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Os restos mortais de Campos e a república que não deu certo

Roldão Arruda

19 agosto 2014 | 20:32

O que há de comum ou de incomum entre os restos mortais de Eduardo Campos e as ossadas encontradas em Perus há 24 anos?

A viúva de Eduardo Campos, a economista Renata Campos, foi corretíssima no episódio da identificação dos restos mortais do marido. Em recado ao governador paulista Geraldo Alckmin, disse que não desejava nenhum privilégio. Pediu que o laudo de identificação de Campos só fosse liberado depois que todos os outros seis passageiros do Cessna acidentado na quarta-feira, dia 13, também estivessem identificados.

E assim foi. No prazo recorde de 64 horas após a tragédia em Santos, o Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo liberou os laudos. Democraticamente.

No sábado, os sete carros funerários deixaram a sede do instituto na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Dobraram à direita, subiram um quarteirão e, na Avenida Doutor Arnaldo, viraram à esquerda. Precedidos de batedores em motos e carros da Polícia Militar, contornaram o Cemitério do Araçá, preparando-se para alcançar a Avenida Sumaré e dali pegar o rumo do aeroporto.

Do alto, a TV mostrou o cemitério e, por alguns instantes, o teto do seu columbário. Um lugar que pouca gente conhece, mas que tem muito a ver com o cortejo que passava do lado de fora.

É lá que repousam, abandonadas em caixas e sacos plásticos, as ossadas de mil pessoas cujos familiares gostariam de ter tido um tratamento minimamente parecido com o que foi dado à viúva de Campos e dos outros passageiros do Cessna. Uma parte deles espera há 24 anos pela análise e identificação daquele material.

A suspeita é de que no meio das ossadas do columbário estejam os restos mortais de vítimas da repressão política nos anos da ditadura. Pessoas cujos nomes figuram há décadas em listas mortos e desaparecidos e cujos familiares nunca se cansaram de procurá-los.

As ossadas foram retiradas de uma vala comum no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, na Zona Norte de São Paulo. Construída em 1971, pelo então prefeito Paulo Maluf, e descoberta em 1990 pelo repórter Caco Barcellos, da Rede Globo, ela servia para receber, sem nenhuma identificação, restos mortais de indigentes, vítimas anônimas de esquadrões da morte organizados por policiais e da repressão política.

A operação de retirada foi coordenada pela prefeita Luiza Erundina, na época filiada ao PT e hoje no PSB – o mesmo partido de Campos. Ainda na administração dela, uma equipe de pesquisadores da Unicamp iniciou o trabalho de análises e identificou, em Perus, seis ossadas de desaparecidos políticos na ditadura. Dois estavam na vala comum e os outros em sepulturas individuais.

Essas identificações iniciais deram esperança aos familiares e força política às pressões para que as análises prosseguissem. Mas, ao final da administração Erundina, o trabalho foi suspenso e nunca mais retomado. Os sacos enviados à Unicamp foram devolvidos, dez anos depois, do mesmo jeito que haviam sido recebidos. Jogados no columbário do Araçá, continuam à espera de análises.

A novidade mais recente sobre o caso é a montagem de um centro de pesquisas na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para analisar as ossadas, entre outras tarefas. Autoridades do Estado e da União sempre disseram, nesse caso e em relação aos restos mortais de outros desaparecidos, que se trata de uma tarefa muito difícil, quase impossível de ser levada a cabo. A Unifesp vai até chamar técnicos da Argentina e do Peru para ajudar.

Nada disso foi necessário no caso das vítimas do acidente em Santos. O pouco que sobrou de seus corpos foi analisado por uma equipe de cinquenta profissionais dos institutos Médico Legal e da Criminalística de São Paulo, com o apoio de especialistas da Polícia Federal. Eles obtiveram a identificação, como já foi dito, em menos de três dias.

É possível que existam muitas explicações para essa diferença de tratamento. Pode-se afirmar que a comoção causada pela morte de um candidato a presidente da República nem de longe se compara à das mortes ocorridas tantos anos atrás. Ou que identificação das ossadas envolve questões políticas mais complexas. Tão mais complexas que nem a presença do PT no governo federal e a instalação da Comissão Nacional da Verdade conseguiram solucionar.

Pode-se dizer também que a república brasileira ainda não deu certo. Se tivesse dado, seus filhos não seriam tratados de maneira tão diferente. Talvez a senhora Renata já soubesse disso quando disse ao governador que não queria nenhum privilégio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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