Análise: Fracasso da vaquinha para Lula vale como pesquisa eleitoral

Vera Magalhães

26 Dezembro 2016 | 14h36

Justamente quando o presidente do PT, Rui Falcão, anuncia oficialmente o pré-lançamento da candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 2018, o fracasso da vaquinha criada para ajudar a custear a defesa do ex-presidente nas múltiplas ações a que responde funciona como uma perturbadora pesquisa eleitoral para o partido.

O “crowdfunding” lançado no último dia 7 chegou ao fim tendo arrecadado mais da metade da meta de R$ 500 mil reais estipulada. O site para as doações eletrônicas tinha o sugestivo nome de Catarse, mas parece que Lula não tem mais o poder de provocar esse fenômeno junto ao eleitorado. 

E iniciativas desesperadas como a vaquinha,  denúncia de perseguição política em organismos internacionais, a defesa aos berros nas audiências da Lava Jato, o patético vídeo natalino do ex-presidente e sua candidatura antecipada só terão como resultado comprovar, dia a dia, que a “Jararaca” já não é a mesma.

Ao passar o chapéu virtual, a campanha “Um Brasil Justo para Todos e para Lula” — como se Lula não pudesse ser enquadrado na categoria “todos”, por estar acima dela — conseguiu amealhar R$ 261,9 mil.

Pouco para a meta, mas ainda assim muito. Significa que várias pessoas se dispuseram a tirar dinheiro do bolso em ano de crise econômica e desemprego galopante acreditando que Lula é inocente nas cinco ações a que responde, e que não tem dinheiro para bancar às próprias custas os advogados — um deles o “compadre” Roberto Teixeira.

Parece muito principalmente depois do resultado das vaquinhas anteriores do PT: instados a ajudar a pagar as multas fixadas na Justiça aos condenados do mensalão, militantes petistas compareceram. Anos depois, um dos agraciados com as doações, José Dirceu, foi preso novamente sob acusação de ter recebido milhões em propina do petrolão disfarçados em consultorias. Uma quantia mais que suficiente para quitar as multas.

O fracasso na arrecadação de Lula mostra que a boa fé do eleitorado antes cativo do PT está se reduzindo. Iniciativas como essa e o vídeo em que Lula tem a coragem de falar que é preciso “restabelecer” um “ciclo” de eleições diretas no Brasil, como se ele tivesse sido interrompido, ecoam cada vez mais junto aos convertidos, que são cada vez menos.

Da mesma maneira, é um risco antecipar a candidatura presidencial: o PT acaba de ser praticamente varrido do mapa pelas urnas. Os processos contra Lula ainda estão no começo. E as delações da Odebrecht ainda virão à tona, com detalhes principalmente da tal “conta” que haveria em nome do ex-presidente no departamento de “operações estruturadas” da empreiteira.

Antes de ser acometido do desespero da Lava Jato, Lula costumava, de forma sensata, dizer que não se candidataria mais à Presidência para não correr o risco de terminar sua história menor do que já fora. Parece que a clarividência política foi mais um dos atributos que o petista foi deixando pelo caminho.