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“Quem está mentindo? Dilma ou os generais?”

Roldão Arruda

06 agosto 2014 | 23:04

A pergunta feita pelo jornalista Luiz Claudio Cunha, ao contestar documento das Forças Armadas sobre torturas, repercute nas redes sociais

O documento encaminhado pelas Forças Armadas à Comissão Nacional da Verdade, negando a existência de casos de tortura em instalações militares durante a ditadura, “é um monumento à insensatez e ao deboche”. Essa afirmação foi feita dias atrás pelo jornalista Luiz Claudio Cunha num longo e minucioso artigo de análise sobre o documento.

Publicado originalmente pelo Jornal Já, de Porto Alegre, o artigo de Cunha também apareceu no site de assuntos políticos Congresso em Foco e agora tem sido replicado e comentado em vários outros blogs e sites. Uma das questões principais apontadas no artigo é a contradição entre o que dizem os chefes da Marinha, Aeronáutica e Exército e os relatos de tortura feitos pela comandante suprema das Forças Armadas, a presidente Dilma Rousseff.

As violências infligidas à presidente ocorreram num dos endereços militares citados pela Comissão Nacional no pedido de esclarecimentos que enviou às Forças Armadas e que deu origem ao documento militar: a sede do Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do 2.º Exército, em São Paulo.

Diz o texto de Cunha: “No início de 1970, naquele lugar listado pela CNV, padeceu durante 22 dias de suplício uma estudante mineira de 22 anos, integrante dos quadros de comando do grupo guerrilheiro Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), onde era conhecida pelos codinomes de Estela ou Vanda. Na ficha da polícia, ela era identificada como Dilma Vana Rousseff, ou Linhares, seu nome de casada.”

Em seguida, ele apresenta a questão que dá título a este post: “Passadas quatro décadas, a guerrilheira, presa e martirizada Estela tornou-se a presidente da República Dilma Rousseff. Foi investida assim, pela força da democracia, na condição de comandante suprema das Forças Armadas. A torturada Dilma é, desde 2011, a chefe incontestável dos comandantes militares que hoje negam a tortura. Cria-se, assim, uma insuperável contradição ética e institucional entre a autoridade máxima do País e seus comandados de farda: Quem está dizendo a verdade? A presidente da República ou os comandantes das Forças Armadas?”

A pergunta será repetida outras vezes no decorrer do artigo. Uma delas: “Mente a presidente da República, comandante suprema das Forças Armadas, ou mente o Exército, a força militar mais poderosa da América Latina, com 220 mil homens e a maior concentração de blindados (2.000 tanques, 500 deles pesados) do continente?”

O jornalista reproduz na íntegra a entrevista que a presidente Dilma concedeu em junho de 2005 ao repórter Luiz Maklouf Carvalho, da Folha de S. Paulo, com o relato das torturas que sofreu. Começa assim: “Eu me lembro de chegar na Operação Bandeirante, presa…. Era aquele negócio meio terreno baldio, não tinha nem muro, direito. Eu entrei no pátio da OBAN e começaram a gritar ‘mata’, ‘tira a roupa’, ‘terrorista’, ‘filha da puta’, ‘deve ter matado gente’… E lembro também perfeitamente que me botaram numa cela. Uma porção de mulheres. Tinha uma menina grávida que perguntou meu nome. Eu dei meu nome verdadeiro. Ela disse: ‘Xi, você está ferrada’. Foi o meu primeiro contato com o esperar. A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar.”

Cunha, que hoje atua como assessor parlamentar em Brasília, conhece bem o tema da repressão nos anos da ditadura. Foi o autor da célebre reportagem publicada em novembro de 1978 pela revista Veja que revelou o sequestro dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti, numa ação que envolvia policiais do Brasil e do Uruguai.

Seu trabalho teve um duplo efeito. Pôs fim ao segredo da decidida participação do Brasil nas ações conjuntas dos governos militares de seis países do Cone Sul na chamada Operação Condor; e ajudou a salvar a vida dos dois sequestrados. Foram os dois únicos casos conhecidos de pessoas sequestradas nessas ações conjuntas que ficaram vivas.

No ano passado ele trabalhou como assessor Comissão Nacional durante as investigações sobre a Operação Condor. No mês passado, ao ler as 455 páginas do relatório produzido pelos comandantes militares sobre torturas em suas instalações, ficou indignado.

Escreveu que se trata de “um palavroso, maçante, insolente, imprestável conjunto de 455 páginas de relatórios militares que não relatam, de sindicâncias que não investigam, de perguntas não respondidas, de respostas não perguntadas e de conclusões nada conclusivas, camufladas em um cipoal de decretos, leis, portarias, ofícios e velhos recortes de jornais falecidos”.

Para ele, os chefes militares tentam defender o indefensável, que “nunca houve tortura, nunca aconteceu nenhuma grave violação aos direitos humanos nos quartéis nos 21 anos do regime militar imposto em 1964 pelas Forças Armadas que derrubaram o presidente João Goulart”.

No artigo, Cunha preocupa-se sobretudo em arrolar documentos, alguns deles produzidos por militares, que provam a existência de torturas nas instalações militares.

O pedido da Comissão Nacional foi enviado ao Ministério da Defesa no dia 18 de fevereiro. Era um relatório, de 118 páginas, com documentos, testemunhos e laudos periciais sobre a ocorrência de graves violações de direitos humanos em sete endereços de instalações militares, em São Paulo, Rio, Minas Gerais e Pernambuco.

Os militares demoraram quatro meses para responder. O maçudo relatório foi discretamente encaminhado à Comissão pelo ministro da Defesa, Celso Amorim, durante a Copa do Mundo, no dia em que o Brasil enfrentou o México.

Ao finalizar o artigo, Cunha faz uma cobrança à presidente. “A nação merece, agora, um esclarecimento da principal ocupante do Palácio do Planalto, que um dia circulou como presa pela sucursal do inferno, levou soco na cara, perdeu dente, sofreu hemorragia, passou frio, teve fome e sentiu medo, muito medo. Nem as conveniências de uma dura campanha eleitoral, que recomenda cautelas à direita e à esquerda, justificam o silêncio e a omissão diante desse grave paradoxo: a testemunha mais notável da tortura imposta pelo regime militar e agora negada pelos generais é justamente a comandante-suprema das Forças Armadas.”

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A íntegra do artigo no Jornal Já.

No site Congresso em Foco.

O comentário no blog Náufrago da Utopia.

Leia mais sobre Luiz Claudio Cunha.

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