1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Unifesp cria núcleo de pesquisa para ajudar na identificação de mortos e desaparecidos

Roldão Arruda

terça-feira 01/04/14

Está surgindo na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) o primeiro núcleo de pesquisa do País na área de antropologia e arqueologia forense. Um de seus objetivos iniciais será colaborar na identificação de restos mortais de militantes políticos assassinados durante a ditadura e enterrados com nomes falsos ou em valas comuns, para impedir sua localização […]

Está surgindo na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) o primeiro núcleo de pesquisa do País na área de antropologia e arqueologia forense. Um de seus objetivos iniciais será colaborar na identificação de restos mortais de militantes políticos assassinados durante a ditadura e enterrados com nomes falsos ou em valas comuns, para impedir sua localização pelos familiares.

Segundo organizações de direitos humanos e especialistas no assunto, uma das principais dificuldades na questão dos desaparecidos brasileiros é justamente a falta de antropólogos e arqueólogos forenses. O País está atrás da Argentina, cujos especialistas obtiveram avanços significativos na identificação de pessoas mortas durante a ditadura militar (1976-1983); e do Peru, que também teve sucesso no caso de camponeses assassinados e enterrados em valas comuns durante conflitos armados entre 1980 e 2000.

Há mais de quatro meses que pesquisadores da Unifesp estão mantendo contatos com centros de estudos daqueles dois países para a montagem do núcleo. Esses contatos irão se intensificar no decorrer deste ano, com a presença no Brasil de argentinos e peruanos convidados pelo governo para trabalhar na identificação das mais de mil ossadas encontradas em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, em São Paulo, em 1990.

De acordo com estimativas da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e da Comissão Estadual da Verdade, ali podem ser localizados os restos mortais de cerca de vinte militantes políticos.

Por meio de um acordo celebrado há pouco entre o Grupo de Arqueologia e Antropologia Forense da Polícia Federal, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a Prefeitura de São Paulo e a Unifesp, as ossadas serão levadas para as dependências da universidade, na Vila Clementino, na Zona Sul de São Paulo. Lá já está sendo montada uma área de pesquisa, com 420 m2, para recebê-las. Posteriormente ela passará ao núcleo de pesquisa.

De acordo com a reitora da Unifesp, professora Soraya Smaili, o núcleo é uma demanda nacional. “Estamos recebendo apoio de todos os lugares”, afirmou. “Existe uma clara percepção de que a forma como os trabalhos de identificação foram conduzidos até agora, tendo o médico legista como figura central, está errada. Ele pode fazer parte da equipe, mas o trabalho é multidisciplinar, com arqueólogos e antropólogos no centro.”

Acredita-se que o grupo da Unifesp também poderá atuar na identificação dos desaparecidos de hoje.

Além do arqueólogo e do antropólogo o grupo inicial de pesquisa contará com a participação de um geneticista, um patologista, legista, historiador e sociólogo, entre outros. “É uma equipe que trata desde a situação histórica em que ocorreu o desaparecimento, os depoimentos dos familiares, a análise do solo onde foram encontrados os restos mortais, à coleta de material genético para comparações”, diz a reitora.

Logo após sua localização, durante a gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1993), as ossadas de Perus foram levadas para a Unicamp. Os pesquisadores daquela instituição, porém, não obtiveram avanços. De lá o material voltou para São Paulo, onde aguarda, há mais dez anos, em sacos esquecidos no Cemitério do Araçá, por uma nova análise.

Acompanhe o blog pelo Twitter – @Roarruda