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Diretor de jornal católico ataca PT e defende saída de Dilma

Padre Michelino Roberto, diretor do jornal O São Paulo e pároco da Igreja Nossa Senhora do Brasil, nos Jardins, diz que a presidente Dilma Rousseff mentiu para se eleger. "Se a eleição fosse hoje, ela seria reeleita?", pergunta ele no Facebook

Roldão Arruda

11 Março 2015 | 19h53

O padre Michelino Roberto, diretor do jornal católico O São Paulo, da Arquidiocese de São Paulo, está defendendo no Facebook o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Na avaliação dele, Dilma mentiu para se eleger.

No dia 8, em  mensagem que postou para seus seguidores sobre o Dia Internacional das Mulheres, o padre escreveu: “Parabéns às que abraçaram a maternidade com amor. Meus sentimentos e orações à mulher egoísta e, por fim, fora Dilma, fora Dilma.”

Michelino Roberto tem 49 anos e dirige o jornal desde fevereiro do ano passado. Foi nomeado pelo arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Scherer.

Além de dirigir um dos mais conhecidos jornais católicos do País, Michelino é pároco da Igreja Nossa Senhora do Brasil, localizada nos Jardins, uma região de classe média e tradicional reduto eleitoral do PSDB em São Paulo.

Questionado no Facebook por um outro padre, que lembrou sua condição de diretor de um jornal que se notabilizou pela defesa das liberdades democráticas no período da ditadura, quando o cardeal Paulo Evaristo Arns dirigia a arquidiocese, o padre Michelino reagiu: “Creio que, ao manifestar publicamente minha indignação contra um governo que mentiu para ser eleito, estou em perfeita conformidade com a tradição do jornal que dirijo.”

MÃOS SUJAS

O jornal ainda não defendeu o impeachment. Em  editorial sobre o escândalo na Petrobrás, publicado na semana passada, com o título Mãos Sujas de Petróleo, o seu diretor escreveu:  “Os hábeis marqueteiros do governo querem desviar os olhos da população para o que, de fato, importa: nunca se montou um esquema tão aparelhado, tão ‘profissional’, para desviar dinheiro público.”

No editorial desta semana, que circula pelas paróquias da capital, ele defende o panelaço em defesa do impeachment registrado no domingo, 8, em algumas capitais.

Segundo o texto, a manifestação decorreu dos “ânimos abrasados pela publicação da lista de políticos suspeitos de atos de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha – a lista de Janot – levantada a partir da delação premiada, composta, em sua esmagadora maioria, por políticos membros dos partidos que compõem a base do governo.”

Na segunda-feira, 9, diante das polêmicas provocadas nas redes sociais pelo panelaço, o diretor do jornal postou a seguinte mensagem no Facebook: “Engraçado a lógica de alguns… Na época de Collor – eu saí nas ruas com a cara pintada ­–, pedir o impeachment do presidente era democrático. Pedir o impeachment da Dilma é golpismo. Dois pesos, duas medidas!!! E olha que os valores da corrupção apresentados eram bem menores. Só tenho uma objeção a fazer ao impeachment da Dilma: o PMDB vai lucrar de novo???? Ai, que dor e falta de esperança. Só Jesus salva!”

Na terça-feira, 10, ele voltou ao assunto, com a transcrição de um frase atribuída ao empresário Antonio Ermirio de Morais, que morreu no ano passado: “A política do PT é a arte de pedir votos aos pobres, pedir dinheiro aos ricos e mentir para os dois. Na realidade não sabem fazer mais nada na vida.”

PREOCUPAÇÃO

O padre que questionou Michelino Roberto no Facebook, Antonio Aparecido Pereira, já dirigiu O São Paulo. Ele escreveu em sua mensagem: “Meu Deus, padre Michelino! Diz a sabedoria popular, que prudência e caldo de galinha não faz mal a ninguém. Você já é conhecido como diretor de O São Paulo, um jornal que lutou pela redemocratização do Brasil. Dizer fora para alguém eleito democraticamente é perigoso. Confesso que fiquei preocupado…”

Procurado pelo Estado, o pároco da Igreja Nossa Senhora do Brasil disse que suas manifestações nas redes sociais refletem o que ele pensa como cidadão. “Tenho o direito de me manifestar”, afirmou.

Ele também disse que não toma posições partidárias: “Eu me comprometo com as causas, não com os partidos.” Explicou ainda que suas manifestações não refletem necessariamente a posição editorial de O São Paulo. “A posição do jornal será consolidada por um conselho editorial que está sendo formado.”

Oficialmente, a Igreja Católica ainda não se manifestou sobre o debate em torno do mandato da presidente. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tem defendido, juntamente com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que a questão prioritária é a reforma política.

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Para ler o editorial desta semana de O São Paulo, sobre a manifestação contra Dilma, no dia 8, clique aqui.