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Chacina da Lapa poderia ter sido evitada pelo Exército

Roldão Arruda

terça-feira 12/08/14 21:04

Morte de dirigentes comunistas, em 1976, contradiz ideia de que Geisel continha “excessos”, diz pesquisador

As mortes de três altos dirigentes do PC do B ocorridas no dia 16 de dezembro de 1976, durante a operação militar hoje conhecida como Chacina da Lapa, poderiam ter sido evitadas. É o que diz o jornalista Pedro Estevam da Rocha Pomar, autor de livro sobre o assunto.

Em depoimento enviado por escrito à Comissão Nacional da Verdade, na semana passada, ele observou: “O ataque foi premeditado e, se os militares quisessem, os dirigentes comunistas poderiam ter sido capturados, ao invés de fuzilados.”

No mesmo depoimento, ele defendeu mudanças na Lei da Anistia de 1979, com o objetivo de permitir a punição dos agentes públicos que cometeram graves violações de direitos humanos durante a ditadura.

O livro de Pomar – Massacre na Lapa: Como o Exército Liquidou o Comitê Central do PCdoB – é um dos relatos mais bem documentados sobre o episódio, ocorrido no bairro da Lapa, na zona oeste de São Paulo. No documento que encaminhou à Comissão Nacional, ele também disse que as mortes contrariam o que tem sido dito sobre as ações do presidente Ernesto Geisel para coibir as ações mais violentas das forças de repressão em seu governo.

“A operação contradiz frontalmente o mito criado pelo governo Geisel sobre o ‘fim dos excessos’ após a destituição do general Ednardo D’Ávila do comando do 2.º Exército”, escreveu, referindo-se à troca de comando logo depois dos assassinatos do jornalista Vladimir Herzog (outubro de 1975) e do líder sindical Manuel Fiel Filho (janeiro de 1976), em dependências militares. Segundo suas informações, a operação contou com o “prévio conhecimento e aprovação do general Dilermando Gomes Monteiro, o homem que Geisel colocou à frente do 2.º Exército no lugar de Ednardo.”

Os dirigentes mortos na casa foram Angelo Arroyo e Pedro Ventura de Araújo Pomar – avô do jornalista que enviou o relato à Comissão Nacional. Um terceiro integrante da organização, João Baptista Franco Drummond, morreu em dependências militares, após ter sido preso.

Os três haviam participado de uma reunião do Comitê Central do PC do B, realizada entre os dias 11 e 15 de dezembro, no número 767 da Rua Pio 11, na Lapa. Na manhã do dia 16, a casa foi cercada e submetida a uma intensa fuzilaria. Naquele momento a maioria dos dirigentes já havia deixado o local, tendo sido capturada pelas forças da repressão.

A operação foi coordenada pelo Centro de Informações do Exército (CIE) e levada a cabo pelo destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do 2.º Exército. Também participaram agentes do Dops – a delegacia de polícia civil que atuava na área de repressão política.

Segundo a apuração do jornalista, o cerco à casa durou quatro dias e contou com cerca de cinquenta agentes: “Um ofício confidencial revela que o Estado-Maior do 2.º Exército pediu à Secretaria de Segurança Pública, com dias de antecedência, o bloqueio da Rua Pio 11 na manhã de 16 de dezembro.”

Para justificar as mortes, o 2.º Exército distribuiu um comunicado oficial na época afirmando que havia enfrentado ‘resistência armada’. Segundo Pomar, as supostas provas da resistência teriam sido plantadas na casa pela equipe de policiais civis: “Há uma contradição flagrante nos laudos dos peritos quanto ao número de armas supostamente existentes no local.”

Os dirigentes presos na operação foram Aldo Arantes, Haroldo Lima, Elza Monnerat, Joaquim Celso de Lima, Maria Trindade e Wladimir Pomar – pai do jornalista. De acordo com o livro, só Maria Trindade não teria passado por sessões de tortura nos centros do DOI-CODI de São Paulo e Rio de Janeiro.

Pomar lembra que o desmantelamento da direção do PCdoB só foi possível porque Jover Telles, dirigente capturado meses antes no Rio, colaborou com os órgãos de repressão. Na lista de militares que ele aponta como responsáveis pelas mortes e torturas envolvendo os dirigentes comunistas, aparecem o general Dilermando, comandante do 2.º Exército, que autorizou o ataque à casa na Lapa; o tenente-coronel Rufino Ferreira Neves, que comandou o ataque; e o general Leônidas Pires Gonçalves, na época comandante do Estado-Maior e do CODI do 1.º Exército.

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