foi aplicada às proporcionais. Eduardo Cunha foi o candidato a deputado federal do PMDB que mais arrecadou porque era barbada para presidir a Câmara.

Como mestres no retorno do capital investido, esses grandes financiadores espetados pela PF tiveram muito sucesso nas eleições. Juntos, ajudaram a eleger pelo menos metade da Câmara dos Deputados. Graças ao investimento bem sucedido de R$ 55 milhões em 2014, não há partido com bancada maior que a da JBS, por exemplo. Não discrimina ninguém: tem quem virou ministro do governo Temer, como os da Justiça e da Saúde, tem líderes da oposição petista e tem até “outsiders” tipo Jair Bolsonaro.

Embora o Supremo Tribunal Federal tenha aberto a porteira para considerar ilegal também as doações recebidas pelo caixa 1 oficial, o fato de um parlamentar ou governante ter recebido dinheiro de doadora que esteja metida na Lava Jato ou em outra operação policial não o torna automaticamente suspeito de nada. Nem mesmo quem recebeu de quatro ou cinco empresas investigadas, como é o caso de alguns deputados. Pode ser coincidência.

Também vale ressalvar que frigoríficos estão em grau de cozimento diferente dos empreiteiros. Uns são condenados confessos, outros estão sob investigação. Podem ser inocentados.

Feitas as ressalvas, o fato é que quem bancou a maior parte das campanhas eleitorais de praticamente todos os partidos em 2014 está encrencado com a polícia, com a Justiça ou com ambas. E essa encrenca está diretamente ligada às relações dessas empresas financiadoras da política com o poder público: seja para ganhar concorrências, seja para evitar fiscalização.

O dinheiro dos espetados foi tão determinante no resultado de 2014 que as doações empresariais acabaram proibidas em 2016. Com o argumento de que a proibição estimulou o caixa 2 e favoreceu os ricos, “master chefs” de todos os Poderes articulavam o retorno do financiamento empresarial em 2018. Mas isso foi antes de sentirem o cheiro de churrasco da Carne Fraca. Agora, o menu de mudanças da legislação eleitoral e partidária deve mudar.

Multiplicação bilionária dos pães no mal-fiscalizado Fundo Partidário e o voto em lista para o Legislativo entraram no cardápio. Juntas, essas medidas dão poder inédito aos donos dos partidos. Eles poderão ditar quem se elege e com quanto.

É a receita para afastar de vez a clientela das urnas, piorar ainda mais a reputação da política e estimular curandeiros e suas poções milagrosas. Os ingredientes desse cozidão eleitoral já estão na panela. Só falta acender o fogo.

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