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Não fala mas compartilha

Jose Roberto de Toledo

31 Agosto 2017 | 00h10

Publicado por André Fernandes em Quarta-feira, 23 de agosto de 2017

André tem 19 anos e vive no sul do Ceará. Internet para ele não é só para jogar Counter-Strike. Como tantos millennials, fez dela um meio de vida. Já tentou ser um novo Whindersson Nunes – o mais popular youtuber brasileiro – mas desiludiu-se. Trocou o humor pela política, com sucesso. Nos últimos 15 dias, a página “André Fernandes” (@andreanony1) no Facebook foi a que mais originou interações envolvendo o termo “Bolsonaro”. No mundo.

Foram mais de 350 mil likes, comentários e compartilhamentos desde 18 de agosto. Tudo por causa de um único vídeo, “Você tem coragem de votar em Bolsonaro?”. Ao longo de dois minutos, André, dirigindo-se à câmera como quem fala com um amigo, faz perguntas como: “Você tem mesmo coragem de votar em um cara que quer armar a população?”. Ou “Votar em um cara que vai dar carta branca para o policial matar também?”. E conclui: “Eu tenho”.


O que começa parecendo ser uma crítica exaltada ao deputado e militar aposentado, contra suas ideias mais polêmicas, é, de fato, uma declaração de voto e endosso de sua plataforma. “Eu tenho. E não só coragem. Eu tenho vontade de chegar logo 2018 e a gente eleger Jair Messias Bolsonaro como presidente”. O vídeo já tem 5,7 milhões de visualizações e segue sendo visto.

André Fernandes de Moura não é um robô. Tampouco é o que os rivais chamam de “Bolsominions”, os MAVs – sigla que designa militantes virtuais, pagos ou não, que infernizam noite e dia as mídias sociais contra ou a favor de algo ou alguém – de Bolsonaro. André é um jovem que se auto-intitula “conservador” e que já pensava como Bolsonaro antes de saber que ele existia.

Após cursar quatro semestres na Universidade Regional do Cariri (a Urca, do governo do Estado), André deixou o curso de Economia para seguir sua paixão. Passou em concurso público e vai ser praça da Polícia Militar do Ceará. Na foto que ilustra sua página no Facebook, posa batendo continência à frente de soldados do Raio, o equivalente cearense do Bope do “capitão Nascimento”, o personagem dos filmes “Tropa de Elite”.

Filho de um pastor da Assembleia de Deus e de uma revendedora de cosméticos, André viu na internet um jeito de extrapolar os horizontes do interior do Ceará. No post fixado desde 2015 em sua página no Twitter, declara: “Um dia eu ainda vou ser conhecido pra caralho”. E, ao lado, “Deus acima de tudo!”.

Se todas as pessoas que seguem a página de André Fernandes no Facebook morassem na mesma cidade que ele, Cariús cresceria 31 vezes e se tornaria a 16ª maior não-capital do país. Ao contrário dos mais de mil municípios brasileiros que estão encolhendo, a andrelândia virtual tem crescimento explosivo. Saiu de zero para 579 mil seguidores em menos de dois meses.

O sucesso não partiu do nada, porém. Durante três anos André investiu em um canal próprio no YouTube, onde publicava vídeos humorísticos, inspirado inicialmente em PC Siqueira e, depois, no superstar piauiense Whindersson Nunes. Ultrapassou os 300 mil seguidores, chegou a ganhar R$ 2 mil por mês em propaganda, mas, no começo do ano, a receita caiu por problemas que ele atribui à plataforma. Canalizou sua energia para polemizar no Facebook.

Antes da declaração pública de voto em Bolsonaro, outro vídeo de André já havia sido visto 7 milhões de vezes. Nele, critica a “inversão de valores” dos que chamam de vítima da sociedade quem ele chama de ladrão. Mais especificamente, o menor de idade que teve tatuado à força na testa “sou ladrão e vacilão”.

André sintetiza seu sucesso: “Muita gente tem vontade de falar mas não tem coragem. Eles dizem para mim: ‘Isso me representa. Não tenho coragem de dizer mas tenho de compartilhar’.”