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Charlottesville à brasileira

Jose Roberto de Toledo

17 Agosto 2017 | 00h10

Neonazistas desfilando orgulhosamente em Charlottesville, a cidade de Thomas Jefferson, o autor da inspiradora declaração de independência dos EUA, foi chocante. Ver um deles matando covardemente quem se levanta contra o racismo, em atentado para inspirar terror, fez do escândalo tragédia e ameaça. Mas o presidente relativizar tudo isso ao equiparar a vítima ao algoz (duas vezes) dá tentação de invocar Drogon e gritar “dracarys”.

Tentação passageira e irrealizável, decerto. Dragões voadores e incendiários só aparecem nas noites de domingo e, ainda assim, confinados às telas para onde escaparam das páginas de ficção.

A “alt-right” e seu inspirador com cabelos à la Targaryen, porém, estão aí todo dia, toda hora, em todo lugar. Não são ficcionais, mas evocações fantasmagóricas de um passado que se esperava morto e enterrado. Trump está ajudando a exumá-lo.

No Brasil, fantasmas políticos não são levados a sério – como Trump não era nos EUA. Quando só apareciam segurando um cartaz em uma manifestação ou fazendo um comentário preconceituoso em uma mídia social, eram tachados de malucos excêntricos. Quando se multiplicaram e passaram a ter validade estatística, continuaram a ser considerados exotismo e motivo de piada.


Mesmo depois de elegerem bancada no Congresso, de se tornarem arroz de festa em protestos e de comentarem todo post de Facebook que trate de política, os saudosos da ditadura e do obscurantismo continuam sendo tratados como café-com-leite. O Brasil parece se julgar imunizado ao que aconteceu meio século atrás. Esquece-se que a maioria do eleitorado de hoje não tomou essa vacina. Não viveu a doença nem foi educada sobre ela.

Passado o perigo imediato, os humanos baixam a guarda. A recidiva da Aids entre os jovens que não vivenciaram a epidemia dos anos 80 e 90, ou a ressurgência periódica de doenças contagiosas que dependem de vetores erradicáveis são lembranças constantes de como a memória é menos perene que a ameaça.

Os sintomas, entretanto, estão aí para quem quiser conferi-los. Organizações políticas que execram a política a pretexto de combater a corrupção e o esquerdismo? Check. Sites de notícias falsas que conseguem viralizar com frequência nas mídias sociais? Check. Financiadores dispostos a bancá-los? Check. Militância organizada e capaz de ir às ruas? Check. Aventureiros dispostos a surfar essa onda a qualquer preço? Check.

Se o vírus existe e está incubado, quais são as condições de saúde do organismo social para resistir a ele? As piores. As defesas imunológicas representadas pelas instituições jamais estiveram tão baixas. As taxas de confiança no Congresso, na Presidência da República e nos partidos nunca foram menores. Para completar, a Justiça entrou na mira da opinião pública.

Tudo isso em meio à maior recessão econômica experimentada em duas ou três gerações – com desemprego recorde, extinção progressiva dos melhores empregos formais, desocupação especialmente alta entre jovens, mesmo entre quem fez faculdade. Sem contar o déficit público explosivo a generalizar os cortes de gastos sociais que serviriam de proteção para o tombo.

O que falta, então, para desencadear um processo equivalente ao que aconteceu nos EUA e provocou a assunção ao poder de um “mad king” de cabeleira descolorida e esvoaçante? O catalisador.

Em comparação a Enéas, Jair Bolsonaro tem capacidade eleitoral ampliada. Mas o quarto do eleitorado que admite votar nele o faz menos por entusiasmo com a figura do que pelas ideias que simboliza. Por isso, ele se arrisca a perder esses votos se outro conseguir personificar o Trump brasileiro. Candidatos não faltam.