1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Governo vai retomar análise de ossadas

Roldão Arruda

quinta-feira 28/08/14

Em final de mandato, governo anuncia reinício de trabalho de análise de 1049 ossadas encontradas em Perus. Familiares de mortos e desaparecidos esperam há 24 anos

A titular da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Ideli Salvatti, desembarca em São Paulo na quinta-feira, dia 4, para um encontro com familiares de mortos e desaparecidos políticos. Ela vai anunciar oficialmente a retomada da análise das ossadas encontradas numa vala comum do Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, em São Paulo. As famílias esperam há mais de duas décadas por essa iniciativa, como relatei dias atrás aqui no blog.

No total são 1049 ossadas. Não existe nenhuma estimativa oficial sobre o número de corpos de desaparecidos lançados na vala, mas alguns familiares afirmam que pode chegar a mais de 30.

O anúncio da ministra será feito durante um ato público na Assembleia Legislativa, com o apoio da Comissão Estadual da Verdade. A data foi escolhida foi por coincidir com o aniversário de 24 anos da descoberta da vala.

28ideli

Ela foi aberta durante a administração do prefeito Paulo Maluf, na década de 1970, para receber corpos de indigentes não identificados. Acabou servindo também para vítimas de grupos de extermínio paramilitares e militantes políticos de esquerda mortos pelos serviços de repressão.

A descoberta foi feita pelo jornalista Caco Barcellos, da TV Globo, em 1990. No mesmo ano, a prefeita Luiza Erundina determinou a abertura da vala e encaminhou as ossadas para análises na Unicamp. O serviço, no entanto, nunca foi executado.

Com a decisão a ser anunciada pela ministra, o material será retirado do Ossário Geral do Cemitério Araçá, onde está depositado desde 2002, depois de ter sido devolvido pela Unicamp. Deverá ser entregue à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. 

O acordo com a Unifesp para as análises foi possível por meio de negociações da qual participaram os familiares, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.

O material genético coletado pelos pesquisadores será encaminhado a laboratórios especializados. Depois serão feitas comparações com o material genético de familiares dos desaparecidos.

Segundo informações da Secretaria de Direitos Humanos, na primeira fase do trabalho serão gastos R$ 2,4 milhões na contratação de peritos e pagamento do aluguel das casas que abrigarão as ossadas.

Ideli foi nomeada para a pasta de Direitos Humanos em abril deste ano, durante a reorganização do ministério promovida pela presidente Dilma Rousseff. Substituiu a deputada federal Maria do Rosário (PT), que está em campanha pela reeleição.

Petista histórica e uma das fundadoras da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Ideli já havia passado pela Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República e pelo Ministério da Pesca e Aquicultura.

Desde que assumiu o cargo, adotou a questão da identificação das ossadas como uma de suas prioridades no mandato tampão. A continuidade do trabalho vai depender, no entanto, do próximo governo.

____________________________________

Acompanhe o blog pelo Twitter – @Roarruda