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Mundo ficou mais careta sem Gabriela, uma senhora puta

Roldão Arruda

21 Outubro 2013 | 17h33

Quando uma colega de redação me falou de uma prostituta que estava tentando organizar as colegas de trabalho para defender seus direitos, torci o nariz, não botei fé. Achei até que era vontade de aparecer. Afinal, como é que alguém ia organizar um grupo tão marginalizado? Tão lúmpen – devo ter dito, com as minhas fumaças esquerdistas de então.

Isso ocorreu por volta de 1980. Nos anos seguintes iria compreender que meu conceito de organização era limitado e que Gabriela Leite era uma puta valorosa. O objetivo de seu trabalho era a promoção dos direitos civis.

Ao longo de quase três décadas ela defendeu que a saúde é um direito de todos, trabalhou na prevenção da Aids, estimulou o sentimento de dignidade no meio de um grupo que a sociedade trata como se não existisse, lutou pela regulamentação de sua atividade profissional.

Lembrei dessas coisas quando, no dia 10, quinta-feira, soube que ela tinha morrido de câncer, aos 62 anos. Também lembrei que, mesmo aposentada e afastada da rua, preferia ser chamada de puta – daí o fato de usar a palavra no título desse post em sua homenagem. Dizia que era pra combater o preconceito que carrega.


Li que estudou ciências sociais na Universidade de São Paulo (USP). No final da década de 1960, na ditadura militar, decidiu abandonar a escola e o emprego que tinha num escritório para se tornar prostituta. Trabalhou na Boca do Lixo, em São Paulo, em Belo Horizonte e no Rio.

Em 1987 participou da organização do primeiro encontro nacional de prostitutas. Defendeu-se ali o reconhecimento da atividade como profissão.

Em 1992, fundou a ONG Davida, que promove estudos e debates sobre questões que envolvem interesses das prostitutas. É bom notar que Gabriela nunca se propôs a tirar essas mulheres da rua. O que defendia, como já lembrei, era a promoção da cidadania. “A prostituição é um direito sexual”, dizia.

“De mais a mais, as pessoas se esquecem de que as prostitutas estão lá no seu trabalho trabalhando porque tem alguém que vai lá procurar elas. Então existe essa demanda, existe na sociedade”, afirmou ao ser entrevistada no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2009. “Para mim a grande história é sair de debaixo do tapete, se mostrar e dizer: olha, eu sou uma delas e estou aqui, sou uma mulher inteirona, como qualquer outra mulher.”

Em 2002, finalmente, o Ministério do Trabalho reconheceu a prostituição como atividade profissional. A medida abriu caminho para o recolhimento de contribuições previdenciárias e o direito à aposentadoria.

Em 2005, Gabriela criou a grife Daspu, ironizando a Daslu, a meca dos artigos de luxo do País na época. Logo depois lançou o livro Filha, Mãe, Avó e Puta: A História da Mulher que Decidiu Ser Prostituta.

Na primeira página, apresentava suas três paixões: “Adoro homens, gosto de estar com eles, e não conheço homem feio. Outra coisa que adoro é falar o que penso, sem papas na língua. Quem ler este livro vai perceber isso. Existe uma terceira coisa que eu prezo muito, talvez a que mais prezo, aliás, que é a liberdade, liberdade de pensar diferente, de se vestir diferente, de se comportar diferente”.

Também contava no livro que era filha de uma dona de casa conservadora e que seu pai trabalhava em casas de jogo, recolhendo apostas. Aproveitou para falar às colegas de profissão sobre maneiras de se prevenirem contra doenças.

Participou das eleições de 2010 como candidata a deputada federal pelo PV do Rio. Não se elegeu, mas  aproveitou a campanha para defender o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, a união civil homossexual, o direito ao aborto e a regulamentação da prostituição.

Mais recentemente ajudou o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) na redação do projeto de lei que propõe o regime de aposentadoria especial para profissionais do sexo, permitindo que se aposentem após 25 anos de trabalho. No mesmo texto também está proposta a legalização das casas de prostituição, com o intuito de evitar a super exploração das mulheres.

O projeto, que leva o nome dela, está parado no Congresso. É combatido por grupos evangélicos e criticado por movimentos feministas. Fala-se que representa a institucionalização do patriarcado.

Na justificativa do projeto, o deputado Jean Wyllys escreveu que “atualmente os trabalhadores do sexo sujeitam-se a condições de trabalho aviltantes e sofrem com o envelhecimento precoce”.

Sonia Corrêa, fundadora da organização feminista brasileira SOS Corpo – Instituto Feminista para Democracia, pesquisadora da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) e integrante da coordenação da Sexuality Policy Watch, conheceu e desenvolveu vários trabalhos ao lado de Gabriela. Na semana passada pedi a ela que me dissesse algo pessoal sobre essa relação.

Sonia contou o seguinte: “Gabriela primeiro mexeu comigo de longe quando, por volta de 1979 ou 1980, li sua entrevista dizendo que as putas tinham direito a voz, ao trabalho digno, a ir e vir: direito a ter direitos. Depois me ensinou de perto em vários momentos. Lembro bem da primeira vez que a vi num debate sobre sexualidade no Recife: uma mesa em que estávamos eu, ela, Herbert Daniel. Esse era o tempo em que cantávamos Vai Passar (Chico Buarque). E depois continuamos passando, apesar disso, daquilo, daquilo outro. Apesar da “coisa”, da pedra no meio do caminho. Passamos ontem, passamos hoje e vamos passando. Vamos sentir muito a falta dela.”

Sonia finalizou dizendo que “o mundo ficou mais pobre, mais careta, mais covarde, mais cinza” sem Gabriela. Achei tão merecido e bonito que usei no título do post.

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