Análise: Ovada é aviso a Doria e demais políticos sobre ânimo para 2018

Vera Magalhães

08 Agosto 2017 | 08h15

Dentro de sua estratégia de se apresentar ao Brasil como o “anti-Lula”, forma pela qual foi retratado na capa de uma revista nesta semana, é conveniente a João Doria Jr. atribuir a ovada certeira com que foi recebido em Salvador a petistas intolerantes, mas que o prefeito tucano e os demais postulantes à Presidência não se enganem: a campanha de 2018 será daí para pior, nas ruas, nas redes sociais, nos palanques e nos debates.

A ovada em Doria e ACM Neto foi certamente articulada por um grupo de militantes interessado em mostrar ao empertigado tucano paulista que fora de São Paulo a história é outra, e que o Nordeste (ainda) é campo preferencial de jogo de Lula.

Mas o mau humor com a política e os políticos, mesmo os que teimam em se negar como tais, é generalizado. Prova disso é o elevadíssimo índice de abstenção ou votos nulos na extemporânea eleição no Amazonas — em que, para piorar o ceticismo, passaram ao segundo turno duas figuras carimbadas da política das últimas décadas, com todos os seus vícios.

No plano particular, talvez o ovo que lambuzou o visual sempre impecável de Doria e atrapalhou seu big brother político promovido nas redes sociais trate de lhe acender uma luz de alerta.


Doria tem previstas viagens a nada menos que sete Estados apenas em agosto, seis delas no Nordeste e no Norte. Em setembro vai de novo ao exterior. E em outubro já tem na agenda uma ida ao Pará. Não há maneira minimamente crível de não caracterizar essa andança desenfreada como campanha presidencial antecipada.

Ainda mais quando, no afã de se tornar conhecido, o prefeito tuíta e posta a capa da revista que o lança em seus próprios canais nas redes, e aliados passam o domingo viralizando a reportagem em seus grupos no WhatsApp. Não é preciso nem desenhar.

Não foi por outra razão que Geraldo Alckmin se fez propositalmente ausente na foto que reuniu Doria e Michel Temer nesta segunda-feira. Mais experiente que o afilhado, o governador sabe que queimar etapas pode ser bom no slogan “acelera”, mas nem sempre o é em política, ainda mais num cenário tão hostil quanto este da política dizimada pela Lava Jato.

Posar ao lado de Temer, hoje, é pedir para levar ovada, real ou virtual. Alckmin não caprichou nem na desculpa: ficou assinando convênios para seus próprios projetos, algo que podia fazer em qualquer dia e lugar.

Temer fez discurso enaltecendo as qualidades de liderança “nacional” do prefeito. Na véspera, o tucano inaugurara paisagismo na avenida Brasil aproveitando o nome do logradouro para instalar várias bandeiras e dizer que o símbolo do país “jamais será vermelho”. Cor de que partido, mesmo?

Tanto pendor nacional de um prefeito eleito em primeiro turno há menos de um ano para administrar uma cidade justamente por ter se apresentado como gestor, e não político, começa a atingir Doria em seu nervo mais sensível: a popularidade.

Logo depois da ovada, as redes sociais foram inundadas de reações irritadas de paulistanos, que dizem que o prefeito deveria estar “prefeitando”, que foi eleito para tapar buracos, e não para receber comendas em Salvador, que só viaja, e outras manifestações nada favoráveis.

Doria pode acusar os detratores de petistas. Ou pode usar sua sensibilidade e entender os sinais. José Serra foi derrotado em 2012 por ter usado a prefeitura de São Paulo como trampolim para o governo em 2010. Gilberto Kassab era razoavelmente bem avaliado, e chegou a ser reeleito, até trocar o dia a dia da prefeitura por uma obsessão por criar o PSD, que o levou a, aos olhos da população, abandonar a cidade.

O paulistano é crítico e volúvel. No intervalo de pouco mais de uma década elegeu Marta Suplicy, então no PT, Serra, Kassab, o petista com pinta de tucano Fernando Haddad e, depois, o “gestor” Doria. Vai trocando de figurino à procura de alguém que ao menos mitigue os múltiplos e complexos problemas de uma cidade cronicamente inviável.

Ainda é cedo para Doria dar as costas à cidade tão constantemente. Isso o queima tanto com os eleitores daqui quanto com seu principal eleitor de 2016, Alckmin. E o torna presa fácil a ovos e outros objetos num Brasil que ele pode até desejar, não que ainda desconhece profundamente.

*Análise originalmente produzida para a Broadcast