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As noites do Jaburu

Jose Roberto de Toledo

10 Agosto 2017 | 00h10

Operação da Turma do Pudim para desacreditar a Procuradoria Geral da República e salvar Temer está sendo um sucesso. Com auxílio luxuoso da toga falante do Supremo, o procurador-geral em fim de mandato foi reduzido de flecha a alvo, nas manchetes. Sua sucessora nem posse tomou mas já teve que explicar reunião extra-agenda com o presidente, ocorrida na mesma hora e local que Temer reservara ao papo republicano com Joesley Friboi.

Sim, Raquel Dodge foi ao Palácio do Jaburu tarde da noite de terça-feira se encontrar com aquele que a instituição que comandará pediu licença ao Congresso para investigar. Investigadora e não-investigado discutiram o horário de sua posse, explicou Dodge. A cerimônia acontecerá daqui a 40 dias. Assunto tão urgente só poderia mesmo ser discutido tête-à-tête.

Ao submeter-se ao cenário montado pela Turma do Pudim, a futura procuradora-geral fez a alegria dos teóricos da conspiração. Por que pessoalmente? Por que no Jaburu, onde Temer mora, e não no Planalto, onde ele despacha? Por que tão tarde? Por que a reunião não foi anunciada previamente? Cada uma dessas perguntas pode ter uma explicação aceitável. Agora, porém, pouco importa.

A esta altura, o que a procuradora e Temer de fato conversaram é menos importante do que o simbolismo projetado no imaginário político por esse encontro armado para parecer mais do que foi. Para deputados do “Centrão” que alugaram os votos que barraram o primeiro pedido de investigação do presidente feito pela Procuradoria, fica parecendo que Jucá tinha razão: Temer está “com o Supremo, com tudo”. É estímulo para renovarem o aluguel.


Para o PT e Lula, o encontro é gasolina para incendiarem a militância. Também dá pano para remendarem a fantasia de vítima.

Para a maioria do eleitorado, reforça o chavão de que são todos iguais, de que ninguém se salva. O descrédito de todas as instituições ajuda a Turma do Pudim. Se não há esperança, tanto faz manter Temer ou trocá-lo por um genérico. Poucos se animarão a protestar na rua se não houver alguém diferente para colocar no lugar. Vale o conselho porco: se irremediavelmente enlameado, arraste o adversário ao chiqueiro – lá, serão indistinguíveis.

Faltou à futura procuradora-geral brasileira a providência do ex-diretor do FBI James Comey. Chamado para um encontro a dois com Donald Trump na Casa Branca, o chefe da polícia federal dos EUA redigiu memorando oficial relatando o conteúdo da conversa. Tornou assim público que o presidente pedira-lhe para abortar investigação que poderia custar o cargo ao recém-empossado. Comey sabia que parecer honesto é tão importante quanto sê-lo.

Mas, para isso, é preciso ser o narrador da própria história. Sobra o eventual aprendizado que Dodge tirou da passagem pelo Jaburu. E o que fará daqui em diante para zelar pela imagem da Lava Jato e da Procuradoria. A depender da reação dos colegas, a procuradora pode sentir-se estimulada a dar demonstrações explícitas de independência. Seria irônico se, ao fim, os “spin doctors” de Temer vissem a história virar-se contra eles.

Reincidência

“Distritão” é o apelido que as viúvas do parlamentarismo dão ao modelo eleitoral importado do Afeganistão e que tem tudo para encarecer a já caríssima eleição de deputado federal no Brasil. Nesse sistema, o partido só serve para canalizar dinheiro. É cada um por si e ninguém por todos. Quem gasta mais leva.

O PSDB acha que o “distritão” é uma ponte para o voto distrital e para o fim do sistema presidencialista, duas vezes referendado como o preferido da população. É a segunda vez que os tucanos transitam por uma pinguela erguida por Temer e Eduardo Cunha.