Por meio de histórias pessoais, de perseguidos políticos, jornalista traça vigoroso painel do período do regime militar
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Por meio de histórias pessoais, de perseguidos políticos, jornalista traça vigoroso painel do período do regime militar

Roldão Arruda

26 Julho 2012 | 18h44

O jornalista Paulo Moreira Leite reuniu em livro um conjunto de nove reportagens que publicou, entre 1995 e 2009, em diferentes veículos de comunicação. São perfis, atualizados e revisados, de pessoas que se destacaram de alguma maneira na luta pelo fim do regime militar. Em meio ao tremendo esforço coletivo que livrou o País daquele período de violência e injustiças, elas encarnaram, em algum momento, a consciência democrática do País.

O resultado é positivo. Além de conter boas histórias individuais, A Mulher que Era o General da Casa funciona como um bom painel do período. Também é oportuno. Estimula reflexões no momento em que a Comissão Nacional da Verdade desenvolve esforços para mostrar a história real do regime, enfrentando a oposição de grupos que qualificam seu trabalho de revanchista.

Moreira Leite, reporter especial da revista Época, da qual já foi diretor, possui um texto vigoroso e envolvente e domina os fatos históricos. Para um jornalista, chama a atenção a desenvoltura com que manifesta seus pontos de vista sobre pessoas e acontecimentos, especialmente na apresentação do livro e nas partes revisadas – como se o  distanciamento dos fatos lhe desse maior segurança nas análises.

Therezinha Zerbini, a personagem que dá título à obra, foi uma das figuras mais destacadas nos movimentos pela anistia política. Os outros retratados são Jaime Wright, o pastor presbiteriano que garantiu ao cardeal Paulo Evaristo Arns a estrutura financeira e técnica na preparação do memorável Brasil: Nunca Mais; o sociólogo Florestan Fernandes, cassado e afastado de seu cargo de professor da USP, em 1968; José Mindlin, que se recusou a dar dinheiro para a Operação Bandeirantes, organização paramilitar que financiava a tortura; Armênio Guedes, dirigente comunista; Plínio de Arruda Sampaio, cujo nome figurava na lista dos primeiros cem brasileiros cassados em 1964; o rabino Henry Sobel, que não aceitou a versão de suicídio de Vladimir Herzog; o jornalista Washington Novaes, um dos primeiros a questionar a ação dos militares na Amazônia; e Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil durante o golpe militar.


 
Alguns retratados se encaixam melhor no painel do que outros. Sob essa perspectiva, recomendo ao leitor que comece a leitura pelos perfis de de Therezinha Zerbini, Jayme Wright, Plínio de Arruda Sampaio, Henry Sobel e Lincoln Gordon. A primeira parte do texto sobre José Mindlin, escrita em 1998, é a que parece menos burilada e mais deslocada do conjunto. Vale a pena, no entanto, seguir até o fim, até o acréscimo feito em 2011, quando o autor reúne informações sobre a participação de empresários no financiamento da tortura (um dos temas centrais do excelente Cidadão Boilensen, documentário de Chaim Litewski, lançado em 2009).

À primeira vista, não se compreende a presença de Lincoln Gordon, o embaixador que, sob ordens de John Kennedy, estimulou e deu apoio ao golpe contra o governo democraticamente eleito de João Goulart. Afinal, é o o avesso dessa história, como define o próprio autor. Aos poucos, porém, percebe-se o acerto de sua inclusão: ele amplia o alcance do painel, permite compreender melhor as raízes do golpe, além da chamada ameaça comunista. “A oposição a Goulart tinha bases materiais”, diz o autor.

Cada retratado cumpre um papel no conjunto da história. O perfil de Guedes permite expor os dilemas das diferentes facções de esquerda frente ao regime que trucidava a democracia; o exílio de Sampaio recorda a diáspora que se abateu sobre a América Latina com os militares no poder; o trabalho quase clandestino de Wright ao lado do cardeal Arns ilumina nomes de advogados que atuavam na defesa dos direitos humanos, como Luiz Eduardo Greenhalg, José Carlos Dias, Sigmaringa Seixas, Eni Raimundo Pereira; as opções de Fernandes deixam perguntas sobre o papel dos intelectuais.

Os textos também permitem comparações com os nossos dias. Desde as primeiras linhas do perfil de Wright, que viveu e morreu de forma modestíssima, é inevitável lembrar dos pastores neopentecostais de hoje, com sua teologia de resultados, já se encaminhando para a teologia da opulência. A tragédia pessoal de Sobel, o rabino que caiu no ostracismo após o episódio das gravatas em Miami, sobressai por outro motivo: a disposição e a sensibilidade do autor diante de temas tão delicados.

Moreira Leite faz parte da geração de brasileiros que cresceu e amadureceu sem exercitar o direito de votar para presidente da República e presenciou, em mais de uma ocasião, a brutalidade do regime militar. Entre os episódios que o marcaram de maneira mais acentuada, recorda o dia em que, em 1973, numa das salas de aula da Universidade de São Paulo (USP), onde cursava ciências sociais, foi avisado da morte de Alexandre Vannucchi Leme. O rapaz, estudante de geologia, filho de uma família de professores católicos de Sorocaba, interior de São Paulo, havia sido preso por agentes militares, preso e executado.

Agora, quase quarenta anos depois, o jornalista defende o esclarecimento dos crimes cometidos pelos agentes de Estado contra cidadãos que teoricamente deveriam proteger. Seu livro é boa contribuição no esforço para se reconstruir a narrativa histórica do período.

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