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Quem Faz

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO é jornalista. Escreve uma coluna semanal sobre política no Estado, coordena o Estadão Dados e é presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo)

segunda-feira 06/04/15 01:06

A morte da inocência

O assassinato de um menino de dez anos pela Polícia Militar do Rio de Janeiro e a aprovação preliminar pelo Congresso da redução da maioridade penal colocaram, tragicamente, a infância no centro do noticiário. Dois fatos aparentemente desconexos, a centenas de quilômetros um do outro, mas que se complementam para explicitar como o Brasil trata parte de suas crianças. Pela dita ordem natural das coisas, os filhos deveriam enterrar os pais. Mas esse é um conceito moderno. Durante milênios da história ...

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sábado 04/04/15 01:03

A corrupção sem graça

Ministro da Fazenda, Joaquim Levy disse, em inglês, que “no Brasil, a maioria das empresas não gosta de pagar impostos”. E completou: “Nem quer pagar contribuição previdenciária”. Doleiro e cagueta, Alberto Youssef tem opinião sobre o tema: “Neste país, empresário não consegue nada se não tiver lobby”. Delata sua própria experiência. No caso de Levy, espera-se que não. Nenhum dos dois se referia à Operação Zelotes, mas poderiam. “Quem paga imposto são os coitadinho (sic), quem não pode fazer acordo, ...

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quarta-feira 01/04/15 19:27

Maioria perdeu esperança de o governo melhorar

Ao alinharmos as pesquisas Ibope e Datafolha sobre avaliação do governo Dilma Rousseff, vemos que repetiu-se em 2015 o fenômeno de acumulação de tensões e explosão abrupta da insatisfação - como ocorrera em 2013. A diferença é que, desta vez, a avalanche foi mais ampla e profunda. Atingiu camadas que antes resistiram à onda de criticismo. Agora, a avalanche não apenas soterrou a popularidade da presidente. Ela corroeu a esperança da maioria da população de que ela possa vir a ...

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segunda-feira 30/03/15 19:30

A base movediça de Dilma

A perda de rumo do governo afetou a bússola dos partidos. Desde o mensalão que as bancadas partidárias na Câmara dos Deputados não mostram tanta falta de coesão interna. Sem o magnetismo do Executivo, os parlamentares perderam seu Norte e vagam a esmo nas votações. Há deputados do mesmo partido com taxas de governismo tão díspares quanto 29% e 100%. Mais do que nunca, a chamada base governista virou base movediça.

Que, no Brasil, quase todos os partidos se norteiam pelo governo e não por uma ideologia, os cientistas políticos já estão cansados de dizer, escrever e provar. Ao votar qualquer coisa, a maioria dos deputados toma uma decisão binária, a favor ou contra o governante da vez. A origem desse comportamento vem da questão que depurou o homo politicus desde Platão: ele ganha ou perde, naquele momento, apoiando quem dá as cartas e verbas?

Esse cálculo varia ao longo do tempo. Raros deputados mantêm uma fidelidade canina ao governo ou, o contrário, sempre votam para contrariá-lo. A regra é oscilar ao sabor da opinião pública, da distribuição de cargos e de recursos para suas emendas ao orçamento, além de dezenas de outras variáveis. Quando o governo sabe o que faz, essa oscilação ocorre em bloco, com a maioria dos deputados seguindo a orientação do líder do seu partido.

Além de respeitar seu instinto de sobrevivência, comportar-se assim é muito mais fácil. Poupa-o de estudar o mérito do que está votando, de pesar argumentos e ouvir o outro lado. Contra ou a favor, e pronto. Está liberado para ir jantar no Piantella ou pegar o voo para casa, porque até que enfim é quinta-feira.

As exceções que confirmam a regra são as votações que contrariam a opinião de quem elegeu ou financiou o deputado. Um evangélico não vai arriscar-se a apoiar o governo em uma bola dividida sobre aborto. Assim como tem deputado que não vai bater de frente com os interesses de mineradoras e construtoras.

Esse arranjo de forças valeu até o ano passado. Desde que a Lava Jato começou a encher carceragens com poderosos, houve uma revolução na física partidária. A força gravitacional exercida pelo governo diminuiu tanto que, desde então, o cálculo sobre a conveniência de apoiar ou não Dilma Rousseff complicou-se. Não está claro para os deputados se eles ganham ou perdem ao seguir a orientação do líder do governo, ou mesmo do seu partido.

Tome-se o PP, por exemplo. Era tão governista que tinha direito até a diretoria na Petrobras (ou tinha diretoria na Petrobras e era muito governista, você decide). Até o começo de 2014, mais de 80% dos votos do partido seguiam a orientação do governo. Vieram as ordens de prisão do juiz Moro, as delações e a taxa de governismo do PP despencou abaixo de 60%. Ficou mais perto da taxa do PSDB (45%) do que da do PT (87%).

Ao mesmo tempo, a coesão interna da bancada do PP foi para o espaço. Houve votações este ano em que 21 deputados do partido votaram de um jeito (a favor do governo) e 15 votaram de outro – como na apreciação da chamada lei dos caminhoneiros. Ou ao contrário. Na votação do orçamento impositivo, sua bancada dividiu-se novamente em 21 a 15, dessa vez contra o governo.

O mesmo fenômeno de desagregação repete-se com maior ou menor intensidade em quase todos os partidos da suposta base governista. É mais grave no PTB e no PP, mas também ocorre no PSD, no PROS, do PMDB e no PDT.

As únicas das maiores agremiações que conseguem manter-se coesas são as que estão nas extremidades do espectro político. Os deputados do PT e PC do B de um lado, e do PSDB e DEM têm se comportado em bloco na maioria das votações, uns a favor e os outros contra o governo, mas juntos nas diferenças.

Quanto maior a desagregação partidária, mais difícil o governo aprovar o que precisa. É tentador, nessas circunstâncias, operar no varejo e cooptar voto a voto. No passado, deu no que deu.

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sábado 28/03/15 19:33

O atropelamento das ideias

Partidarizar toda e qualquer ideia equivale a classificar, obrigatoriamente, cada proposta, programa ou pessoa como petista ou anti-petista. É um jeito fácil de simplificar o mundo, mas transforma debate em bate-boca, sufoca a argumentação sob o coro das torcidas e desintegra a sociedade ao dividi-la em guetos. Além de tudo, é suicida, pois inviabiliza os próprios partidos. Nunca, desde o fim da ditadura militar, tão poucos brasileiros se identificaram com uma agremiação partidária. O Datafolha mostrou que 3 a cada 4 ...

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segunda-feira 23/03/15 19:43

O eleitor São Tomé

Era visível, e a comparação das pesquisas Datafolha de 2015 e 2013 confirma: quem protestou contra Dilma Rousseff domingo não foi quem ocupou as ruas há 18 meses. Foi a vez dos pais, não dos filhos, saírem de casa. Na onda original, mais da metade dos manifestantes não chegava a 25 anos. Agora, a maioria absoluta tem mais de 36 anos. Na média, 13 anos de idade separam um grupo do outro. Mas as diferenças não são apenas geracionais. O típico ...

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segunda-feira 16/03/15 19:51

Idos com março

Contagem da PM à parte, tinha uma multidão na avenida Paulista ontem. Muito mais do que na sexta-feira. Tinha coxinha, sim. Mas também tinha quibe, empada e ovo colorido. Nunca se viu tanta fila nas bilheterias do Metrô num domingo. Talvez porque o neo usuário não tem bilhete único - e, quem sabe, se solidarizará pelo aperto no transporte coletivo a partir da nova experiência. Tinha gente pedindo intervenção militar, desenterrando slogans de 1964 e xingando a presidente, como tinha ambulante ...

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sábado 14/03/15 19:53

O ponto de não retorno

Mais de uma pesquisa telefônica sobre o governo Dilma Rousseff encontrou, nas últimas semanas, taxas de “ótimo/bom” inferiores a 10% e, mais grave, maioria de avaliações “ruim/péssimo”. Em todas, o saldo de popularidade da presidente supera os 40 pontos negativos entre quem tem telefone fixo em casa. Quanto mais recente a pesquisa, maior o déficit. O poço vai mais fundo. Desconte-se a omissão dos sem-telefone - entre quem ela costumava sair-se melhor. Ainda assim, a impopularidade de Dilma só é comparável ...

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segunda-feira 09/03/15 19:55

PP progride via PMDB

Nenhum partido progrediu tanto na Lista de Janot quanto o PP. Segundo colocado no ranking do procurador-geral, o PMDB não emplacou nem um quarto do número de alvos de inquérito do PP. Os pepistas listados incluem 3 senadores, 1 vice-governador, 2 ex-ministros, 18 deputados federais e 8 ex-deputados - inclusive o presidente do partido e o primeiro vice-presidente da Câmara. Todos são inocentes, até que os ministros do Supremo julguem o contrário. (Mesmo quem disse que estava andando e produzindo uma ...

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