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As limitações de Bolsonaro

Jose Roberto de Toledo

02 Novembro 2017 | 00h03

Bastou um “Oi?” espantado da jornalista para Jair Bolsonaro viralizar nas mídias sociais – mas, desta vez, de um jeito bem diferente do que ele está acostumado. Em vez de atacar rivais, as páginas de apoio ao presidenciável pró-ditadura tiveram que defender seu candidato. O motivo? Sua admissão pública de que não entende nada de economia. A repercussão negativa da entrevista reforçou a hipótese de que quanto mais Bolsonaro se expuser a perguntas, mais solavancos sua candidatura sofrerá.

O deputado e militar reformado enfrenta um dilema. Se quiser voltar a crescer na preferência dos eleitores, ele precisa se popularizar. Campanha pela internet, onde Bolsonaro produz mais interações do que qualquer outro candidato a presidente, é boa para quem pede voto porque não há contraditório. Ele só fala o que quer e não ouve o que não quer. Mas a campanha virtual tem limites: só atinge o eleitorado das classes de consumo A, B e C.

Eleitores maduros e pobres, das classes D e E, não passam o dia no Facebook ou no Instagram, como o jovem e típico eleitor de Bolsonaro. Os bolsonaristas são quatro vezes mais comuns entre os mais ricos do que entre os mais pobres, segundo o último Ibope: 24% a 6%, no cenário com Lula e Alckmin. Por conta dessa elitização, o “buzz” sobre Bolsonaro é três vezes maior nas mídias sociais do que nas pesquisas de intenção de voto.

Essa superrepresentação na internet faz a candidatura do militar reformado parecer maior do que é. As carências não ficam evidentes, mas existem. Sem um partido grande para lhe dar palanque e estrutura de campanha nos estados nem tempo de propaganda na TV e rádio, restam poucos meios para o deputado atingir o eleitor pobre: as entrevistas na mídia tradicional e, quando a campanha começar oficialmente, os debates na TV. O episódio de sexta-feira mostrou que aí ele pode se complicar.


Bolsonaro respondia descontraidamente a perguntas dos telespectadores lidas pela jornalista Mariana Godoy. Até que apareceu uma pegadinha: “Qual sua opinião sobre o tripé macroeconômico?” A primeira reação do deputado foi rir. Depois, terceirizou a resposta: “Quem vai falar de economia por mim é minha equipe econômica no futuro”. Mas não parou por aí.

“O pessoal exige de mim conhecimento em economia, então teria que exigir entendimento em medicina: eu vou indicar o ministro da Saúde”. Continuou eximindo-se da necessidade de falar sobre temas técnico e exaltando o desempenho econômico dos presidentes militares. Foi aí que a entrevistadora soltou o “Oi?” estupefato e espontâneo que fez a alegria da internet. “Deixaram o Brasil com muita inflação; fizeram a dívida externa”, rebateu. Bolsonaro bem que tentou, mas não foi convincente na tréplica.

Os bolsonaristas acusaram o golpe. O incômodo ficou evidente pela quantidade de memes sobre o assunto que eles publicaram no Facebook desde então. Todos tentam desqualificar ex-presidentes em matéria econômica, para equipará-los a seu candidato. Mas nenhum ousou fazer o que nem Bolsonaro teve coragem de arriscar: dizer que ele entende do assunto.

Com 13% a 18% das intenções de voto no Ibope – dependendo do rol de adversários -, Bolsonaro está no limiar da passagem para o segundo turno. Excluindo-se quem diz que vai votar em branco ou anular, ele tem entre 16% e 19% do que seriam os votos válidos, nos cenários com Lula candidato. Por comparação, o petista passou ao turno final contra Collor em 1989 com 17%.

Diante do seu desempenho de sexta e da falta de voto dos demais candidatos, Bolsonaro poderia se dar ao luxo de restringir sua campanha à internet e evitar novas entrevistas. Vai que ouve outro “Oi?” por aí.