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O efeito Macron

Jose Roberto de Toledo

19 Junho 2017 | 02h27

Eleições antecipadas seriam muito diferentes de Diretas-já, na forma e resultado. Num pleito presidencial solteiro, o vencedor seria eleito para substituir Temer até 2019, mantendo, até lá, Congresso e governadores que estão aí. Já trazer 2018 para 2017, como propôs FHC, implica trocar ocupantes de Assembleias, Câmara, Senado e de 28 palácios, fora vices e suplentes. Em vez de um só, a antecipação quer dizer desalojar 1.790 poderosos. Facinho.

Deixemos de lado, por ora, quem e como se operaria o milagre. Renúncia coletiva? Emenda constitucional? Intervenção divina? Pacto com o demo? São questões mais metafísicas que políticas. Já as consequências seriam bem práticas e palpáveis.

Diferentemente de Diretas-já para eleger um presidente-tampão, em uma eleição geral antecipada não haveria o problema da desincompatibilização que impediria governadores como Alckmin e prefeitos como Doria de disputarem a eleição presidencial agora. Tem que mexer em tanta coisa para abreviar todos os mandatos em vigor que prazos de filiação partidária ou para um governante renunciar e disputar outro cargo seriam detalhes.

Para além dessa diferença operacional – que, nas Diretas-já, beneficiariam presidenciáveis desimpedidos como Lula, Marina, Ciro e Bolsonaro -, o eleito para o mandato-tampão teria o potencial de mudar completamente o cenário político até 2018. É só ver o que aconteceu com a França após a eleição de Macron.


Um novo presidente e seu partido novo saíram do desconhecimento para o Palácio do Eliseu e para seis de cada dez cadeiras na Assembleia Nacional em poucos meses. Mas foi a vitória por dois terços dos votos no 2º turno do centrista Emmanuel Macron em maio que abriu caminho para o recém-fundado “En Marche!” conseguir fazer ampla maioria parlamentar nas eleições deste domingo. No 1º turno, em abril, os franceses estavam rachados em quatro. Hoje, têm um presidente popular com maioria folgada.

O Brasil não é a França e o sistema eleitoral aqui não é distrital como lá. Mesmo assim, a eleição de um presidente-tampão criaria tanta imprevisibilidade – como o efeito Macron – que jamais os partidos que estão no poder se arriscariam a apoiá-la. Numa eleição presidencial solteira pode dar qualquer coisa: inclusive um outsider pouco conhecido de um partido novo.

Já em uma eleição casada, como no caso de antecipação proposta por FHC, as máquinas dos governos estaduais exerceriam influência muito maior sobre o resultado do pleito presidencial. A necessidade de montar palanques e alianças com candidatos a governador em todos os Estados aumentaria o cacife dos partidos tradicionais, especialmente de quem já está no poder.

Sob esse ângulo, a proposta de FHC faz muito mais sentido para o PSDB do que a das Diretas-já, oportunamente apropriada pelo PT. Isso quer dizer que desalojar 1.790 poderosos de uma vez só é mais fácil do que apenas mandar Temer mais cedo para casa? Não.

Quer dizer que a bandeira das eleições gerais antecipadas cria um discurso político mais simpático para os tucanos do que apenas continuar apoiando um presidente impopular e investigado. E, assim como as Diretas-já no caso do PT, sua possibilidade de sucesso é tão pequena que não há risco em propô-la. O PSDB pode continuar no governo e defender a ideia ao mesmo tempo.

Nenhum grande partido está empenhado para valer em levar o eleitor à urna antes de 2018. Mas dizer que está é boa propaganda e também um seguro. Se seus planos derem errado, Temer for ejetado e tiverem que apelar para as diretas, poderão dizer que sempre defenderam eleições. Se eram casadas, antecipadas ou solteiras, tanto faz. Crise é oportunidade.

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