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Dilma, Bolsa e o aparelho excretor

Jose Roberto de Toledo

29 Setembro 2014 | 20h28

A Bovespa derreteu nesta segunda-feira por dois motivos: 1) a expectativa da “bala de prata” contra Dilma Rousseff (PT) que fez o mercado subir na sexta mostrou-se um traque; 2) a desvalorização da esperança de agentes do mercado na candidatura de Marina Silva (PSB), após o Datafolha de sexta-feira mostrá-la quatro pontos atrás da petista na simulação de segundo turno.

Isso não quer dizer que a Bolsa não possa voltar a subir se as pesquisas desta terça-feira, do Ibope e do Datafolha, mostrarem uma diferença menor a separar Dilma de Marina no segundo turno. O mercado é antes de tudo bipolar. Alterna humores com a velocidade e regularidade de um pisca-pisca.

A “bala de prata” seria uma denúncia bombástica, uma gravação incriminadora, uma prova irrefutável que ligasse a corrupção na Petrobras à presidente. O que saiu era tão frágil que virou uma antinotícia – a percepção de que a tal “bala de prata” é tão real quanto o lobisomem. Logo, metade da queda da segunda-feira foi para compensar a alta infundada da sexta-feira.

A outra metade da baixa desta segunda foi provocada por um choque de realidade com as contradições e fragilidades da candidatura de Marina. Percebeu-se que ela não ganhará esta eleição na base da inércia. Não existe um eleitorado que votará nela não importa o que faça ou deixe de fazer. Ao contrário, o eleitor precisa ser conquistado, e, para isso, é preciso fazer uma campanha consistente e convincente. Não tem sido o caso.


A incerteza já era grande desde o começo da semana passada, o que fez diminuir o volume de negócios voluntários – descontadas as negociações de ajustes obrigatórios e trocas de chumbo entre fundos diferentes de mesmos gestores. Com baixa liquidez, aumenta a volatilidade. Quaisquer vendas de maior volume têm influência grande sobre o mercado e viram quedas expressivas.

A ciclotimia do mercado não encontra refresco nem na hipótese de Aécio Neves (PSDB) vir a capturar eleitores que estão abandonando a canoa de Marina e, eventualmente, vir a tomar dela o segundo lugar e ir para o turno final contra Dilma. Nesse cenário, investidores e petistas concordam: seria uma reedição da eleição de 2010, e provavelmente com o mesmo desfecho.

Como em toda reação ciclotímica, há que se descontar os exageros. Esta eleição já mostrou mais de uma vez que muito pode mudar até que os votos sejam confirmados na urna eletrônica. O próprio pessimismo do mercado – que aposta deliberadamente contra Dilma – pode acabar ajudando-o a se tornar mais otimista.

Se o pessimismo continuar a desvalorizar o real frente ao dólar e isso vier a aumentar a inflação antes do segundo turno, a previsão negativa pode se autorrealizar, afetar o bolso dos eleitores e acabar atrapalhando as chances de Dilma. Ou não.

A presidente recobrou o favoritismo, não cometeu nenhum erro fundamental nas últimas semanas e ainda conta com a sorte. O “aparelho excretor” de Levy Fidélix (PRTB) foi tudo o que sobrou nas redes sociais do debate dos presidenciáveis no domingo à noite. Sua repercussão foi tão avassaladora que ninguém se lembra de eventuais gafes da petista. Quando não perde, o favorito ganha. Sem querer, a homofobia nanica ajudou Dilma.