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Evangélicos investem nas eleições e ganham legitimidade, mas é preciso relativizar sua força, diz pesquisadora

Roldão Arruda

10 agosto 2012 | 18:21

O núcleo de pesquisa Religião, Gênero, Ação Social e Política, ligado à UFRJ, está realizando uma ampla pesquisa com líderes de igrejas evangélicas pentecostais. O objetivo é conhecer suas visões e atitudes em relação a temas como movimentos sociais, agências governamentais e sistema partidário. Entre os coordenadores do estudo, encontra-se a socióloga e professora Maria das Dores Campos Machado, que tem se dedicado a ouvir as lideranças, além de analisar seus pronunciamentos, entrevistas, debates.

Analisando o que viu, leu e ouviu até aqui, ela observa que os grupos religiosos estão recorrendo cada vez mais à política para ampliar sua capacidade de influência na sociedade e fortalecer suas igrejas. A marcante presença deles nas eleições municipais deste ano confirma essa tendência. De maneira geral, o projeto do grupo tem tido sucesso, mas é preciso relativizar a sua força. O poder de fogo evangélico é menor do que o apregoado, segundo a pesquisadora.

Um levantamento sobre os candidatos à Câmara, em São Paulo, apontou a presença de 15 pastores na disputa por uma vaga de vereador. A que a senhora atribui o aumento da presença de evangélicos nas eleições?

A política constitui um meio para dar legitimidade ao grupo e retirar os evangélicos do lugar de discriminação em que se encontravam. No passado, toda pequena cidade do País tinha como autoridades o prefeito, o juiz, o delegado e o padre. O pastor era discriminado.

Mas hoje não é mais assim.

O quadro está mudando. Chama a atenção, nas conversas com as lideranças evangélicas, as referências que fazem aos convites que recebem de prefeitos, que desejam falar de suas obras, prestar contas. Uma pastora me disse que antes os evangélicos eram considerados como gentinha, grupos de fanáticos, mas hoje começam a ser vistos como atores políticos.

O que muda com a conquista dessa nova posição?

Historicamente, os evangélicos sempre tiveram uma entrada forte na educação, por meio de universidades, colégios, como o Mackenzie em São Paulo. Nunca houve uma difusão forte de seu trabalho no campo da assistência social. Nos últimos anos, porém, ocorreu um deslocamento também para essa área, da assistência. À medida que entram na política, que fazem alianças com o Executivo, tanto no nível municipal quanto estadual e federal, os evangélicos também começam a obter verbas da assistência social, antes destinada somente a grupos católicos e espíritas.

 Estão ampliando o leque de interesses?

O recém-criado Partido Ecológico Nacional está associado à Assembléia de Deus. Muitos pastores fizeram coleta de assinaturas para a formação do partido, numa indicação de que a agenda política do grupo está sendo refeita. A mobilização em torno da questão ambiental significa que não estão mais interessados apenas na discussão do volume de decibéis que pode ser emitido pelas igrejas ou na oposição ao casamento homossexual. Novos temas estão sendo absorvidos pelos grupos evangélicos.

Também ampliaram o campo de alianças políticas?

Para ganhar posições e aumentar sua força política, eles ficaram mais abertos. O PRB, que tem ligações com a Igreja Universal, com o ministro Marcelo Crivella, tem como candidato em São Paulo um católico, o Celso Russomano. Isso significa que quando a igreja ajuda, quando se empenha na criação de um partido, desde a coleta de assinatura, ela não irá exigir necessariamente que o partido fique restrito, fechado àquela igreja. É um jogo destinado a ganhar espaço.

 Esse aumento da confiança política está relacionado às eleições de 2010?

Sim. Eles têm consciência de que agora são mais respeitados. Citam muito o acordo que fizeram naquela eleição com a então candidata Dilma Rousseff, do PT, e lembram que esse acordo tem sido respeitado. Conforme o combinado, o governo Dilma não apresentou nenhuma proposta relacionada ao aborto.

O IBGE apontou o crescimento da população evangélica. Isso significa um aumento automático da força política desse grupo?

É preciso relativizar um pouco essas informações. Observe os números da pesquisa do Instituto Datafolha sobre a Marcha Para Jesus. Eles mostram que o evento, assim como a Parada Gay, reúne uma quantidade de pessoas muito menor do que a divulgada pelos organizadores. Não são quatro ou cinco milhões de participantes como se alardeia. Estou dizendo isso para relativizar, mostrar que, embora exista uma grande capacidade de mobilização, ela é menor do que a apregoada. Outro exemplo disso são os grandes templos que estão sendo construídos, as catedrais evangélicas Assim como as catedrais católicas da Idade Média, elas têm um efeito espetacular, são capazes de impressionar as pessoas do lado de fora, mas, se você entrar, verá grandes espaços vazios, não utilizados.

O IBGE também mostrou um aumento no número de evangélicos que não estão ligados a igrejas.

Isso é resultado do crescimento númerico da população evangélica. À medida que o grupo cresce muito, os laços com a igreja se afrouxam, a capacidade de controle diminui, as normas se tornam mais flexíveis em relação às roupas, ao comprimento do cabelo, ao uso do véu. O grupo vai perdendo o diferencial, se tornando mais parecido com o conjunto da sociedade. Isso acontece com todas as religiões.

 

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